{"id":5293,"date":"2020-11-20T08:01:34","date_gmt":"2020-11-20T11:01:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5293"},"modified":"2020-11-20T08:02:18","modified_gmt":"2020-11-20T11:02:18","slug":"decifra-me-ou-te-devoro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/decifra-me-ou-te-devoro\/","title":{"rendered":"Decifra-me ou te devoro"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A pol\u00edtica no Brasil est\u00e1 no campo da moderna complexidade. As elei\u00e7\u00f5es municipais s\u00e3o um momento decisivo desse processo de ordem-desordem das rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Quem foi aluno de cursinho do falecido professor Manoel Maur\u00edcio de Albuquerque, um expurgado do Instituto Rio Branco pelo regime militar, antes de qualquer aula sobre Hist\u00f3ria do Brasil, aprendia a diferen\u00e7a entre uma totalidade simples e uma totalidade complexa. Ele desenhava um c\u00edrculo com quatro tra\u00e7os verticais e pedia que um dos alunos o descrevesse em voz alta. Depois, desenhava o mesmo c\u00edrculo e dispunha os demais elementos na posi\u00e7\u00e3o da boca, do nariz e dos olhos. O primeiro representava a totalidade simples; o segundo, a complexa. Mais Paulo Freire, imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Na sociologia moderna, a discuss\u00e3o \u00e9 mais complicada. Newton consolidou o paradigma cartesiano de totalidade complexa a partir da lei da gravita\u00e7\u00e3o universal. Da\u00ed resultam conceitos que buscam separar a mente e o corpo, a verdade objetiva externa do observador, a estrutura dividida em parcelamentos e a no\u00e7\u00e3o de tempo flecha, entre outros. Trata-se da ideia de que a natureza tem uma ordem dada e, para decifr\u00e1-la, \u00e9 preciso esquartej\u00e1-la em pequenos peda\u00e7os, mensur\u00e1veis.<\/p>\n<p>O moderno paradigma da complexidade \u00e9 mais complicado, surge da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica e da teoria da relatividade, muda o entendimento da rela\u00e7\u00e3o entre tempo e espa\u00e7o, considera insepar\u00e1vel o sujeito do objeto e usa modelos matem\u00e1ticos n\u00e3o lineares. N\u00e3o existe uma estrutura dada, mas uma tens\u00e3o entre equil\u00edbrio e desequil\u00edbrio, auto-organiza\u00e7\u00e3o e caos, com for\u00e7as de atra\u00e7\u00e3o e dissipa\u00e7\u00e3o. O princ\u00edpio da separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o morreu, mas \u00e9 insuficiente. \u00c9 preciso separar, distinguir, mas tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio reunir e juntar. O princ\u00edpio da ordem renasce na ordem-desordem-organiza\u00e7\u00e3o. Morre o princ\u00edpio da simplifica\u00e7\u00e3o e da redu\u00e7\u00e3o, jamais chegaremos ao conhecimento de um todo a partir do conhecimento dos elementos de base.<\/p>\n<p>No exemplo do Maneco, a chave da transforma\u00e7\u00e3o era a m\u00e3o de quem reorganizou os pauzinhos, ou seja, o trabalho direto. Agora, \u00e9 mais complicado. A crise que enfrentamos resulta da moderniza\u00e7\u00e3o da sociedade e de suas estruturas de produ\u00e7\u00e3o, com novos problemas, como a ressignifi\u00e7\u00e3o do trabalho na sociedade do conhecimento, a separa\u00e7\u00e3o entre o conhecimento e a consci\u00eancia pela intelig\u00eancia artificial, o novo papel das escolas, as novas rela\u00e7\u00f5es entre a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico com o Estado, as universidades, empresas, mercado e a sociedade em geral. A tens\u00e3o resultante de tudo isso des\u00e1gua na pol\u00edtica, cujas