{"id":5279,"date":"2020-11-17T07:55:27","date_gmt":"2020-11-17T10:55:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5279"},"modified":"2020-11-17T07:55:27","modified_gmt":"2020-11-17T10:55:27","slug":"as-forcas-centrifugas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/as-forcas-centrifugas\/","title":{"rendered":"As for\u00e7as centr\u00edfugas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u201cNas disputas de segundo turno, h\u00e1 todo tipo de combina\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se pode falar de polariza\u00e7\u00e3o entre Bolsonaro, que saiu do primeiro turno com fama de p\u00e9 frio, e a oposi\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es municipais no Brasil, mesmo na \u00e9poca do regime militar, sempre funcionaram como for\u00e7as centr\u00edfugas, mitigando a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das elei\u00e7\u00f5es gerais, para que um novo ciclo de reaglutina\u00e7\u00e3o de for\u00e7as ocorresse. T\u00ednhamos, a partir da redemocratiza\u00e7\u00e3o de 1945, um sistema partid\u00e1rio consolidado, no qual tr\u00eas grandes partidos nacionais predominavam \u2014 PSD, PTB e UDN \u2014, com uma for\u00e7a regional importante \u2014 o Partido Social Progressista, de Ademar de Barros, em S\u00e3o Paulo \u2014 e a esquerda ideol\u00f3gica dividida entre o PSB, de Jo\u00e3o Mangabeira, e o ent\u00e3o proscrito Partido Comunista, liderado por Luiz Carlos Prestes.<\/p>\n<p>Com o golpe de 1964, para se manter no poder, os militares acabaram com os partidos pol\u00edticos, impondo artificialmente o bipartidarismo oficial, com a cria\u00e7\u00e3o da Arena e do antigo MDB, que se tornou uma frente legal de oposi\u00e7\u00e3o; suprimiram as elei\u00e7\u00f5es presidenciais, marcadas para 1965; e acabaram com as elei\u00e7\u00f5es para governadores e prefeitos das capitais. Mas n\u00e3o puderam eliminar completamente as elei\u00e7\u00f5es municipais \u2014 ocorrera a mesma coisa durante o Estado Novo \u2014, canceladas apenas naqueles munic\u00edpios considerados \u201c\u00e1reas de seguran\u00e7a nacional\u201d. Mesmo assim, n\u00e3o conseguiram conter as for\u00e7as centr\u00edfugas da pol\u00edtica local, sendo obrigados a criar um subterf\u00fagio, as sublegendas, para impedir que as elei\u00e7\u00f5es municipais implodissem a Arena, com suas dissid\u00eancias migrando para o MDB, o que acabou ocorrendo com o passar dos anos, principalmente depois das elei\u00e7\u00f5es de 1974.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es municipais do \u00faltimo domingo n\u00e3o fugiram \u00e0 regra. Seus resultados mostram que atuaram como for\u00e7as centr\u00edfugas do quadro pol\u00edtico nacional, que estava muito polarizado entre Jair Bolsonaro e a oposi\u00e7\u00e3o de esquerda. Os n\u00fameros permitem m\u00faltiplas interpreta\u00e7\u00f5es, mas algumas conclus\u00f5es s\u00e3o consensuais: 1) os partidos de centro cresceram muito, principalmente o PP, PSD e DEM; 2) a esquerda tradicional perdeu terreno, principalmente o PT; 3) os partidos de extrema-direita n\u00e3o hegemonizaram o pleito. Se h\u00e1 um grande derrotado no primeiro turno, \u00e9 o presidente, que participou da disputa como aquele jogador de futebol que entra numa bola dividida, achando que vai chegar primeiro e tir\u00e1-la do advers\u00e1rio com o bico da chuteira, mas acaba perdendo para quem entrou na jogada mais decidido, com o p\u00e9 mais firme.