{"id":5220,"date":"2020-10-23T15:25:53","date_gmt":"2020-10-23T18:25:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5220"},"modified":"2020-10-23T15:27:51","modified_gmt":"2020-10-23T18:27:51","slug":"nas-entrelinhas-desinvestimento-no-futurox","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-desinvestimento-no-futurox\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Desinvestimento no futuro"},"content":{"rendered":"<div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i>\u201cO governo n\u00e3o se convence de que a floresta em p\u00e9, com sua biodiversidade, \u00e9 uma fonte inesgot\u00e1vel de riquezas. Houve uma mudan\u00e7a de paradigma na economia\u201d<\/i><\/b><\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O presidente da Rep\u00fablica, Jair Bolsonaro, afirmou, ontem, que convidar\u00e1 diplomatas estrangeiros para visitar a floresta amaz\u00f4nica, que n\u00e3o ver\u00e3o \u201cnada queimando ou sequer um hectare de selva devastada\u201d. A afirma\u00e7\u00e3o foi feita na formatura dos novos diplomatas do Itamaraty, que aprenderam tudo ao contr\u00e1rio no Instituto Rio Branco e ficaram estupefatos. No fundo, essas declara\u00e7\u00f5es de Bolsonaro s\u00e3o pura contra-informa\u00e7\u00e3o, uma tentativa de criar uma cortina de fuma\u00e7a para encobrir a nossa crise ambiental, nos dois sentidos: de um lado, protege os predadores das florestas \u2014 grileiros, garimpeiros, madeireiros, pecuaristas e fazendeiros inescrupulosos \u2014, que continuam fazendo queimadas e desmatando; de outro, tenta enganar a opini\u00e3o p\u00fablica mundial quanto \u00e0 pol\u00edtica antiambientalista de seu governo, o que j\u00e1 n\u00e3o cola mais nem no exterior.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de janeiro a setembro deste ano, foram registrados 76.030 pontos de fogo. A \u00faltima vez em que houve registro de n\u00famero superior foi em 2010 \u2014 102.409, em igual per\u00edodo. No mesmo dia em que Bolsonaro deu a declara\u00e7\u00e3o, o Ibama determinou a interrup\u00e7\u00e3o do trabalho de todas as brigadas de inc\u00eandio, por falta de recursos financeiros, sendo que alguns contratos est\u00e3o com pagamentos atrasados h\u00e1 tr\u00eas meses. Na verdade, a estrat\u00e9gia do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, \u00e9 inviabilizar o cumprimento da legisla\u00e7\u00e3o ambiental ainda vigente, que, por enquanto, n\u00e3o teve for\u00e7a para derrubar, e desmantelar seus \u00f3rg\u00e3os de controle, o Ibama e o ICMBio.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>As declara\u00e7\u00f5es de Bolsonaro sobre a Amaz\u00f4nia est\u00e3o em contraposi\u00e7\u00e3o aos fatos. No exterior, isso passa a ideia de um governo descomprometido com a verdade, que tenta mascarar seus atos com uma narrativa insustent\u00e1vel. No plano internacional, \u00e9 um desastre de grandes propor\u00e7\u00f5es, que pode ter a mesma consequ\u00eancia que sequestros, torturas e assassinatos de oposicionistas tiveram durante o regime militar: perda total de credibilidade junto \u00e0s chancelarias e aos investidores. Com o agravante de que uma eventual derrota do presidente Donald Trump nas elei\u00e7\u00f5es norte-americanas, com a elei\u00e7\u00e3o do democrata Joe Biden, pode resultar numa invertida semelhante \u00e0quela que houve no governo do general Ernesto Geisel, com a elei\u00e7\u00e3o do democrata Jimmy Carter.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O Pal\u00e1cio do Planalto \u00e9 prisioneiro dos velhos conceitos do regime militar sobre a ocupa\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, que se baseavam no bin\u00f4mio integra\u00e7\u00e3o e desenvolvimento e se traduziam na constru\u00e7\u00e3o de rodovias, minera\u00e7\u00e3o e derrubada da mata para explora\u00e7\u00e3o comercial e produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Hoje, tudo mudou, s\u00e3o outros os paradigmas, mas o governo n\u00e3o se convence de que a floresta em p\u00e9, com sua biodiversidade, \u00e9 uma fonte inesgot\u00e1vel de riquezas. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se d\u00e1 conta de que houve uma mudan\u00e7a de paradigma na economia mundial, que j\u00e1 registra um grande desinvestimento na economia do carbono. Cada vez mais, as grandes empresas e fundos de investimentos submetem suas decis\u00f5es ao crivo do politicamente correto do ponto de vista ambiental. E n\u00f3s estamos fazendo tudo errado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Mercado<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Talvez, o melhor exemplo dessa mudan\u00e7a seja a estrat\u00e9gia adotada pelo Rockefeller Brothers Fund, que, em 2015, deixou de investir no mercado de petr\u00f3leo e carv\u00e3o e passou a apostar na economia verde. A fortuna da fam\u00edlia Rockefeller foi constru\u00edda com base no petr\u00f3leo, mas, agora, est\u00e1 sendo direcionada para um movimento global de investidores interessados em descarbonizar a economia, como estrat\u00e9gia de reduzir os riscos de seus investimentos a m\u00e9dio e longo prazos. Mais de 500 institui\u00e7\u00f5es possuidoras de US$ 3,4 trilh\u00f5es em ativos assumiram compromissos para a\u00e7\u00f5es de desinvestimento, ou seja, retirar a aplica\u00e7\u00e3o de seu capital de empresas e atividades econ\u00f4micas intensivas em carbono. E os chamados Investimentos Sustent\u00e1veis e Respons\u00e1veis (ISR, ou SRI, na sigla em ingl\u00eas), segundo a Global Sustainable Investment Review, realizados com crit\u00e9rios de sustentabilidade, entre eles, o de baixo carbono, representam mais de 30% dos ativos nos mercados de Europa, Estados Unidos, Canad\u00e1, \u00c1sia, Jap\u00e3o, Austr\u00e1lia e \u00c1frica. S\u00e3o mais de US$ 60 trilh\u00f5es que est\u00e3o em jogo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No momento, a grande dor de cabe\u00e7a do ministro da Economia, Paulo Guedes, \u00e9 a alta vertiginosa dos juros futuros, que est\u00e3o tr\u00eas vezes mais caros do que a taxa Selic. Isso significa que o governo est\u00e1 tendo de se endividar muito mais para que o Banco Central (BC) consiga vender os t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica, al\u00e9m de encurtar o prazo de resgate desses t\u00edtulos de seis para dois anos, o que pode resultar numa crise financeira grave em 2022. Esse fen\u00f4meno est\u00e1 sendo atribu\u00eddo aos gastos p\u00fablicos com a pandemia do novo coronav\u00edrus, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 somente consequ\u00eancia de a d\u00edvida p\u00fablica ter chegado pr\u00f3ximo a 100% do PIB, o que aumentou o poder de barganha dos compradores. O outro lado dessa moeda \u00e9 a fuga crescente dos investimentos produtivos, entre outras raz\u00f5es, por causa da pol\u00edtica ambiental.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO governo n\u00e3o se convence de que a floresta em p\u00e9, com sua biodiversidade, \u00e9 uma fonte inesgot\u00e1vel de riquezas. 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