{"id":5335,"date":"2020-12-02T07:47:09","date_gmt":"2020-12-02T10:47:09","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5335"},"modified":"2020-12-02T15:37:00","modified_gmt":"2020-12-02T18:37:00","slug":"nas-entrelinhas-esperando-godot","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-esperando-godot\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Esperando Godot"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Estragon<\/strong>: O que a gente faz agora?<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Vladimir<\/strong>: N\u00e3o sei.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Estragon<\/strong>: Vamos embora.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Vladimir<\/strong>: A gente n\u00e3o pode.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Estragon<\/strong>: Por qu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Vladimir<\/strong>: Estamos esperando Godot.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Estragon<\/strong>: \u00c9 mesmo.<\/em><\/p>\n<p>Escrita no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, a pe\u00e7a do irland\u00eas Samuel Beckett, que empresta o t\u00edtulo \u00e0 coluna, \u00e9 uma obra-prima do chamado Teatro do Absurdo. Faz sucesso no mundo desde 1953, quando estreou em Paris. No Brasil, teve duas montagens amadoras na d\u00e9cada de 1950, at\u00e9 o estrondoso sucesso de sua montagem profissional, no Teatro TBC, em S\u00e3o Paulo, sob dire\u00e7\u00e3o de Fl\u00e1vio Rangel, em 1969, com Cacilda Becker no papel de Estragon e seu marido, Walmor Chagas, no de Vladimir. O contexto pol\u00edtico da \u00e9poca, em plena vig\u00eancia do Ato Institucional n\u00ba 5 do regime militar, e o fato de Cacilda Becker sofrer um derrame cerebral em pleno palco, numa apresenta\u00e7\u00e3o para estudantes em S\u00e3o Carlos, agonizando por 38 dias, deram \u00e0 pe\u00e7a um lugar na hist\u00f3ria da cultura brasileira.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a somente faz sentido quando serve de analogia para um contexto de incertezas. Sua ess\u00eancia \u00e9 a espera. \u00c9 a desconstru\u00e7\u00e3o completa do teatro, pois n\u00e3o tem hist\u00f3ria, as falas n\u00e3o s\u00e3o coesas e nada acontece do ponto de vista da a\u00e7\u00e3o dos personagens. Tudo parece obscuro e pessimista, mas provoca uma profunda reflex\u00e3o sobre a vida e a sua incessante busca por respostas. O palco vazio desconstr\u00f3i o mundo ao redor, os di\u00e1logos repetitivos reproduzem as rela\u00e7\u00f5es humanas e a ina\u00e7\u00e3o dos personagens mostra a paralisia que a incerteza provoca. Na espera, nada acontece.<\/p>\n<p>A f\u00e1bula de Beckett tem tudo a ver com o momento que o Brasil est\u00e1 vivendo. Os resultados das elei\u00e7\u00f5es municipais, em vez de dissiparem as incertezas, aumentaram-nas. Em 9 de outubro passado, a pouco mais um m\u00eas das elei\u00e7\u00f5es, segundo a pesquisa Exame-Ideia, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) seria reeleito para um segundo mandato. No primeiro turno, teria 30% das inten\u00e7\u00f5es de voto, contra 18% do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) e 10% do ex-ministro da Justi\u00e7a Sergio Moro (sem partido).<\/p>\n<p>A pesquisa mostrava, ainda, Ciro Gomes (PDT), com 9%, Luciano Huck (sem partido), com 5%, e Jo\u00e3o Doria (PSDB), com 4%. A pesquisa tamb\u00e9m apontava Luiz Henrique Mandetta (DEM) com 3%, Marina Silva (Rede) com 2%, Jo\u00e3o Amoedo (Novo) com 1%, e Fl\u00e1vio Dino (PCdoB) com 1%. Brancos e nulos somavam 9%. Os que \u201cn\u00e3o sabiam\u201d eram 10%. Em uma proje\u00e7\u00e3o de segundo turno, Bolsonaro venceria Moro com 41% dos votos contra 35% do ex-ministro. Em rela\u00e7\u00e3o a Lula, Bolsonaro teria 43%, contra 33% do petista. Numa disputa contra Doria, a vantagem do Bolsonaro seria ainda maior: 42% das inten\u00e7\u00f5es de voto contra 21%.<\/p>\n<p><strong>Inc\u00f3gnitas<\/strong><br \/>\nMenos de dois meses depois, Bolsonaro, que venceria em todos os cen\u00e1rios e regi\u00f5es, sofreu uma derrota acachapante nas elei\u00e7\u00f5es municipais. Continua sendo o principal polo de atra\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas, mas viu a extrema-direita que o levou ao poder definhar e tem de disputar o centro pol\u00edtico com o governador de S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o Doria (PSDB), que busca alian\u00e7as nesse campo, principalmente com o DEM, o MDB e o PSD.<\/p>\n<p>O ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que opera a mesma estrat\u00e9gia de 2018, viu o PT ser volatilizado completamente nas capitais, a ponto de n\u00e3o eleger nenhum vereador em Rio Branco (AC). A nova estrela da esquerda \u00e9 Guilherme Boulos, do PSol, que n\u00e3o tem o passivo de corrup\u00e7\u00e3o petista. O novo l\u00edder paulista tamb\u00e9m \u00e9 um problema para Ciro Gomes, do PDT, por outros motivos: fecha-lhe a porta do Sudeste.<\/p>\n<p>Restam as duas inc\u00f3gnitas que justificam a analogia: Sergio Moro, que acabou de assinar um contrato milion\u00e1rio de trabalho com um escrit\u00f3rio que presta servi\u00e7os de consultoria \u00e0 Odebrecht, e o apresentador Luciano Huck, que tem at\u00e9 junho para decidir se mant\u00e9m seu contrato, tamb\u00e9m milion\u00e1rio, com a TV Globo. S\u00e3o nomes que podem aglutinar for\u00e7as de centrodireita e\/ou centroesquerda para construir uma alternativa de poder, mas somente ser\u00e3o candidatos se as pesquisas mostrarem que t\u00eam chances de vencer. Enquanto isso, o di\u00e1logo de nossos personagens reproduz as incertezas:<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em><strong>Vladimir<\/strong>: Amanh\u00e3 nos enforcamos. <\/em><em>(Pausa) <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em>A n\u00e3o ser que Godot venha.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em><strong>Estragon<\/strong>: E se vier?\/ <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em><strong>Vladimir<\/strong>: Estaremos salvos.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em><strong>Estragon<\/strong>: Ent\u00e3o, vamos?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em><strong>Vladimir<\/strong>: Sim, vamos l\u00e1. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em>(Eles n\u00e3o se mexem) <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em>A cortina se fecha.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estragon: O que a gente faz agora? Vladimir: N\u00e3o sei. Estragon: Vamos embora. Vladimir: A gente n\u00e3o pode. Estragon: Por qu\u00ea? 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