estruturas de representa\u00e7\u00e3o se originaram na velha ordem das coisas e t\u00eam dificuldades para encontras as solu\u00e7\u00f5es. Boa parte dos problemas que enfrentamos no Brasil resulta desse processo \u2014 s\u00e3o de ordem objetiva \u2014 e de nossas seculares desigualdades e injusti\u00e7as sociais, mas s\u00e3o agravados pela tentativa de simplifica\u00e7\u00e3o desses problemas e da busca de solu\u00e7\u00f5es toscas, de um subjetivismo que nega a ci\u00eancia e se baseiam no senso comum. A pandemia, por exemplo, resulta de um dos grandes fen\u00f4menos da cria\u00e7\u00e3o: o encontro de um v\u00edrus com uma bact\u00e9ria, que provoca uma muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica. Desprezar a ci\u00eancia para enfrent\u00e1-la \u00e9 uma derrota por antecipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Elei\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nA pol\u00edtica no Brasil est\u00e1 no campo da moderna complexidade. Nesse sentido, as elei\u00e7\u00f5es municipais s\u00e3o um momento decisivo desse processo de ordem-desordem das rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, equil\u00edbrio e desequil\u00edbrio, caos e auto-organiza\u00e7\u00e3o. As pesquisas divulgadas ontem pelo DataFolha ilustram isso sobre v\u00e1rios aspectos; chocam o senso comum do que seria um processo linear. Em S\u00e3o Paulo, a reelei\u00e7\u00e3o do prefeito Bruno Covas (PSDB) \u00e9 muito prov\u00e1vel, por\u00e9m, a emerg\u00eancia da lideran\u00e7a de Guilherme Boulos (PSOL) sinaliza o fim do hegemonismo petista no campo da esquerda e uma esp\u00e9cie de volta \u00e0s origens jacobinas da esquerda, muito mais do que uma iminente ruptura pol\u00edtico-administrativa.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Rio de Janeiro, o prefeito Marcello Crivella (Republicanos) conseguiu a proeza de isolar as lideran\u00e7as evang\u00e9licas, que aparelharam a administra\u00e7\u00e3o e fracassaram como modelo para a ideia retrograda de governos teol\u00f3gicos. Tudo indica que Eduardo Paes (DEM) j\u00e1 est\u00e1 praticamente eleito, com apoio de toda a esquerda, inclusive do principal l\u00edder pol\u00edtico do PSol, Marcelo Freixo, o que sinaliza uma tend\u00eancia de frente \u00fanica contra um inimigo comum cuja matriz est\u00e1 na elei\u00e7\u00e3o de Negr\u00e3o de Lima (PSD), na antiga Guanabara, em 1965, a t\u00e1tica que ensinou a oposi\u00e7\u00e3o o caminho para derrotar o regime militar. \u00c9 uma tend\u00eancia a se observar em 2022, principalmente no segundo turno.<\/p>\n<p>Nada, por\u00e9m, \u00e9 mais surpreendente do que a disputa no Recife, entre Mar\u00edlia Arraes (PT) e Jo\u00e3o Campos. (PSB), um embate no campo da esquerda tradicional, entre a neta e o bisneto do ex-governador Miguel Arraes, na qual emerge uma inusitada alian\u00e7a entre petistas e toda direita pernambucana, para quebrar a longa hegemonia do velho cl\u00e3 pernambucano, apoiando uma lideran\u00e7a dissidente da pr\u00f3pria fam\u00edlia para implodi-lo. Se levasse em conta essas e outras disputas, e os resultados do primeiro turno, o presidente Jair Bolsonaro veria diante de si a travessia de um grande deserto. A complexidade do novo cen\u00e1rio pol\u00edtico \u00e9 como o enigma da esfinge de Tebas: \u201cDecifra-me ou te devoro\u201d. N\u00e3o se resolve somente reposicionando os pauzinhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pol\u00edtica no Brasil est\u00e1 no campo da moderna complexidade. 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