{"id":5455,"date":"2021-01-13T07:33:02","date_gmt":"2021-01-13T10:33:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5455"},"modified":"2021-01-13T11:22:17","modified_gmt":"2021-01-13T14:22:17","slug":"nas-entrelinhas-o-recado-da-ford","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-recado-da-ford\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O recado da Ford"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Pode-se responsabilizar o governo Bolsonaro pela sa\u00edda da Ford do Brasil? Por n\u00e3o ter feito nada para evitar, sim; mas essa n\u00e3o foi a causa principal<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Neste epis\u00f3dio do encerramento das opera\u00e7\u00f5es da Ford no Brasil h\u00e1 mais coisas entre o c\u00e9u e a terra do que os avi\u00f5es da Embraer. A prop\u00f3sito, a mais importante empresa de tecnologia da ind\u00fastria nacional, que foi a consagra\u00e7\u00e3o do modelo de substitui\u00e7\u00e3o das importa\u00e7\u00f5es, luta para sobreviver, depois do fracasso da bilion\u00e1ria parceria com a Boeing. A ind\u00fastria de avia\u00e7\u00e3o passa por uma reestrutura\u00e7\u00e3o mundial, agravada pela pandemia do novo coronav\u00edrus, que teve forte impacto no transporte de passageiros. De certa forma, a redu\u00e7\u00e3o do fluxo de pessoas pode ajudar a volta por cima da Embraer, que produz avi\u00f5es menores, como o E190, para 100 passageiros, ideal para a avia\u00e7\u00e3o regional. A startup EGO Airways divulgou, recentemente, que o avi\u00e3o brasileiro vai operar 11 rotas italianas, inicialmente, tendo por hubs os aeroportos de Forli e de Cat\u00e2nia, no norte e no sul da It\u00e1lia, respectivamente; depois, na rota Mil\u00e3o-Roma.<\/p>\n<p>Pode-se responsabilizar o governo Bolsonaro pela sa\u00edda da Ford do Brasil? Por n\u00e3o ter feito nada para evitar, sim; mas essa n\u00e3o foi a causa principal. Em tese, poder\u00edamos ter disputado a perman\u00eancia das f\u00e1bricas com a Argentina e o Uruguai, mas isso exigiria um arranjo institucional imposs\u00edvel de ser feito sem reforma tribut\u00e1ria, pol\u00edtica industrial e pol\u00edtica de com\u00e9rcio exterior adequadas. Al\u00e9m disso, poderia ser uma solu\u00e7\u00e3o de curto prazo, porque a ind\u00fastria de autom\u00f3veis passa por uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, na qual a Ford ficou para tr\u00e1s. J\u00e1 s\u00e3o vendidos no Brasil, por exemplo, cerca de 20 modelos diferentes de carros el\u00e9tricos Audi, Chevrolet, Nissan, Jaguar, BMW, Renault, JAC, Mercedes-Benz, BYD e Tesla. A briga boa \u00e9 para produzi-los aqui no Brasil, mas, a\u00ed, surge o problema da automa\u00e7\u00e3o: modernas plantas industriais s\u00e3o automatizadas, a m\u00e3o de obra barata deixou de ser um atrativo.<\/p>\n<p>As grandes marcas n\u00e3o s\u00e3o imortais, mesmo quando a empresa opera no pa\u00eds h\u00e1 mais de 100 anos. A Esso, com 50 anos de mercado, tinha 1,7 mil postos de combust\u00edveis quando deixou de existir. Estava no Brasil desde 1912. No in\u00edcio, os postos se chamavam \u201cStandard Oil Company of Brazil\u201d. N\u00e3o se sabe, ao certo, quando a marca e sua mascote, o tigre, foram adotados. Mas, na d\u00e9cada de 1940, quando o Rep\u00f3rter Esso estreou na R\u00e1dio Nacional do Rio de Janeiro, a marca j\u00e1 tinha alguma popularidade. Em 2008, a rede Esso foi comprada pela Cosan. Tr\u00eas anos depois, a pr\u00f3pria Cosan se uniu \u00e0 Shell, formando a Ra\u00edzen. Na ocasi\u00e3o, Cosan e Shell anunciaram que a marca Esso seria substitu\u00edda.