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o que Bolsonaro fez por alguns candidatos no primeiro turno, principalmente Celso Russomanno (Republicanos), em S\u00e3o Paulo, e o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), no Rio de Janeiro, logo no come\u00e7o da campanha, foi uma decis\u00e3o tomada muito mais com o f\u00edgado que por estrat\u00e9gia. Sem partido, fora aconselhado a se manter distante das disputas municipais. Viu no apoio a Russomanno, que despontava como l\u00edder, uma maneira de derrotar o governador Jo\u00e3o Doria (PSDB).<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, de igual maneira, seria uma forma de derrotar o presidente da C\u00e2mara, Rodrigo Maia (DEM), que articula ostensivamente a candidatura de Luciano Huck para 2022. Antecipar defini\u00e7\u00f5es para 2022 nas elei\u00e7\u00f5es municipais \u00e9 uma aposta de alto risco, porque n\u00e3o se pode combinar com os advers\u00e1rios nem com o eleitor. Bolsonaro ofuscou outros resultados que poderiam at\u00e9 benefici\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>Prefeituras<\/strong><\/p>\n<p>PSDB e MDB perderam o maior n\u00famero de prefeituras na compara\u00e7\u00e3o do primeiro turno de 2016 e de 2020. O PSDB foi de 785 para 512 prefeitos eleitos \u2014 ou seja, 273 a menos. O MDB perdeu 261 prefeituras (caiu de 1.035 para 774), embora continue sendo o maior partido do pa\u00eds em n\u00famero de prefeituras, vereadores eleitos e vota\u00e7\u00e3o. O PT registrou mais uma queda, conquistando 179 prefeituras, 75 a menos que em 2016. DEM e PP foram partidos que ganharam mais prefeituras. O primeiro foi de 266 para 459, ou seja, 193 a mais, sendo tr\u00eas dos sete prefeitos eleitos no primeiro turno nas capitais. O segundo, saltou de 495 para 682 prefeitos, 187 a mais. Destaque tamb\u00e9m para o PSD, que passou de 537 para 650 prefeituras.<\/p>\n<p>Nas disputas de segundo turno, h\u00e1 todo tipo de combina\u00e7\u00f5es: direita contra centro-direita, esquerda contra centro-esquerda, centro-esquerda contra o centro-direita. Nesse sentido, n\u00e3o se pode falar numa polariza\u00e7\u00e3o entre Bolsonaro e a oposi\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o presidente da Rep\u00fablica saiu do primeiro turno com fama de p\u00e9 frio \u2014 os pol\u00edticos s\u00e3o muito supersticiosos \u2014, o que desaconselha seu apoio. Vamos ver o que vai acontecer entre Bolsonaro e seus aliados neste segundo turno, no qual o objetivo de derrotar seus prov\u00e1veis advers\u00e1rios em 2022 subiu no telhado.<\/p>\n<p>No campo governista, digamos assim, o PP e o PSD emergiram como grandes for\u00e7as pol\u00edticas, fortalecendo setores mais moderados do Pal\u00e1cio do Planalto. A ala de extrema-direita ideol\u00f3gica do bolsonarismo foi derrotada no primeiro turno. No campo da oposi\u00e7\u00e3o, o hegemonismo petista tamb\u00e9m est\u00e1 sendo derrotado, principalmente em raz\u00e3o do resultado de S\u00e3o Paulo, no qual Guilherme Boulos levou o PSol a ocupar um lugar que sempre fora do PT.<\/p>\n<p>Finalmente, h\u00e1 que se destacar que o resultado das elei\u00e7\u00f5es municipais inviabilizou a sobreviv\u00eancia de muitos partidos, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, que ter\u00e3o de repensar o pr\u00f3prio projeto, buscando fus\u00f5es e incorpora\u00e7\u00f5es \u00e0queles com quem tem alguma afinidade ideol\u00f3gica e\/ou program\u00e1tica e mais viabilidade eleitoral em 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNas disputas de segundo turno, h\u00e1 todo tipo de combina\u00e7\u00f5es. 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