{"id":5167,"date":"2020-10-07T07:59:50","date_gmt":"2020-10-07T10:59:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5167"},"modified":"2020-10-07T07:59:50","modified_gmt":"2020-10-07T10:59:50","slug":"nas-entrelinhas-de-bem-com-o-teto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-de-bem-com-o-teto\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: De bem com o teto"},"content":{"rendered":"<p><strong>Parece incr\u00edvel, a velha pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o come\u00e7a a dar o ar de sua gra\u00e7a novamente, nas articula\u00e7\u00f5es de bastidor, envolvendo o governo Bolsonaro, o Congresso e o Supremo\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Um dos per\u00edodos mais turbulentos da Hist\u00f3ria do Brasil foi o regencial, entre a abdica\u00e7\u00e3o de D. Pedro I, em 1831, e o Golpe da Maioridade de D. Pedro II, ent\u00e3o com 15 anos, em 1840. Os liberais reivindicavam a amplia\u00e7\u00e3o da autonomia dos governos provinciais e a reforma de alguns aspectos contidos na Constitui\u00e7\u00e3o de 1824; os conservadores eram favor\u00e1veis \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da estrutura pol\u00edtica centralizada e \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o dos poderes reservados ao imperador. Foi um per\u00edodo em que a integridade territorial do Brasil e a monarquia andaram amea\u00e7adas por rebeli\u00f5es sangrentas: Cabanada (1832-1835), em Pernambuco; Farroupilha (1835-1845), no Rio Grande do Sul (Rep\u00fablica Rio-grandense) e em Santa Catarina (Rep\u00fablica Juliana); Cabanagem (1835-1840), no Par\u00e1; Revolta dos Mal\u00eas (1835); Sabinada (1837-1838), na Bahia; Balaiada (1838-1841), no Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse ambiente, ao assumir o governo, o jovem imperador D. Pedro II foi apoiado e prestigiou a presen\u00e7a de liberais no minist\u00e9rio, mas os esc\u00e2ndalos de viol\u00eancia e corrup\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es provocaram a dissolu\u00e7\u00e3o do gabinete liberal e convoca\u00e7\u00e3o dos conservadores de volta ao poder. Como as disputas entre ambos continuaram, a alternativa foi D. Pedro II buscar uma posi\u00e7\u00e3o de equidist\u00e2ncia e formar um gabinete com figuras ilustres das duas correntes pol\u00edticas. Foi assim que nasceu o Minist\u00e9rio da Concilia\u00e7\u00e3o, em 1853, encabe\u00e7ado pelo mineiro Hon\u00f3rio Hermeto Carneiro Le\u00e3o, o Marqu\u00eas de Paran\u00e1. Apesar de ter-se extinguido formalmente em 1858, esse sistema de alian\u00e7as se manteve at\u00e9 a d\u00e9cada de 1870, marcando o apogeu do per\u00edodo imperial, financiado pelos recursos advindos da exporta\u00e7\u00e3o do caf\u00e9. As press\u00f5es decorrentes da Guerra do Paraguai (1864-1870) e o crescimento das lutas pela aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o levariam \u00e0 ruptura da concilia\u00e7\u00e3o, resultando na cria\u00e7\u00e3o do Partido Republicano por setores liberais mais radicais, em 1870.<\/p>\n<p>O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, art\u00edfice de uma alian\u00e7a improv\u00e1vel entre o PSDB e o antigo PFL nas elei\u00e7\u00f5es de 1994, juntamente com o falecido deputado federal Luiz Eduardo Magalh\u00e3es (PFL-BA), recomendava a seus ministros e aliados a leitura de Um Estadista no Imp\u00e9rio, de Joaquim Nabuco, que exalta a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o como uma estrat\u00e9gia fundamental para consolida\u00e7\u00e3o do Brasil como na\u00e7\u00e3o e sua governabilidade. Era uma resposta \u00e0s cr\u00edticas que sofria por parte de lideran\u00e7as de seu pr\u00f3prio partido e da esquerda de modo geral, por causa das alian\u00e7as que fez com os setores conservadores, principalmente os pol\u00edticos que representavam as oligarquias do Norte e do Nordeste.