<\/p>\n<p><strong>Tecnologia<\/strong><\/p>\n<p>A troca de bandeira n\u00e3o \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. S\u00f3 para vestir os frentistas da Esso com o uniforme da Shell a companhia precisou de 300 mil macac\u00f5es e 60 mil bon\u00e9s. A Ra\u00edzen investiu R$ 130 milh\u00f5es para trocar a bandeira pela Shell. E como ser\u00e1 com o carro el\u00e9trico, cujas baterias s\u00e3o recarregadas na garagem? Foi melhor a Petrobras vender logo a BR Distribuidora \u2014 corre o risco de que faltem compradores interessados \u2014 e investir na explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal, antes que seja tarde demais. Inova\u00e7\u00e3o \u00e9 o que mant\u00e9m as empresas vivas. Para isso, precisam conversar com startups ou criar programas de pesquisa e desenvolvimento. Entretanto, preferimos subs\u00eddios e reservas de mercado, que t\u00eam pernas curtas quando ocorre uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, como agora, com forte impacto na divis\u00e3o internacional do trabalho.<\/p>\n<p>A Blockbuster era uma companhia gigante e com uma grande clientela. Morreu de maneira surreal. Deixamos de alugar DVDs para assistir a v\u00eddeos por meio de servi\u00e7o de streaming em demanda, como Netflix e o Net Now. Teve a oportunidade de comprar a Netflix em 2000 e n\u00e3o comprou, preferiu focar na aten\u00e7\u00e3o ao cliente de suas lojas. Na \u00e9poca, a Netflix era s\u00f3 um servi\u00e7o de delivery de DVD. A empresa faliu em 2013. Na d\u00e9cada de 1970, a Kodak chegou a ser dona de 80% da venda das c\u00e2meras e de 90% de filmes fotogr\u00e1ficos. E, na mesma d\u00e9cada, inventou o que ia falir a empresa: a c\u00e2mera digital. Como ia prejudicar a venda de filmes, eles engavetaram a tecnologia. Duas d\u00e9cadas depois, as c\u00e2meras digitais apareceram com for\u00e7a e quebraram a Kodak. Faliu em 2012.<\/p>\n<p>Em 2005, o Yahoo! era o maior portal de internet do mundo e chegou a valer US$ 125 bilh\u00f5es. Pouco mais de 10 anos depois, a companhia foi vendida para a Verizon, por apenas US$ 4,8 bilh\u00f5es. Ela poderia ser o maior portal de pesquisa da internet, mas decidiu ser um portal de m\u00eddia. O PARC (Palo Alto Research Center) da Xerox tinha objetivo de criar tecnologias inovadoras: computadores, impress\u00e3o a laser, Ethernet, peer-to-peer, desktop, interfaces gr\u00e1ficas, mouse e muito mais. Conseguiu. Steve Jobs s\u00f3 criou a interface gr\u00e1fica de seus computadores ap\u00f3s uma visita ao centro da Xerox, no cora\u00e7\u00e3o do Vale do Sil\u00edcio. Quem menos lucrou com essas inova\u00e7\u00f5es foi a pr\u00f3pria Xerox.<\/p>\n<p>MySpace, Orkut e Atari tiveram trajet\u00f3rias parecidas: estagnaram e foram engolidas pela concorr\u00eancia. Os dois primeiros, por Facebook e Twitter; o terceiro, pela Nintendo. Mas, nada foi mais espetacular do que a ultrapassagem do Blackberry. Chegou a ter mais de 50% do mercado de celulares nos Estados Unidos, em 2007. Contudo, naquele mesmo ano, come\u00e7ou a sua derrocada. O primeiro iPhone foi lan\u00e7ado em 29 de junho de 2007. A Blackberry ignorou as tecnologias que o concorrente estava trazendo, como o touch screen. Resultado: a Apple dominou o mercado de consumidores pessoas-f\u00edsicas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pode-se responsabilizar o governo Bolsonaro pela sa\u00edda da Ford do Brasil? Por n\u00e3o ter feito nada para evitar, sim; mas essa n\u00e3o foi a causa principal Neste epis\u00f3dio do encerramento das opera\u00e7\u00f5es da Ford no Brasil h\u00e1 mais coisas entre o c\u00e9u e a terra do que os avi\u00f5es da Embraer. 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