{"id":5258,"date":"2020-11-08T11:43:46","date_gmt":"2020-11-08T14:43:46","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5258"},"modified":"2020-11-08T11:46:17","modified_gmt":"2020-11-08T14:46:17","slug":"entre-a-aguia-e-o-dragaox","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/entre-a-aguia-e-o-dragaox\/","title":{"rendered":"Entre a \u00e1guia e o drag\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><b><i>Candidato a marisco entre EUA e China, faltam ao governo Bolsonaro politica externa independente e pensamento estrat\u00e9gico. O alinhamento com Trump foi o melhor exemplo<\/i><\/b><\/p>\n<p><i>\u2014 Espera! \u2014 exclamou Ega. \u2014 L\u00e1 vem um \u201camericano\u201d\u201d, ainda o apanhamos.<br \/>\n\u2014 Ainda o apanhamos!<br \/>\nOs dois amigos lan\u00e7aram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:<br \/>\n\u2014 Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da exist\u00eancia. Com efeito, n\u00e3o vale a pena fazer um esfor\u00e7o, correr com \u00e2nsia para coisa alguma&#8230;<br \/>\nEga, ao lado, ajuntava, ofegante, atribulando as pernas magras:<br \/>\n\u2014 Nem para o amor, nem para a gl\u00f3ria, nem para o dinheiro, nem para o poder&#8230;<br \/>\nA lanterna vermelha do \u201camericano\u201d, ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em Jo\u00e3o da Ega uma esperan\u00e7a, outro esfor\u00e7o:<br \/>\n\u2014 Ainda o apanhamos!<br \/>\n\u2014 Ainda o apanhamos!<br \/>\nDe novo a lanterna deslizou e fugiu. Ent\u00e3o, para apanhar o \u201camericano\u201d, os dois romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.<\/i><\/p>\n<p><i>(Os Maias, E\u00e7a de Queiroz, 1888)<\/i><\/p>\n<p>Essa alegoria do escritor portugu\u00eas que tanto influenciou nossa literatura encerra um grande \u201cafresco\u201d liter\u00e1rio sobre a at\u00e1vica e parasit\u00e1ria elite lusitana e a situa\u00e7\u00e3o de estagna\u00e7\u00e3o de Portugal no final do s\u00e9culo XIX. Serve sob medida para a situa\u00e7\u00e3o em que se encontram o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro das n\u00e3o-Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Ernesto Araujo, que agora correm atr\u00e1s do preju\u00edzo como a dupla Carlos Maia e Jo\u00e3o da Ega, por causa da vit\u00f3ria de Joe Biden, candidato do Partido Democrata nas elei\u00e7\u00f5es para a Presid\u00eancia dos Estados Unidos. O presidente Donald Trump, um demagogo tresloucado que ocupou a Casa Branca por 4 anos e levou muitos a acreditarem no naufr\u00e1gio da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, foi escolhido por ambos como aliado incondicional. Entretanto, mais uma vez, a democracia americana se recuperou de um desastre pol\u00edtico e retomou o seu curso hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>No mundo globalizado \u2014 traumatizado por uma pandemia que j\u00e1 matou 1,4 milh\u00e3o de pessoas, a recess\u00e3o dela decorrente e o aprofundamento das desigualdades \u2014, falta uma autoridade moral, portadora de valores universais capazes de influenciar a marcha da Hist\u00f3ria, \u00e0 qual a sociedade contempor\u00e2nea possa recorrer. O Velho Mundo, com suas ideias iluministas e protagonista da hist\u00f3ria mundial do s\u00e9culo XV ao XIX, hoje n\u00e3o \u00e9 o candidato natural a essa posi\u00e7\u00e3o. Somente os Estados Unidos podem exercer esse papel de lideran\u00e7a global nos f\u00f3runs internacionais, pela universalidade de seus fundamentos pol\u00edticos, sua composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e multiculturalismo, al\u00e9m do ineg\u00e1vel poder que adquiriu no s\u00e9culo passado, ap\u00f3s vencer duas guerras mundiais e a \u201cguerra fria\u201d. Nenhum outro pa\u00eds re\u00fane, simultaneamente, capacidade de produ\u00e7\u00e3o industrial, for\u00e7a militar, pesquisa cient\u00edfica, conhecimento, tecnologia e influ\u00eancia pol\u00edtica e cultural para isso.