{"id":5374,"date":"2020-12-15T08:01:45","date_gmt":"2020-12-15T11:01:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5374"},"modified":"2020-12-15T08:32:09","modified_gmt":"2020-12-15T11:32:09","slug":"o-virus-nao-brinca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-virus-nao-brinca\/","title":{"rendered":"O v\u00edrus n\u00e3o brinca"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O negacionismo de Bolsonaro funciona como sabotagem aos esfor\u00e7os governamentais para conter a pandemia, inclusive os do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, cada vez mais enrolado na pr\u00f3pria burocracia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 sanitarista no Brasil que n\u00e3o tenha estudado o caso da epidemia de meningite ocorrida durante a d\u00e9cada de 1970, em pleno regime militar, bem como a campanha de vacina\u00e7\u00e3o que controlou a doen\u00e7a. A epidemia come\u00e7ou em Santo Amaro, na Grande S\u00e3o Paulo, causando 2.500 mortes na capital paulista. Mesmo com a incid\u00eancia de casos saltando a cada ano, e com mortalidade oscilando de 12% a 14% dos doentes, o regime militar escondia os n\u00fameros da popula\u00e7\u00e3o e negava a exist\u00eancia de epidemia, estabelecendo censura pr\u00e9via aos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o para que n\u00e3o divulgassem o que estava ocorrendo. M\u00e9dicos e sanitaristas n\u00e3o podiam dar entrevistas.<\/p>\n<p>S\u00f3 a partir de 1974, quando a doen\u00e7a j\u00e1 grassava em \u00e1reas centrais de S\u00e3o Paulo, e n\u00e3o havia mais como negar a situa\u00e7\u00e3o, com hospitais em colapso, os generais come\u00e7aram a reconhecer o problema. Na \u00e9poca, o Brasil vivia o chamado \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d e os militares temiam que a divulga\u00e7\u00e3o da epidemia gerasse p\u00e2nico na popula\u00e7\u00e3o e prejudicasse as atividades econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Enquanto a meningite matava moradores da periferia, conseguiram abafar o assunto, mas, quando a epidemia atingiu bairros nobres de S\u00e3o Paulo, as autoridades foram obrigadas a admitir que havia uma crise de sa\u00fade. O estrago j\u00e1 estava feito. A incid\u00eancia em S\u00e3o Paulo subiu de 2,16 casos por 100 mil habitantes, em 1970, para 5,90 casos em 1971. Em 1972, chegou a 15,64 diagn\u00f3sticos por 100 mil habitantes e, em 1973, atingiu os 29,38 casos por 100 mil habitantes. A partir de 1974, houve uma explos\u00e3o, motivada pela circula\u00e7\u00e3o do meningococo A, gerando uma sobreposi\u00e7\u00e3o de surtos. Em 1974, a taxa de meningite chegou a 179,71 casos por 100 mil habitantes.<\/p>\n<p>Com a curva de casos em ascens\u00e3o sobre \u00e1reas centrais do Sudeste e em Bras\u00edlia, n\u00e3o havia mais como impedir o fluxo da informa\u00e7\u00e3o. Em mar\u00e7o de 1974, o general Ernesto Geisel assumiu o poder e reconheceu a exist\u00eancia do problema, criando a Comiss\u00e3o Nacional de Controle de Meningite, que importou milh\u00f5es de doses da vacina. Somente em 1977, por\u00e9m, a epidemia foi controlada. Havia se expandido de tal forma que a campanha de vacina\u00e7\u00e3o teve de atingir 97% dos munic\u00edpios brasileiros. Se os nossos sanitaristas aprenderam com a epidemia de meningite, parece que os militares no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade esqueceram completamente a experi\u00eancia do passado, com a diferen\u00e7a de que, agora, vivemos numa democracia e eles n\u00e3o t\u00eam mais como evitar a revela\u00e7\u00e3o dos fatos e a discuss\u00e3o dos problemas.<\/p>\n<p><strong>Perde perde<\/strong><br \/>\nN\u00e3o d\u00e1 mais para escamotear: estamos numa segunda onda da epidemia do novo coronav\u00edrus. O Brasil registrou, nas \u00faltimas 24 horas, 433 mortes e 25.193 novos casos da covid-19; o n\u00famero de v\u00edtimas fatais da doen\u00e7a no pa\u00eds subiu para 181.835, e o total de casos confirmados aumentou para 6.927.145. A \u00fanica maneira de evitar uma trag\u00e9dia maior do que a da primeira onda \u00e9 manter a pol\u00edtica de distanciamento social e promover a vacina\u00e7\u00e3o em massa da popula\u00e7\u00e3o. O v\u00edrus n\u00e3o est\u00e1 para brincadeira, a segunda onda j\u00e1 atinge 18 estados e o Distrito Federal.