{"id":5236,"date":"2020-11-01T07:47:56","date_gmt":"2020-11-01T10:47:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5236"},"modified":"2020-11-01T12:19:38","modified_gmt":"2020-11-01T15:19:38","slug":"nas-entrelinhas-a-pandemia-e-o-luto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-pandemia-e-o-luto\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A pandemia e o  luto"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>No Dia de Finados, todos os mortos ser\u00e3o lembrados, mas as v\u00edtimas da pandemia s\u00e3o como corpos insepultos ou enterrados em cova rasa, cujo luto \u00e9 diferenciado<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Uma das singularidades da pandemia do novo coronav\u00edrus no Brasil \u2014 que chega aos 160 mil mortos e 5,5 milh\u00f5es de infectados \u2014 \u00e9 a sua naturaliza\u00e7\u00e3o pelo presidente Jair Bolsonaro, que sempre combateu as medidas de isolamento social adotadas por prefeitos e governadores e tratou-a como uma \u201cgripezinha\u201d. A aposta do presidente da Rep\u00fablica era de que ambos arcariam com as consequ\u00eancias negativas do impacto econ\u00f4mico da crise sanit\u00e1ria e ele, desafiando o v\u00edrus mort\u00edfero, se beneficiaria do auxilio emergencial aprovado pelo Congresso \u2014 cinco parcelas de R$ 600, de abril a agosto, e quatro de R$ 300, de setembro at\u00e9 dezembro e que o governo distribuiu \u00e0 mais de 60 milh\u00f5es de pessoa. O governo gastou at\u00e9 setembro R$ 411 bilh\u00f5es com a pandemia, dos quais R$ 213 bilh\u00f5es com o aux\u00edlio.<\/p>\n<p>Acontece que essas despesas foram feitas como quem faz uma grande compra de consumo imediato com cart\u00e3o de cr\u00e9dito. Ou seja, a conta um dia vai chegar. E est\u00e1 chegando com a d\u00edvida p\u00fablica j\u00e1 equivalente a 90% do PIB e uma taxa de desemprego de 14,4 %, que deve aumentar, porque a procura por emprego, com a redu\u00e7\u00e3o do aux\u00edlio emergencial, tamb\u00e9m aumentar\u00e1.\u00a0Os reflexos pol\u00edticos do agravamento da crise social s\u00e3o imediatos. Da mesma forma como a popularidade de Bolsonaro subiu com o aux\u00edlio emergencial, agora amea\u00e7a declinar nos grandes centros, com impacto eleitoral nos candidatos que o presidente da Rep\u00fablica apoia em S\u00e3o Paulo, onde Celso Russomano (Republicanos) est\u00e1 derretendo, e no Rio de Janeiro, cujo prefeito, Marcelo Crivela (Republicanos), candidato \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o, \u00e9 amplamente rejeitado pelos eleitores. Bolsonaro j\u00e1 come\u00e7a a se distanciar de ambos.<\/p>\n<p>Nosso presidente da Rep\u00fablica \u00e9 um personagem complexo da pol\u00edtica brasileira \u2014 embora adote solu\u00e7\u00f5es simples e erradas para problemas complicados \u2014, foge aos paradigmas do politicamente correto e desenvolve v\u00ednculos com parcelas da popula\u00e7\u00e3o que somente a antropologia explica. Mas n\u00e3o tem como fugir de uma realidade social impactada pelos efeitos psicol\u00f3gicos da pandemia na vida das pessoas, em particular o luto dos amigos e familiares das v\u00edtimas de COVID-19, que n\u00e3o tem nenhum paralelo com o de outras causas mortis, inclusive porque o rito de passagem de seus funerais foi profundamente afetado pela aus\u00eancia de vel\u00f3rios e os caix\u00f5es fechados.