<\/p>\n<p><strong>Marisco<\/strong><\/p>\n<p>Mis\u00f3gino, homof\u00f3bico e chauvinista, Trump havia abdicado desse protagonismo, lan\u00e7ando os Estados Unidos na contram\u00e3o da Hist\u00f3ria. Mas \u00e9 um erro supor que tudo come\u00e7ou com o republicano. Na verdade, o erro hist\u00f3rico dos Estados Unidos foi continuar a tratar os vencidos na \u201cguerra fria\u201d \u2014 a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e os pa\u00edses do Leste europeu \u2014 como inimigos a serem humilhados, espoliados e isolados politicamente. \u00c9 esse hegemonismo truculento que est\u00e1 na g\u00eanese do trumpismo, marcadamente ap\u00f3s a Guerra do Iraque, com o seu intervencionismo para derrubar regimes e refundar na\u00e7\u00f5es, alterando abruptamente a geopol\u00edtica de regi\u00f5es inteiras. O ponto de inflex\u00e3o dessa pol\u00edtica, por\u00e9m, foram os fracassos nas tentativas de derrubar os governantes da S\u00edria, Bashar al-Asha,d e da Venezuela, N\u00edcolas Maduro, por subestimar o poder de interven\u00e7\u00e3o militar da R\u00fassia e a emerg\u00eancia da China como pot\u00eancia econ\u00f4mica e diplom\u00e1tica.<\/p>\n<p>No seu livro Sobre a China, Henry Kissinger, ex-secret\u00e1rio de Estado norte-americano, que no governo Richard Nixon negociou com \u00eaxito o restabelecimento das rela\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos com os chineses, chamou a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que as duas guerras mundiais do s\u00e9culo XX resultaram de uma disputa pelo controle do comercio mundial no Atl\u00e2ntico por uma pot\u00eancia continental, a Alemanha, e uma pot\u00eancia mar\u00edtima, o Reino Unido. Agora, o eixo do com\u00e9rcio mundial se deslocou para o Pac\u00edfico e a disputa continua sendo entre uma pot\u00eancia continental e uma mar\u00edtima: China e os Estados Unidos, respectivamente. \u00c9 preciso evitar que essa guerra comercial n\u00e3o se transforme numa guerra quente, n\u00e3o se cansa de advertir Kissinger, o ex-diplomata hoje nonagen\u00e1rio.<\/p>\n<p>O erro estrat\u00e9gico de Bolsonaro e seu n\u00e3o-chanceler, Ernesto Araujo, foi acreditar que isolamento diplom\u00e1tico em que o pa\u00eds mergulhou, por causa de uma agenda negacionista, reacion\u00e1ria e antiambientalista, seria compensado pela alian\u00e7a imediatista, n\u00e3o com o Estado norte-americano, mas com o presidente Trump. Deu errado. A \u00e1guia do Norte novamente al\u00e7ou voo, em busca da liberdade, mas o drag\u00e3o chin\u00eas, nosso principal parceiro comercial, espreita o processo em curso antes de estrugir labaredas de fogo. A China disp\u00f5e de recursos humanos e financeiros, capacidade industrial e tecnologia para sustentar essa disputa por longos anos. O maior desafio para a diplomacia brasileira \u00e9 n\u00e3o virar marisco nessa disputa, que continuar\u00e1 com Biden, em outros termos. Bolsonaro colecionou agress\u00f5es aos chineses, que pacientemente observam o curso de nossas rela\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos. Se forem toscamente discriminados, principalmente no caso do 5G, v\u00e3o se reposicionar pol\u00edtica e comercialmente, com um poder de retalia\u00e7\u00e3o muito grande. Se tem uma coisa que falta ao governo Bolsonaro \u00e9 politica externa independente e pensamento estrat\u00e9gico. O alinhamento com Trump foi o melhor exemplo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Candidato a marisco entre EUA e China, faltam ao governo Bolsonaro politica externa independente e pensamento estrat\u00e9gico. 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