<\/p>\n<p>Entretanto, o presidente Jair Bolsonaro e o governador de S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o D\u00f3ria, se digladiam. \u00c9 um jogo de perde-perde. O primeiro disp\u00f5e de recursos para vacinar a popula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o disp\u00f5e ainda de uma vacina, pois a de Oxford, j\u00e1 comprada pelo governo brasileiro, n\u00e3o est\u00e1 pronta, e a da Pfizer, que havia sido oferecida e fora desprezada, n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel, embora o governo federal agora queira compr\u00e1-la. O segundo tem a vacina chinesa CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan, mas precisa ainda de aprova\u00e7\u00e3o da Anvisa, que negaceia os prazos e tenta mudar as regras do jogo.<\/p>\n<p>Em algum momento, a realidade falar\u00e1 mais alto. Com a velocidade com que a segunda onda est\u00e1 se propagando, ser\u00e1 inevit\u00e1vel a ado\u00e7\u00e3o de novas medidas de distanciamento social, para evitar o colapso do sistema hospitalar. O reiterado negacionismo de Bolsonaro, por\u00e9m, funciona como uma esp\u00e9cie de sabotagem aos esfor\u00e7os governamentais para conter a pandemia, inclusive os do pr\u00f3prio Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, cada vez mais enrolado na pr\u00f3pria burocracia. Uma campanha de vacina\u00e7\u00e3o em massa precisa de mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade, de convencimento da necessidade e da efic\u00e1cia da vacina. Retardar a aprova\u00e7\u00e3o da vacina produzida pelo Butantan, porque seria um \u00eaxito de Doria, e desacreditar sua efic\u00e1cia, em raz\u00e3o de sua proced\u00eancia chinesa, \u00e9 um tiro no pr\u00f3prio p\u00e9.<\/p>\n<p>Ontem, a Anvisa divulgou uma nota mudando de 72 horas para 10 dias o prazo de aprova\u00e7\u00e3o das vacinas, al\u00e9m de fazer refer\u00eancia a supostas implica\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas de cada vacina, que precisariam ser analisadas, o que levou o governo de S\u00e3o Paulo a desistir de pedir o uso emergencial da vacina e apostar na sua iminente aprova\u00e7\u00e3o definitiva, pela ag\u00eancia reguladora da China. \u00c9 um contrassenso sob todos os aspectos: praticamente todas as vacinas que est\u00e3o sendo desenvolvidas no mundo t\u00eam algum n\u00edvel de participa\u00e7\u00e3o da China, pois foram os cientistas chineses que forneceram o sequenciamento gen\u00e9tico utilizados nas pesquisas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O negacionismo de Bolsonaro funciona como sabotagem aos esfor\u00e7os governamentais para conter a pandemia, inclusive os do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, cada vez mais enrolado na pr\u00f3pria burocracia N\u00e3o h\u00e1 sanitarista no Brasil que n\u00e3o tenha estudado o caso da epidemia de meningite ocorrida durante a d\u00e9cada de 1970, em pleno regime militar, bem como a campanha de vacina\u00e7\u00e3o que controlou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[481,722,677,4,113,9,3,323,71],"tags":[130,180,146,114,798],"class_list":["post-5374","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-china","category-ciencia","category-comunicacao","category-governo","category-militares","category-politica-2","category-politica","category-sao-paulo","category-saude","tag-bolsonaro","tag-china","tag-doria","tag-militares","tag-vacina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5374","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5374"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5374\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5386,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5374\/revisions\/5386"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}