<\/p>\n<p><strong>Nega\u00e7\u00e3o e resili\u00eancia<\/strong><br \/>\nAp\u00f3s naturalizar a pandemia, em algum momento, Bolsonaro haver\u00e1 de pedir desculpas por esse comportamento, qui\u00e7a na campanha leitoral de 2022, mas at\u00e9 agora n\u00e3o manifestou um sincero pesar pela escalada de mortes na pandemia. Seus lamentos foram sempre pre\u00e2mbulos de alguma afirma\u00e7\u00e3o que estabelecia como prioridade manter as atividades econ\u00f4micas a qualquer pre\u00e7o. Acontece que essa prioridade \u00e9 apenas ret\u00f3rica, na verdade, h\u00e1 um cada um por si, porque o governo abandonou as reformas, n\u00e3o tem prioridades, se digladia internamente e est\u00e1 prisioneiro das corpora\u00e7\u00f5es e grupos econ\u00f4micos que o apoiam. S\u00e3o in\u00fameros exemplos, os mais recente s\u00e3o os cancelamentos do projeto da BR do Mar \u2014 nova Lei da navega\u00e7\u00e3o de cabotagem \u2014, por exig\u00eancia dos caminhoneiros, e o decreto para privatiza\u00e7\u00e3o de 4 mil postos de atendimento b\u00e1sico do SUS, uma proposta inopinada e marota, que transforma a rede p\u00fablica num grande neg\u00f3cio privado de tecnologia para empresas do setor de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Entretanto, Bolsonaro est\u00e1 subestimando o luto das pessoas que perderam seus entes queridos. N\u00e3o s\u00e3o apenas os impactos econ\u00f4mico, social e cultural, em termos de perdas de for\u00e7a de trabalho, conhecimento e lideran\u00e7a social, que devem ser considerados; existe um lado afetivo e psicol\u00f3gico na crise sanit\u00e1ria, que se manifesta de forma duradoura, por etapas, dif\u00edcil de ser mensurada. Amanh\u00e3, no Dia de Finados, todos os mortos ser\u00e3o lembrados, mas as v\u00edtimas da pandemia s\u00e3o como corpos insepultos ou enterrados em cova rasa, cujo luto \u00e9 diferenciado.<\/p>\n<p>O luto ocorre porque a perda f\u00edsica do ente querido n\u00e3o elimina o afeto. \u00c9 uma aus\u00eancia de dif\u00edcil aceita\u00e7\u00e3o no tempo em que ocorre, porque o amor sobrevive. Isso gera uma nega\u00e7\u00e3o, que se manifesta de forma silenciosa, muitas vezes, como fuga da realidade; num segundo momento, vem a revolta, muitas vezes inconsciente e inexplic\u00e1vel. Leva tempo para que as pessoas superem a depress\u00e3o subsequentemente e aceitem a perda, para que a vida plena se restabele\u00e7a. Mas n\u00e3o existe esquecimento. Aceitar n\u00e3o \u00e9 deixar de sentir. O luto se torna essencial, um marco na vida pessoal. A resili\u00eancia diante da morte tamb\u00e9m gera simpatia ou engajamento em movimentos que sejam ant\u00edtese da sua causa. \u00c9 o caso dos familiares de v\u00edtimas de balas perdidas ou viol\u00eancia policial. Na pandemia, a naturaliza\u00e7\u00e3o das mortes pode ser apenas a primeira fase de um luto coletivo. Muito mais amplo e profundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Dia de Finados, todos os mortos ser\u00e3o lembrados, mas as v\u00edtimas da pandemia s\u00e3o como corpos insepultos ou enterrados em cova rasa, cujo luto \u00e9 diferenciado Uma das singularidades da pandemia do novo coronav\u00edrus no Brasil \u2014 que chega aos 160 mil mortos e 5,5 milh\u00f5es de infectados \u2014 \u00e9 a sua naturaliza\u00e7\u00e3o pelo presidente Jair Bolsonaro, que sempre [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[176,28,37,36,46,371,4,3,9,115,323,71,48,193],"tags":[130,50,839,644,502],"class_list":["post-5236","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cidades","category-cultura","category-desemprego","category-economia","category-eleicoes","category-etica","category-governo","category-politica","category-politica-2","category-rio-de-janeiro","category-sao-paulo","category-saude","category-trabalho","category-transportes","tag-bolsonaro","tag-desemprego","tag-finados","tag-pandemia","tag-renda"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5236","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5236"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5236\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5244,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5236\/revisions\/5244"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}