{"id":5345,"date":"2020-12-04T08:47:41","date_gmt":"2020-12-04T11:47:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5345"},"modified":"2020-12-04T08:47:41","modified_gmt":"2020-12-04T11:47:41","slug":"poderia-ser-pior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/poderia-ser-pior\/","title":{"rendered":"Poderia ser pior?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>N\u00e3o temos um plano efetivo de vacina\u00e7\u00e3o em massa por parte do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, cujo titular \u00e9 um general de divis\u00e3o da ativa, especialista em log\u00edstica<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o gosto de an\u00e1lises catastr\u00f3ficas nem do quanto pior, melhor. Prefiro a teoria das duas hip\u00f3teses do humorista Apar\u00edccio Apporelly, o Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, descrita por Graciliano Ramos em Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere. O escritor alagoano deliciava-se com as anedotas e os coment\u00e1rios espirituosos do jornalista ga\u00facho, encarcerado durante a ditadura de Get\u00falio Vargas. Com sua voz pastosa e hesitante, dono de um \u201cotimismo panglossiano\u201d, o Bar\u00e3o sustentava que tudo ia bem e poderia melhorar, fundado numa demonstra\u00e7\u00e3o de que diante de cada situa\u00e7\u00e3o haveria sempre uma pior: \u201cExclu\u00eda-se uma, desdobrava-se a segunda em outras duas; uma se eliminava, a outra se bipartia, e assim por diante, numa cadeia comprida\u201d, explicava Graciliano. Com a palavra, o pr\u00f3prio Apporelly quando estava preso:<\/p>\n<p>\u201cQue nos poderia acontecer? Ser\u00edamos postos em liberdade ou continuar\u00edamos presos. Se nos soltassem, bem: era o que desej\u00e1vamos. Se fic\u00e1ssemos na pris\u00e3o, deixar-nos-iam sem processo ou com processo. Se n\u00e3o nos processassem, bem: \u00e0 falta de provas, cedo ou tarde nos mandariam embora. Se nos processassem, ser\u00edamos julgados, absolvidos ou condenados. Se nos absolvessem, bem: nada melhor, esper\u00e1vamos. Se nos condenassem, dar-nos-iam pena leve ou pena grande. Se se contentassem com a pena leve, muito bem: descansar\u00edamos algum tempo sustentados pelo governo, depois ir\u00edamos para a rua. Se nos arrumassem pena dura, ser\u00edamos anistiados, ou n\u00e3o ser\u00edamos. Se f\u00f4ssemos anistiados, excelente: era como se n\u00e3o houvesse condena\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o nos anistiassem, cumprir\u00edamos a senten\u00e7a ou morrer\u00edamos. Se cumpr\u00edssemos a senten\u00e7a, magn\u00edfico: voltar\u00edamos para casa. Se morr\u00eassemos, ir\u00edamos para o c\u00e9u ou para o inferno. Se f\u00f4ssemos para o c\u00e9u, \u00f3timo: era a suprema aspira\u00e7\u00e3o de cada um. E se f\u00f4ssemos para o inferno? A cadeia findava a\u00ed. Realmente. Realmente ignor\u00e1vamos o que nos sucederia se f\u00f4ssemos para o inferno. Mas, ainda assim, n\u00e3o convinha alarmar-nos, pois essa desgra\u00e7a poderia chegar a qualquer pessoa, na Casa de Deten\u00e7\u00e3o ou fora dela\u201d.<\/p>\n<p>O racioc\u00ednio ir\u00f4nico do Bar\u00e3o de Itarar\u00e9 \u00e9 altamente filos\u00f3fico e serve para qualquer situa\u00e7\u00e3o. Por exemplo, para a turma enrolada na Lava-Jato, que agora assiste, de tornozeleira eletr\u00f4nica ou no xadrez, o ex-juiz Sergio Moro ser contratado como especialista em combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o por um grande escrit\u00f3rio de consultoria que presta servi\u00e7os \u00e0 Odebrecht. Como se sabe, Emilio Odebrecht, para salvar a empresa e aliviar a cana de seu filho, Marcelo Odebrecht, negociou uma dela\u00e7\u00e3o premiada com o ent\u00e3o procurador-geral da Rep\u00fablica, Rodrigo Janot, que quase implodiu o sistema pol\u00edtico brasileiro. Alguns imaginam que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff pavimentou o caminho para a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro; n\u00e3o, essa estrada foi asfaltada pelo esc\u00e2ndalo da Petrobras e o uso generalizado de caixa dois nas campanhas eleitorais.