{"id":5476,"date":"2021-01-19T07:10:28","date_gmt":"2021-01-19T10:10:28","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5476"},"modified":"2021-01-19T07:10:28","modified_gmt":"2021-01-19T10:10:28","slug":"nas-entrelinhas-como-perder-a-guerra-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-como-perder-a-guerra-2\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Como perder a guerra"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Tanto a produ\u00e7\u00e3o da vacina do Butantan quanto a da Fiocruz precisam de insumos importados da China, dos quais somos t\u00e3o dependentes como os chineses da nossa soja<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 derrotas por antecipa\u00e7\u00e3o. Geralmente, como j\u00e1 disse, ocorrem quando se comete um erro de conceito estrat\u00e9gico. A partir da\u00ed, os planejamentos t\u00e1tico e operacional s\u00e3o desastres sucessivos. Em tese, oficiais superiores s\u00e3o treinados para serem bons estrategistas. O marechal Castelo Branco, por exemplo, conquistou essa fama nos campos da It\u00e1lia, na II Guerra Mundial, ao elaborar o bem-sucedido plano da tomada de Monte Castelo, que veio a ser uma das gl\u00f3rias de nossos pracinhas da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (FEB). N\u00e3o \u00e9 o caso do general Eduardo Pazuello, ministro da Sa\u00fade, apesar da fama de craque em log\u00edstica.<\/p>\n<p>O primeiro erro de conceito de Pazuello \u00e9 considerar a pandemia uma guerra. Como figura de linguagem, ainda se pode dar um desconto; como conceito de pol\u00edtica sanit\u00e1ria, por\u00e9m, leva a conclus\u00f5es equivocadas. Logo no come\u00e7o da pandemia, o sanitarista Luiz Ant\u00f4nio Santini, m\u00e9dico e ex-diretor do Inca, publicou um artigo no site do Centro de Estudos Estrat\u00e9gicos da Fiocruz chamando aten\u00e7\u00e3o para isso: \u201cA met\u00e1fora da guerra, embora frequente, n\u00e3o \u00e9 adequada para abordar os desafios da sa\u00fade, at\u00e9 porque, por defini\u00e7\u00e3o, uma guerra visa derrotar um inimigo e, para isso, vai requerer a mobiliza\u00e7\u00e3o de recursos das mais variadas naturezas que, em geral, levam a uma brutal desorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social do pa\u00eds. Essa vis\u00e3o belicosa, no caso de uma pandemia, al\u00e9m de limitar, \u00e9 seguramente ineficiente\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o sanitarista, uma pandemia n\u00e3o representa um ataque inesperado de um agente inimigo da humanidade, como a tese da guerra sugere. \u201cO processo de muta\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus \u00e9 uma atividade constante na natureza e o que faz com que esse v\u00edrus mutante alcance a popula\u00e7\u00e3o, sem prote\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica, s\u00e3o, al\u00e9m das mudan\u00e7as na biologia do v\u00edrus, mudan\u00e7as ambientais, no modo de vida das popula\u00e7\u00f5es humanas, nas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais. Muito al\u00e9m, portanto, de um ataque insidioso provocado por um agente do mal a ser eliminado.\u201d Muito provavelmente, o que est\u00e1 acontecendo em Manaus, e pode se repetir em outras cidades, \u00e9 consequ\u00eancia de uma muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica do v\u00edrus da covid-19, que fez com que a doen\u00e7a se propagasse mais rapidamente e a subestima\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do distanciamento social e outros cuidados, como uso de m\u00e1scaras.<\/p>\n<p>A pandemia n\u00e3o \u00e9 culpa de Pazuello, mas um fen\u00f4meno da natureza. Entretanto, deveria ter sido mitigada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, enquanto a ci\u00eancia busca respostas com vacinas, medicamentos, mais conhecimentos e tecnologias. O problema \u00e9 que Pazuello n\u00e3o foi nomeado para o cargo de ministro da Sa\u00fade por seus conhecimentos em sa\u00fade p\u00fablica, mas porque obedece cegamente ao presidente Jair Bolsonaro, um capit\u00e3o que pauta sua atua\u00e7\u00e3o na Presid\u00eancia pelo improviso e, no caso da pandemia, pelo negacionismo.<\/p>\n<p><strong>Aposta errada<\/strong><\/p>\n<p>Por ordem de Bolsonaro, Pazuello apostou no \u201ctratamento precoce\u201d \u00e0 base de um coquetel cuja efici\u00eancia \u00e9 contestada pelos epidemiologistas. No caso de Manaus, segundo depoimentos de intensivistas, a maioria dos mortos havia tomado hidroxicloroquina, azitromicina, zinco e vitamina D, al\u00e9m da ivermectina. O general foi a Manaus recomendar esse tratamento alternativo em massa, na expectativa de que isso contivesse a pandemia, em vez de dar a devida import\u00e2ncia \u00e0 escalada da doen\u00e7a, que provocou o colapso dos hospitais, a come\u00e7ar pela falta de oxig\u00eanio. Pesaram na sua avalia\u00e7\u00e3o a sua autossufici\u00eancia e ignor\u00e2ncia em mat\u00e9ria de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>A mentalidade b\u00e9lica tamb\u00e9m cobra um pre\u00e7o na quest\u00e3o das vacinas. O tempo todo o governador de S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o Doria, foi tratado como inimigo por Bolsonaro, que demitiu Henrique Mandetta por ci\u00fames. O ex-ministro havia alcan\u00e7ado grande popularidade, ao liderar a luta contra a pandemia, e havia se encontrado com o governador paulista para discutir a colabora\u00e7\u00e3o entre os governos federal e estadual no enfrentamento da crise sanit\u00e1ria. \u00c0 \u00e9poca, Bolsonaro considerava a covid-19 uma \u201cgripezinha\u201d, sabotava o distanciamento social e desacreditava a vacina, que ainda se recusa a tomar, com argumento de que foi imunizado pela doen\u00e7a, embora os casos de reinfec\u00e7\u00e3o estejam aumentando.<\/p>\n<p>O resultado todo mundo sabe. A vacina do Butantan (CoronaVac) \u00e9 a \u00fanica dispon\u00edvel at\u00e9 agora. O governador Jo\u00e3o Doria come\u00e7ou a campanha de vacina\u00e7\u00e3o no domingo. Pazuello corre contra o preju\u00edzo. As vacinas dispon\u00edveis \u2014 6 milh\u00f5es de doses, equivalentes \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o de 3 milh\u00f5es de pessoas, a maioria profissionais de sa\u00fade \u2014 s\u00e3o insuficientes para imunizar a popula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, tanto a produ\u00e7\u00e3o da vacina do Butantan quanto a da Fiocruz precisam de insumos importados da China, dos quais somos t\u00e3o dependentes como os chineses da nossa soja. Outro erro estrat\u00e9gico de Bolsonaro, nesta pandemia, foi falar mal da China. Pode nos custar muito mais caro do que se imagina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tanto a produ\u00e7\u00e3o da vacina do Butantan quanto a da Fiocruz precisam de insumos importados da China, dos quais somos t\u00e3o dependentes como os chineses da nossa soja H\u00e1 derrotas por antecipa\u00e7\u00e3o. Geralmente, como j\u00e1 disse, ocorrem quando se comete um erro de conceito estrat\u00e9gico. A partir da\u00ed, os planejamentos t\u00e1tico e operacional s\u00e3o desastres sucessivos. 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