{"id":5180,"date":"2020-10-11T12:24:52","date_gmt":"2020-10-11T15:24:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5180"},"modified":"2020-10-11T12:59:12","modified_gmt":"2020-10-11T15:59:12","slug":"nas-entrelinhas-dia-das-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-dia-das-criancas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Dia das Criancas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Passou da hora de as crian\u00e7as terem uma vida quase normal, o confinamento dom\u00e9stico prejudica o desenvolvimento infantil, ainda mais com o liberou geral do celular e eletr\u00f4nicos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Vivemos tempos sem beijos nem abra\u00e7os, entre amigos, familiares e at\u00e9 mesmo os amantes. A vida virou uma roleta-russa, todo dia chega uma not\u00edcia triste de algu\u00e9m que morreu e, em maior n\u00famero, para nossa alegria, das pessoas queridas que sobreviveram \u00e0 Covid-19. O isolamento social est\u00e1 sendo quebrado \u00e0 medida em que a taxa de transmiss\u00e3o da doen\u00e7a diminui e as pessoas ficam mais confiantes de que podem desenvolver certas atividades essenciais, com os devidos cuidados. Todos torcem pela vacina eficaz, chinesa, russa, inglesa ou norte-americana, e se arriscam um pouco mais.<\/p>\n<p>Tempos darwinistas sob todos os pontos de vista: sanit\u00e1rio, econ\u00f4mico, social. A sobreviv\u00eancia humana n\u00e3o est\u00e1 amea\u00e7ada, muitos tiram a doen\u00e7a de letra, como se fosse uma \u201cgripezinha\u201d, mas a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s conting\u00eancias do momento \u00e9 mais importante do que a resist\u00eancia f\u00edsica de cada um para sobreviver \u00e0 pandemia. Para isso servem a ci\u00eancia e a consci\u00eancia humana. Como diz o ditado, cautela e canja de galinha n\u00e3o fazem mal a ningu\u00e9m. Depois de tanto tempo, as comorbidades come\u00e7am a se tornar um problema muito grave, porque as pessoas deixaram de ir ao m\u00e9dico e ao dentista, reduziram as atividades f\u00edsicas, alimentam-se por ansiedade, adiaram ou interromperam tratamentos, subestimam pequenos sintomas, enfim, n\u00e3o d\u00e3o import\u00e2ncia aos sinais que o corpo nos envia. E t\u00eam os nervos \u00e0 flor da pele, o que agrava conflitos familiares e problemas psicomentais.<\/p>\n<p>Mas, h\u00e1 muita esperan\u00e7a e f\u00e9. Amanh\u00e3 \u00e9 dia das crian\u00e7as, os clubes est\u00e3o abrindo para receb\u00ea-las em relativa seguran\u00e7a, apesar da pandemia. Os templos tamb\u00e9m promovem cultos, recebendo as fam\u00edlias com maior ou menor distanciamento social, dependendo da f\u00e9 na ci\u00eancia de cada padre ou pastor. Crian\u00e7a \u00e9 sin\u00f4nimo de futuro. As escolas, por\u00e9m, estar\u00e3o fechadas. Desperdi\u00e7am a oportunidade de virar o jogo, jogar todos para cima. Por um desses mist\u00e9rios da cria\u00e7\u00e3o, desculpem-me o trocadilho, crian\u00e7as t\u00eam menos vulnerabilidade ao coronav\u00edrus, quando n\u00e3o t\u00eam comorbidades, \u00e9 claro; por\u00e9m, podem ser agentes transmissores da doen\u00e7a, porque geralmente s\u00e3o assintom\u00e1ticas quando contaminadas, dizem os especialistas. Por causa disso, os adultos est\u00e3o com inconfess\u00e1vel medo das crian\u00e7as, isso \u00e9 um problema.<\/p>\n<p>\u2014 Azedo, voc\u00ea n\u00e3o vai escrever sobre as crian\u00e7as?<\/p>\n<p>A pergunta foi feita por um amigo querido, o pediatra carioca Ricardo Chavez, parceiro de muitos blocos e passeatas, preocupado com o fato delas n\u00e3o estarem frequentando a escola. Entre os primeiros a defender o isolamento social, avalia que j\u00e1 passou da hora de as crian\u00e7as terem uma vida quase normal, o confinamento dom\u00e9stico prejudica o desenvolvimento infantil, ainda mais com o liberou geral do celular e outros equipamentos eletr\u00f4nicos. Mandou-me um artigo excelente sobre o tema, da colega Ruth de Aquino, de quem foi um dos interlocutores, que recomendo. Repassei o texto e a pergunta para outro amigo querido, Luciano Rezende, prefeito