{"id":5497,"date":"2021-01-24T08:00:37","date_gmt":"2021-01-24T11:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5497"},"modified":"2021-01-24T08:00:37","modified_gmt":"2021-01-24T11:00:37","slug":"nas-entrelinhas-sobre-atalhos-e-eleicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-sobre-atalhos-e-eleicoes\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Sobre atalhos e elei\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A eventual vit\u00f3ria de Bolsonaro na disputa pelas Mesas do Congresso lhe dar\u00e1 f\u00f4lego para salvar o mandato, mas n\u00e3o ser\u00e1 o bastante, caso sua popularidade continue desabando<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O Conselheiro Ac\u00e1cio, cria\u00e7\u00e3o do escritor portugu\u00eas E\u00e7a de Queir\u00f3z (1840-1900) no romance Primo Bas\u00edlio, com passar do tempo, acabou se tornando maior do que o protagonista que empresta o nome ao livro e os demais personagens, por seu pedantismo e suas obviedades. A express\u00e3o \u201cacaciano\u201d, inspirada em suas platitudes e redund\u00e2ncias, virou at\u00e9 adjetivo na l\u00edngua portuguesa. E\u00e7a descreve-o de forma caricatural: \u201cAlto, magro, vestido todo de preto, com o pesco\u00e7o entalado num colarinho direito. O rosto agu\u00e7ado no queixo, ia-se alargando at\u00e9 a calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto. Tingia os cabelos, que de uma orelha \u00e0 outra lhe faziam colar para tr\u00e1s da nuca; e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, maior brilho \u00e0 calva; mas n\u00e3o tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, ca\u00eddo aos cantos da boca. Era muito p\u00e1lido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo e as orelhas muito grandes, muito despegadas do cr\u00e2nio\u201d.<\/p>\n<p>O que humanizou e fez do Conselheiro um personagem maior e universal foram seu falso moralismo (vivia amancebado com a criada), o burocratismo (adorava carimbos, despachos, fichas e relat\u00f3rios que para nada serviam) e a bajula\u00e7\u00e3o (toda vez que o nome do Rei era pronunciado, erguia-se um pouco da cadeira). Como uma esp\u00e9cie de Bar\u00e3o de Itarar\u00e9 (Appar\u00edcio Torelly) \u00e0s avessas, suas frases de efeito tornaram-se famosas, como \u201ca sa\u00fade \u00e9 um bem que s\u00f3 apreciamos quando nos foge\u201d. Tudo para ele era cercado de pompa: \u201cQue maior prazer, meu Jorge, que passar assim as horas entre amigos, de reconhecida ilustra\u00e7\u00e3o, discutir as quest\u00f5es mais importantes, e ver travada uma conversa\u00e7\u00e3o erudita&#8230;? Parecem excelentes os ovos\u201d.<\/p>\n<p>Conselheiros como ele pululam nos pal\u00e1cios e seus gabinetes. Muita gente gosta desse tipo de colaborador, que d\u00e1 raz\u00e3o ao chefe em tudo. O presidente Jair Bolsonaro n\u00e3o foge \u00e0 regra, mas \u2014 quanta ironia \u2014, como diria o Conselheiro Ac\u00e1cio, \u201cas consequ\u00eancias v\u00eam depois\u201d. \u00c9 o que est\u00e1 acontecendo, agora, com a pandemia da covid-19 no Brasil, cuja segunda onda \u00e9 uma realidade dram\u00e1tica e, tudo indica, est\u00e1 se somando \u00e0 \u201cquarta onda\u201d a que se refere o ministro da Sa\u00fade, general Eduardo Pazuello, que seriam os efeitos psicol\u00f3gicos das mortes, do desemprego, dos confinamentos e das desesperan\u00e7as. A diferen\u00e7a \u00e9 que o general imaginava um desespero individual, que at\u00e9 poderia levar ao aumento dos suic\u00eddios, ou a saques e depreda\u00e7\u00f5es espont\u00e2neos, mas que poderiam provocar uma convuls\u00e3o social.