{"id":5184,"date":"2020-10-13T07:31:50","date_gmt":"2020-10-13T10:31:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5184"},"modified":"2020-10-14T07:47:35","modified_gmt":"2020-10-14T10:47:35","slug":"o-peso-da-imprudencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-peso-da-imprudencia\/","title":{"rendered":"O peso da imprud\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><strong><i>Falta-nos um projeto capaz de construir consensos pol\u00edticos majorit\u00e1rios e resgatar nossa coes\u00e3o social, para uma grande reforma democr\u00e1tica do Estado e a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades<\/i><\/strong><\/p>\n<p>Num de seus ensaios sobre a Fran\u00e7a no s\u00e9culo XX \u2014 O peso da responsabilidade (Objetiva) \u2014, o historiador brit\u00e2nico Tony Judt, falecido em 2010, aos 62 anos, analisa a vida p\u00fablica francesa entre a Primeira Guerra Mundial e os anos 1970. Como se sabe, o primeiro grande Estado-na\u00e7\u00e3o da Europa influenciou toda a hist\u00f3ria moderna do Ocidente, em raz\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e da Comuna de Paris. Por essa raz\u00e3o, Judt n\u00e3o esconde seu espanto com \u201ca incompet\u00eancia, a \u2018insoucience\u2019 indiferen\u00e7a e a neglig\u00eancia injuriosa dos homens que governavam o pa\u00eds e representavam seus cidad\u00e3os\u201d nesse per\u00edodo, e dedica o livro a L\u00e9o Brum, Albert Camus e Raymond Aron, intelectuais franceses que nadaram contra a mar\u00e9 e confrontaram seus pares.<\/p>\n<p>Segundo Judt, o problema da Fran\u00e7a era mais cultural do que pol\u00edtico. Os deputados e senadores de todos os partidos, presidentes, primeiros-ministros, generais, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, prefeitos e dirigentes de partidos \u201cexibiam uma assombrosa falta de entendimento de sua \u00e9poca e do seu lugar\u201d. Para um pa\u00eds que no come\u00e7o do s\u00e9culo teve grandes l\u00edderes pol\u00edticos, como o socialista Jean Jaur\u00e8s, que tentou evitar a I Guerra Mundial e morreu assassinado num com\u00edcio pela paz, e George Clemenceau, primeiro-ministro durante a guerra e um dos art\u00edfices do Tratado de Versalhes, chama aten\u00e7\u00e3o a petrifica\u00e7\u00e3o das suas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas no per\u00edodo. Traumatizada pelo sangrento desastre que foi o conflito mundial, a Fran\u00e7a foi polarizada pela radicaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que antagonizava comunistas e socialistas, de um lado, liberais e fascistas, de outro, em toda a Europa, e imobilizava o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Dividida entre um anseio pela prosperidade, equivocadamente inspirada no passado, e pela estabilidade dos anos anteriores \u00e0 guerra, de um lado, e as promessas de reforma e renova\u00e7\u00e3o a serem pagas com recursos financeiros da puni\u00e7\u00e3o \u00e0 Alemanha, de outro, a elite francesa n\u00e3o tinha a menor chance de acertar. Qualquer tentativa de mudan\u00e7a em favor de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida para os franceses era barrada por uma pol\u00edtica polarizada entre esquerda e direita, toda reforma institucional ou econ\u00f4mica era tratada como um jogo de soma zero. O desfecho foi a ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3, per\u00edodo ainda mais traum\u00e1tico, do qual a Fran\u00e7a foi salva pela vit\u00f3ria dos aliados, sem embargo da heroica resist\u00eancia dos maquis.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica de Judt \u00e9 dur\u00edssima: \u201cQue a Fran\u00e7a tenha sido salva de seus l\u00edderes pol\u00edticos, de um modo como n\u00e3o podia ser salvar d\u00e9cada antes, se deu gra\u00e7as a grandes mudan\u00e7as no p\u00f3s-guerra nas rela\u00e7\u00f5es internacionais. Membro da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (Otan), benefici\u00e1ria do Plano Marshall e cada vez mais integrada \u00e0 nascente comunidade europeia, a Fran\u00e7a n\u00e3o dependia de seus pr\u00f3prios recursos e decis\u00f5es para ter seguran\u00e7a e prosperidade, e a incompet\u00eancia e os erros de seus governantes lhe custaram muito menos do que ocorrera em anos anteriores\u201d.