{"id":5270,"date":"2020-11-12T08:03:34","date_gmt":"2020-11-12T11:03:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5270"},"modified":"2020-11-12T14:50:57","modified_gmt":"2020-11-12T17:50:57","slug":"bebado-a-uma-hora-dessa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/bebado-a-uma-hora-dessa\/","title":{"rendered":"B\u00eabado a uma hora dessa?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Apesar de todo o seu poder, G\u00f3is Monteiro n\u00e3o escapou da goza\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo entre os colegas de farda, no auge da luta para o Brasil entrar na guerra contra o nazifascismo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Desculpem-me a analogia. Tem certas coisas no Brasil que n\u00e3o escapam da goza\u00e7\u00e3o, mesmo quando s\u00e3o muito s\u00e9rias e preocupantes. Por exemplo, o namoro de Get\u00falio Vargas com o fascismo de Benito Mussolini, o ditador da It\u00e1lia, e o nazismo de Adolf Hitler, da Alemanha, cujo ponto alto foi a entrega da judia alem\u00e3 Olga Ben\u00e1rio, a esposa do l\u00edder comunista Lu\u00eds Carlos Prestes, gr\u00e1vida de sua filha Anita Prestes, \u00e0 Gestapo. Olga foi morta na c\u00e2mara de g\u00e1s do campo de exterm\u00ednio de Bernburg, mas sua filha foi resgatada antes disso, depois de uma grande campanha internacional. Hoje \u00e9 professora de Hist\u00f3ria da Universidade Federal Fluminense (UFF). Nessa \u00e9poca, em plena ditadura Vargas, havia uma luta surda entre o ministro da Guerra, G\u00f3is Monteiro, e o chefe de Pol\u00edcia do Distrito Federal, Filinto Muller, que defendiam uma alian\u00e7a com o Eixo, de um lado, e o chanceler Oswaldo Aranha e o almirante Amaral Peixoto, genro de Vargas, que articulavam a entrada do Brasil na guerra ao lado dos Estados Unidos e seus aliados da Europa, de outro.<\/p>\n<p>O rep\u00f3rter David Nasser, no livro Falta algu\u00e9m em Nuremberg, tra\u00e7a o perfil da equipe de Filinto Muller, \u201crecrutados entre a esc\u00f3ria do Ex\u00e9rcito\u201d: capit\u00e3o Felisberto Batista Teixeira, delegado especial de Seguran\u00e7a Pol\u00edtica e Social: capit\u00e3o Afonso de Miranda Correia, delegado auxiliar; tenentes Em\u00edlio Romano, chefe da Seguran\u00e7a Pol\u00edtica, e Serafim Braga, chefe da Seguran\u00e7a Social, e, ainda, o tenente Amaury Kruel e seu irm\u00e3o, capit\u00e3o Riograndino Kruel, ambos da inspetoria da Guarda Civil, \u201cindiv\u00edduos cujo servilismo ao governo e brutalidade com os presos\u201d contribu\u00edram, segundo Nasser, para as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos ocorrida na \u00e9poca. No Estado Novo, segundo o historiador Cl\u00e1udio de Lacerda Paiva, \u201cquem censurava era Lourival Fontes, quem torturava era Filinto Muller, quem instituiu o fascismo foi Francisco Campos, quem deu o golpe foi Dutra e quem apoiava Hitler era G\u00f3is Monteiro\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente nessa \u00e9poca que come\u00e7a a goza\u00e7\u00e3o com o G\u00f3is Monteiro, dentro do pr\u00f3prio governo. Alagoano de S\u00e3o Lu\u00eds do Quitunde, fora o comandante militar da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e chefiou as tropas federais que combateram a Revolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista de 1932, em S\u00e3o Paulo. Na \u00e9poca em que foi ministro da Guerra (1934 e 1935), elaborou a Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional que inspirou v\u00e1rias leis da ditadura de Vargas e do regime militar. Em 1937, articulou o golpe do Estado Novo, sendo um dos respons\u00e1veis pelo famoso Plano Cohen, que serviu de pretexto, planejamento de uma revolu\u00e7\u00e3o comunista forjado pelo ent\u00e3o capit\u00e3o Ol\u00edmpio Mour\u00e3o Filho. G\u00f3is Monteiro deu de presente ao temido deputado fluminense Ten\u00f3rio Cavalcanti a sua famosa \u201cLurdinha\u201d, uma metralhadora alem\u00e3 MP-40.