de Vit\u00f3ria, que conclui o segundo mandato com reconhecido \u00eaxito administrativo e zero esc\u00e2ndalos em oito anos. M\u00e9dico tamb\u00e9m, respondeu-me dizendo a mesma coisa. Seu problema \u00e9 convencer diretores de escola, professores e pais de alunos, na rede p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Pacto perverso<\/strong><br \/>\nDe mem\u00f3ria, porque emprestei o livro e n\u00e3o me devolveram ainda, lembro de certa passagem de A quarta revolu\u00e7\u00e3o (Portf\u00f3lio\/Penguin), de John Micklethwait e Adrian Wooldridge, sobre a desilus\u00e3o da sociedade com os governos. O Ocidente est\u00e1 ficando para tr\u00e1s. N\u00e3o se trata da chamada ind\u00fastria 4.0, como o t\u00edtulo induz, mas da necessidade de uma nova revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para reinventar o Estado. Vivemos uma corrida em busca de efici\u00eancia e efic\u00e1cia, n\u00e3o apenas nas inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Est\u00e3o em jogo os valores pol\u00edticos que triunfar\u00e3o no s\u00e9culo XXI. Vem da\u00ed a tens\u00e3o no mundo entre for\u00e7as reacion\u00e1rias e democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Quando o livro fala dos lobbies corporativos, cita dois exemplos da Calif\u00f3rnia. O dos agentes penitenci\u00e1rios, focado na luta contra a viol\u00eancia e a criminalidade, que conseguiu endurecer a legisla\u00e7\u00e3o e multiplicar o n\u00famero de pres\u00eddios e a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria, sem reduzir a viol\u00eancia, \u00e9 claro. E o dos professores, que t\u00eam muito mais poder de press\u00e3o sobre os pol\u00edticos, porque conseguem mobilizar os pais de alunos. Pesquisando, vi que em abril do ano passado, por exemplo, pais de alunos de S\u00e3o Francisco promoveram uma campanha para arrecadar fundos para uma professora, ap\u00f3s descobrirem que ela, al\u00e9m de lutar contra um c\u00e2ncer de mama, pagava seu pr\u00f3prio substituto na escola. O relato do caso no San Francisco Chronicle gerou indigna\u00e7\u00e3o em escala nacional, chegando ao Senado. Ao jornal The Washington Post, Eric Heins, presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Professores da Calif\u00f3rnia, denunciou que o sistema de financiamento da educa\u00e7\u00e3o sobrecarrega os professores e n\u00e3o os poupa, nem mesmo em momentos cr\u00edticos, como per\u00edodos de doen\u00e7a grave.<\/p>\n<p>Desde 1970, na Calif\u00f3rnia, o acordo coletivo dos professores garante 10 dias de folga para tratamento de sa\u00fade, que podem ser prorrogados por mais 100 dias, mas s\u00e3o descontadas do sal\u00e1rio as despesas com o substituto, entre US$ 174 e US$ 240 a di\u00e1ria. Um educador infantil recebe por m\u00eas, em m\u00e9dia, US$ 4.931,67; um professor prim\u00e1rio, US$ 4.971,67; no ensino m\u00e9dio, US$ 5.138,33. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), em relat\u00f3rio de ter\u00e7a-feira passada, no ensino infantil brasileiro os professores receberiam por m\u00eas o equivalente a US$ 2.063,75; no primeiro grau do ensino fundamental, US$ 2.083,75; e no segundo, US$ 2.089,33. A alta do d\u00f3lar, com certeza, distorceu esses n\u00fameros. O piso do Fundeb \u00e9 de R$ 2.886,24, sendo que apenas 11 estados cumprem essa regra, segundo o Dieese. No c\u00e2mbio oficial, isso equivale a US$ 521,04. Por isso, desconfio que as nossas escolas p\u00fablicas j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o fechadas por causa da pandemia; est\u00e3o sem aulas por causa dos sal\u00e1rios e, em muitos casos, das condi\u00e7\u00f5es em que se encontram. Quem paga o pato s\u00e3o as crian\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passou da hora de as crian\u00e7as terem uma vida quase normal, o confinamento dom\u00e9stico prejudica o desenvolvimento infantil, ainda mais com o liberou geral do celular e eletr\u00f4nicos Vivemos tempos sem beijos nem abra\u00e7os, entre amigos, familiares e at\u00e9 mesmo os amantes. 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