<\/p>\n<p><strong>Pacto fiscal<\/strong><\/p>\n<p>Desde o Imp\u00e9rio, n\u00e3o foram poucos os momentos em que a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o renasceu das cinzas. A elei\u00e7\u00e3o de Prudente de Moraes, por exemplo, na sucess\u00e3o de Floriano Peixoto, em 1894, foi um deles, pois conseguiu pacificar o Rio Grande do Sul, negociando o fim da Revolu\u00e7\u00e3o Federalista (1893-1895). Outro momento importante foi o governo de Juscelino Kubistchek, eleito com base numa alian\u00e7a de pessedistas, trabalhistas e comunistas. No governo Jango, o regime parlamentarista foi uma tentativa de concilia\u00e7\u00e3o, encabe\u00e7ada por Tancredo Neves e San Tiago Dantas, que acabou frustrada pela volta do presidencialismo, em 1962, aprovado em plebiscito, e o radicalismo da esquerda, que n\u00e3o queria a volta de Juscelino, nas elei\u00e7\u00f5es previstas para 1965, em raz\u00e3o de sua pol\u00edtica de \u201cconcilia\u00e7\u00e3o com o imperialismo\u201d.<\/p>\n<p>Por mais incr\u00edvel que possa parecer, a velha pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o come\u00e7a a dar o ar de sua gra\u00e7a novamente, nas articula\u00e7\u00f5es de bastidor, envolvendo o governo Bolsonaro, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). \u00c9 um pacto conservador, que est\u00e1 sendo urdido a churrascos, peda\u00e7os de pizza, u\u00edsque, caf\u00e9 e tuba\u00edna, mas ningu\u00e9m pode negar que o primado da pol\u00edtica est\u00e1 se restabelecendo. Se a oposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 perplexa e imobilizada com o que est\u00e1 acontecendo, a extrema-direita bolsonarista, mais ideol\u00f3gica, est\u00e1 esperneando e se sentindo tra\u00edda. Os fatos est\u00e3o mostrando uma mudan\u00e7a de estrat\u00e9gia do Pal\u00e1cio do Planalto, al\u00e9m de um reposicionamento de outros atores pol\u00edticos, que sempre foram influentes no Congresso.<\/p>\n<p>O presidente da C\u00e2mara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o ministro da Economia, Paulo Guedes, por exemplo, que andavam se digladiando em p\u00fablico, selaram um pacto em defesa do teto de gastos, em nome da responsabilidade fiscal. O grande padrinho do encontro foi o senador Renan Calheiros (MDB-AL), por interm\u00e9dio do ministro do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU) Bruno Dantas e do seu atual presidente, Jos\u00e9 M\u00facio Monteiro, uma velha raposa pol\u00edtica pernambucana, que patrocinaram um jantar entre ambos, que teve como madrinha a senadora K\u00e1tia Abreu (MDB-TO). Isso quer dizer que tudo est\u00e1 pacificado? Longe disso. O senador M\u00e1rcio Bittar (MDB-AC) ainda n\u00e3o conseguiu arrancar da equipe econ\u00f4mica de Guedes uma fonte de pagamento para o Renda Cidad\u00e3, cujo relat\u00f3rio ficou para a pr\u00f3xima semana. Enquanto isso, o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e o l\u00edder do Centr\u00e3o, deputado Arthur Lira (PP-AL), disputam o controle da Comiss\u00e3o de Or\u00e7amento da Uni\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parece incr\u00edvel, a velha pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o come\u00e7a a dar o ar de sua gra\u00e7a novamente, nas articula\u00e7\u00f5es de bastidor, envolvendo o governo Bolsonaro, o Congresso e o Supremo\u00a0 Um dos per\u00edodos mais turbulentos da Hist\u00f3ria do Brasil foi o regencial, entre a abdica\u00e7\u00e3o de D. Pedro I, em 1831, e o Golpe da Maioridade de D. 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