<\/p>\n<p><strong>Alvorada<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de todo o seu poder, G\u00f3is Monteiro n\u00e3o escapou da goza\u00e7\u00e3o at\u00e9 mesmo entre os colegas de farda. No auge da luta para o Brasil entrar na guerra contra o nazifascismo, seus advers\u00e1rios pol\u00edticos se divertiam com a seguinte piada contada nos corredores do Pal\u00e1cio do Catete e nos bares do Rio de Janeiro: G\u00f3is Monteiro resolvera conhecer de perto o treinamento das tropas do Eixo. Na Alemanha, um oficial nazista formou um pelot\u00e3o das SS e mandou que um oficial demonstrasse sua disciplina e amor a Hitler: \u201cTenente Fritz, tiro na cabe\u00e7a!\u201d. O jovem oficial disparou a Luger e caiu morto sem dizer um ai, enquanto a tropa fazia a tradicional sauda\u00e7\u00e3o nazista: \u201cHeil, Hitler!\u201d. Gois Monteiro ficou impressionad\u00edssimo.<\/p>\n<p>No Jap\u00e3o, visitou o porta-avi\u00f5es do almirante Yamamoto, que formou o esquadr\u00e3o de pilotos e mandou que um deles dedicasse sua vida ao Imperador: \u201cCapit\u00e3o Tanaka, seppuku!\u201d. O camicase, como aut\u00eantico samurai, sacou seu espadim e rasgou o abd\u00f4men; imediatamente, seguindo o ritual de honra, o l\u00edder da esquadrilha, num golpe certeiro, cortou sua cabe\u00e7a com a espada, para evitar maior sofrimento. \u201cBanzai!\u201d. Foi demais para G\u00f3is Monteiro: mareado, vomitou.<\/p>\n<p>De volta ao Pal\u00e1cio do Catete, o ministro da Guerra passou a noite em claro e mandou tocar a alvorada \u00e0s 5 horas da manh\u00e3, uma hora mais cedo. Aguardou os Drag\u00f5es da Independ\u00eancia nos jardins, cantarolando: \u201cA voz do despertar\/ Chega a n\u00f3s\/ Que a miss\u00e3o a se cumprir\/ \u00c9 fun\u00e7\u00e3o do que sentir\/ Sentir\/ Que ela vem dizer\/ Com seu repercutir\/ \/ O que \u00e9 o dever\/Quem entender\/ Clarim tocar\/ Antes do amanhecer\/ Tem que se inflamar (&#8230;)\u201d. Assustada e sonolenta, a tropa formou desengon\u00e7ada, \u00e0s pressas, com a farda mal-abotoada, rabos de cavalo dos capacetes embara\u00e7ados, sem saber o porqu\u00ea da antecipa\u00e7\u00e3o da alvorada. G\u00f3is Monteiro deu a voz de comando: \u201cPrimeiro pelot\u00e3o, sentido!\u201d. O sargento Ti\u00e3o, homem-base na formatura, soldado casca-grossa, j\u00e1 havia percebido a voz pastosa do general quando ele cantava, desconfiou que havia algo errado. Quando o general enrolou a l\u00edngua no \u201cApresentar-armas\u201d, Ti\u00e3o se deu conta de que a situa\u00e7\u00e3o era cr\u00edtica: \u201cVixe, est\u00e1 bebado!\u201d. Levou o general para a cama, antes que ele fizesse mais besteira, sem saber de suas sinistras inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar de todo o seu poder, G\u00f3is Monteiro n\u00e3o escapou da goza\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo entre os colegas de farda, no auge da luta para o Brasil entrar na guerra contra o nazifascismo Desculpem-me a analogia. Tem certas coisas no Brasil que n\u00e3o escapam da goza\u00e7\u00e3o, mesmo quando s\u00e3o muito s\u00e9rias e preocupantes. 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