<\/p>\n<p><b>Pandemia<\/b><br \/>\nMas, voltemos \u00e0 teoria das duas hip\u00f3teses. O ano da pandemia do novo coronav\u00edrus est\u00e1 acabando, por\u00e9m a covid-19 recrudesceu. H\u00e1 uma corrida mundial para conter a segunda onda na Europa e nos Estados Unidos, que \u00e9 repeti\u00e7\u00e3o do que ocorreu com a gripe espanhola, 100 anos atr\u00e1s. Agora, al\u00e9m do isolamento social, estar\u00e3o sendo utilizadas vacinas em car\u00e1ter emergencial. No Brasil, em raz\u00e3o do negacionismo do presidente Jair Bolsonaro e da mentalidade castrense do ministro da Sa\u00fade, general Eduardo Pazuello, estamos numa guerra entre o governo federal, que comprou a vacina de Oxford, inglesa, que ser\u00e1 produzida pela Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, e o governo de S\u00e3o Paulo, que adquiriu a vacina chinesa CoronaVac, cuja fabrica\u00e7\u00e3o ser\u00e1 iniciada pelo Instituto Butantan. H\u00e1, tamb\u00e9m, uma vacina russa, a Sputnick V, adquirida pelo governo do Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o temos um plano efetivo de vacina\u00e7\u00e3o em massa por parte do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, cujo titular \u00e9 um general de divis\u00e3o da ativa, especialista em log\u00edstica, que ser\u00e1 o grande respons\u00e1vel pelo atraso da campanha de vacina\u00e7\u00e3o. No momento, sua grande preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 negar a exist\u00eancia de uma segunda onda da pandemia, sabotar as medidas de isolamento social e atrasar a libera\u00e7\u00e3o da vacina chinesa. Vidas n\u00e3o importam, afinal, n\u00e3o existe guerra sem defuntos. E onde aplica-se a teoria das duas hip\u00f3teses? Ao comparar o n\u00famero de mortos com os que sobreviveram \u00e0 covid-19, gra\u00e7as aos esfor\u00e7os her\u00f3icos dos profissionais da sa\u00fade.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas 24 horas, houve 776 mortes, somando 175.307 \u00f3bitos desde o come\u00e7o da pandemia. A m\u00e9dia m\u00f3vel de mortes no Brasil, nos \u00faltimos sete dias, foi de 544. Desde o come\u00e7o da pandemia, 6.487.516 brasileiros j\u00e1 tiveram ou t\u00eam o novo coronav\u00edrus, com 50.883 desses casos confirmados nas \u00faltimas 24 horas. Em m\u00e9dia, nos \u00faltimos sete dias, houve 40.421 novos diagn\u00f3sticos por dia, a maior desde agosto, que registrou 40.526 mortes. O aumento no n\u00famero de casos foi de 37%. A pandemia recrudesceu nos seguintes estados: PR, RS, SC, ES, MS, AC, AP, RO, CE, PB, PE, RN e SE.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o temos um plano efetivo de vacina\u00e7\u00e3o em massa por parte do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, cujo titular \u00e9 um general de divis\u00e3o da ativa, especialista em log\u00edstica N\u00e3o gosto de an\u00e1lises catastr\u00f3ficas nem do quanto pior, melhor. Prefiro a teoria das duas hip\u00f3teses do humorista Apar\u00edccio Apporelly, o Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, descrita por Graciliano Ramos em Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere. 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