<\/p>\n<p><b>Um paralelo<\/b><\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o literal de \u201cinsoucience\u201d \u00e9 imprud\u00eancia. Essa \u00e9 a palavra-chave do paralelo entre esse per\u00edodo da hist\u00f3ria francesa e a pol\u00edtica brasileira atual. Talvez a maior imprud\u00eancia vis\u00edvel seja a atual pol\u00edtica ambiental, que est\u00e1 fadada ao desastre absoluto, porque assentada em base pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas com 50 anos de atraso, ou seja, que remontam \u00e0 estrat\u00e9gia de ocupa\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Amaz\u00f4nia do regime militar. Suas consequ\u00eancias de curto prazo \u2014 perda de investimentos, dificuldades de comercializa\u00e7\u00e3o de produtos e isolamento internacional \u2014, apontam para um desastre muito maior, porque o mundo passa por uma mudan\u00e7a de padr\u00e3o energ\u00e9tico que est\u00e1 nos deixando muito para tr\u00e1s, como aconteceu na Segunda Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, \u00e0 qual s\u00f3 viemos a nos incorporar na d\u00e9cada de 1950.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o ambiental \u00e9 apenas a ponta do iceberg: falta-nos um projeto capaz de construir consensos pol\u00edticos majorit\u00e1rios e resgatar nossa coes\u00e3o social, para uma grande reforma democr\u00e1tica do Estado e a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades, no espa\u00e7o de uma ou duas gera\u00e7\u00f5es. Ningu\u00e9m tem uma f\u00f3rmula pronta e acabada para isso. A \u00fanica certeza \u00e9 que os velhos paradigmas, que alimentam a polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica atual, n\u00e3o s\u00e3o capazes de dar as respostas adequadas aos problemas brasileiros. O pior \u00e9 que o velho nacional desenvolvimentismo e os populismos de direita e de esquerda rondam as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sem que nenhuma dessas vertentes tenha a menor capacidade de dar respostas adequadas \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es atuais.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa inspirou nossas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, assim como a Revolu\u00e7\u00e3o Americana, matriz das nossas ideias federativas. Tanto a Fran\u00e7a como os Estados Unidos, por\u00e9m, vivem novos dilemas, com a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e a globaliza\u00e7\u00e3o, em que perdem protagonismo econ\u00f4mico e pol\u00edtico, a primeira para Alemanha, os segundos para a China. Esses quatro pa\u00edses protagonizam as linhas de for\u00e7a do desenvolvimento mundial, no qual precisamos nos inserir de maneira mais proativa. Nenhum deles, por\u00e9m, nos serve de modelo de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos n\u00e3o nos dar\u00e3o de bandeja um Plano Marshall, o Mercosul est\u00e1 cada vez mais na contram\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia e n\u00e3o nos interessa a militariza\u00e7\u00e3o do Atl\u00e2ntico Sul. Precisamos tra\u00e7ar o nosso pr\u00f3prio rumo. Nossos gargalos econ\u00f4micos e sociais t\u00eam ra\u00edzes ib\u00e9ricas (patrimonialismo, compadrio, clientelismo) e escravocratas (a exclus\u00e3o social e o racismo estrutural). O xis da quest\u00e3o \u00e9 produzir uma nova s\u00edntese sobre a realidade brasileira e, politicamente, desatar os n\u00f3s institucionais que impedem o nosso desenvolvimento sustent\u00e1vel. Nossa elite pol\u00edtica n\u00e3o tem se demonstrado capaz de cumprir essa tarefa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falta-nos um projeto capaz de construir consensos pol\u00edticos majorit\u00e1rios e resgatar nossa coes\u00e3o social, para uma grande reforma democr\u00e1tica do Estado e a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades Num de seus ensaios sobre a Fran\u00e7a no s\u00e9culo XX \u2014 O peso da responsabilidade (Objetiva) \u2014, o historiador brit\u00e2nico Tony Judt, falecido em 2010, aos 62 anos, analisa a vida p\u00fablica francesa entre [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[782,626,111,481,28,589,4,92,301,9,3],"tags":[122,338,202,613,826],"class_list":["post-5184","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-desenvolvimento","category-uniao-europeia","category-amazonia","category-china","category-cultura","category-eua","category-governo","category-literatura","category-meio-ambiente","category-politica-2","category-politica","tag-comunismo","tag-desenvolvimento","tag-fascismo","tag-radicalizacao","tag-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5184","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5184"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5184\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5196,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5184\/revisions\/5196"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5184"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5184"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5184"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}