<\/p>\n<p><b>Impeachment<\/b><br \/>\nPazuello n\u00e3o contava, por\u00e9m, com o desgaste provocado pelo negacionismo de Bolsonaro e uma resposta pol\u00edtica da oposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que estamos vendo agora, com manifesta\u00e7\u00f5es de protestos se sucedendo com for\u00e7a: panela\u00e7os nas janelas e memes nas redes sociais; e as carreatas, como as de ontem e de hoje, pedindo \u201cvacinas j\u00e1\u201d e o impeachment do presidente da Rep\u00fablica, que desabou nas pesquisas. Quaisquer que sejam os resultados das elei\u00e7\u00f5es das Mesas da C\u00e2mara e do Senado, mesmo que ven\u00e7am os candidatos apoiados por Bolsonaro \u2014 Arthur Lira (PP-AL), na C\u00e2mara, e Rodrigo Pacheco (DEM-MG), no Senado \u2014, os pol\u00edticos governistas tamb\u00e9m sentiram o cheiro de animal ferido na floresta. A fatura a pagar ser\u00e1 alta. Nos casos de vit\u00f3ria de Baleia Rossi (MDB-SP) e\/ou Simone Tebet (MDB-MS), principalmente a do primeiro, a agenda de costumes e institucional de Bolsonaro estar\u00e1 definitivamente interditada. As pautas do Congresso ser\u00e3o a crise sanit\u00e1ria, a recess\u00e3o, a infla\u00e7\u00e3o, o desemprego, a renda e o fracasso do governo.<\/p>\n<p>O Brasil j\u00e1 viu esse filme duas vezes, nos governos Collor e Dilma, o primeiro, por causa da infla\u00e7\u00e3o, o segundo, em decorr\u00eancia da recess\u00e3o, ambos temperados por esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o. Nos dois casos, as insatisfa\u00e7\u00f5es desaguaram no impeachment. No de Collor, o clamor das ruas foi liderado pelo PT, mas o realinhamento das for\u00e7as pol\u00edticas resultou na elei\u00e7\u00e3o de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). No de Dilma, o PSDB trabalhou para ape\u00e1-la desde o primeiro dia no cargo. Quando chegaram as elei\u00e7\u00f5es, deu Bolsonaro. As circunst\u00e2ncias do impeachment s\u00e3o crime de responsabilidade e grande insatisfa\u00e7\u00e3o popular, al\u00e9m da vontade de a oposi\u00e7\u00e3o atalhar o processo de altern\u00e2ncia de poder. Entretanto, o perfil do vice-presidente \u00e9 dado pelas alian\u00e7as que viabilizaram a elei\u00e7\u00e3o do presidente defenestrado. Itamar era aliado de Collor; Michel Temer, de Dilma. O primeiro n\u00e3o podia se candidatar, o segundo foi inviabilizado por den\u00fancias quando ensaiava a reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A eventual vit\u00f3ria de Bolsonaro na disputa pelas Mesas do Congresso lhe dar\u00e1 f\u00f4lego para salvar o mandato, mas n\u00e3o ser\u00e1 o bastante, caso sua popularidade continue desabando. Sua for\u00e7a no Congresso resulta da a\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de \u201csubgoverno\u201d, que sempre manteve boas rela\u00e7\u00f5es no Senado e na C\u00e2mara, formado por alguns ministros e o grupo de militares que hoje controla o Pal\u00e1cio do Planalto. S\u00e3o aliados que tamb\u00e9m podem derivar para o impeachment, se perceberem uma debacle iminente, com o pa\u00eds ladeira abaixo, pois estariam mais bem servidos com o vice Hamilton Mour\u00e3o, um general de quatro estrelas, um potencial \u201csalvador da p\u00e1tria\u201d embalado nas casernas e pelo povo nas ruas. E o que viria depois? Ningu\u00e9m sabe, 2022 j\u00e1 est\u00e1 em aberto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A eventual vit\u00f3ria de Bolsonaro na disputa pelas Mesas do Congresso lhe dar\u00e1 f\u00f4lego para salvar o mandato, mas n\u00e3o ser\u00e1 o bastante, caso sua popularidade continue desabando O Conselheiro Ac\u00e1cio, cria\u00e7\u00e3o do escritor portugu\u00eas E\u00e7a de Queir\u00f3z (1840-1900) no romance Primo Bas\u00edlio, com passar do tempo, acabou se tornando maior do que o protagonista que empresta o nome ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":3916,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,37,36,46,4,92,113,8,9,3,71],"tags":[130,77,215,424,21],"class_list":["post-5497","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-congresso","category-desemprego","category-economia","category-eleicoes","category-governo","category-literatura","category-militares","category-partidos","category-politica-2","category-politica","category-saude","tag-bolsonaro","tag-congresso","tag-mourao","tag-oposicao","tag-impeachment"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5497","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5497"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5497\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5501,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5497\/revisions\/5501"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3916"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}