{"id":5500,"date":"2021-01-31T08:35:04","date_gmt":"2021-01-31T11:35:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5500"},"modified":"2021-01-31T08:35:04","modified_gmt":"2021-01-31T11:35:04","slug":"nas-entrelinhas-rede-de-intrigas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-rede-de-intrigas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Rede de intrigas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O que parecia impens\u00e1vel, passou a ser uma possibilidade, diante do descalabro na sa\u00fade: uma alian\u00e7a entre os partidos de esquerda e o general Mour\u00e3o contra Bolsonaro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A moral da hist\u00f3ria n\u00e3o tem muito a ver com o longa-metragem que empresta o t\u00edtulo \u00e0 coluna, por sinal, uma excelente dica para a tarde deste domingo, em tempos de distanciamento social. Lan\u00e7ado em 1976, o filme de Sidney Lumet \u00e9 uma dura cr\u00edtica aos meios de comunica\u00e7\u00e3o, principalmente a tev\u00ea, que arrebatou quatro Oscar: Ator (Peter Finch, entregue de forma p\u00f3stuma), Atriz (Faye Dunaway), Atriz Coadjuvante (Beatrice Straight) e Roteiro (Paddy Chayefsky). A trama de Rede de Intrigas \u00e9 uma pequena obra-prima:<\/p>\n<p>Com baixos \u00edndices de audi\u00eancia, o \u00e2ncora do programa de not\u00edcias da rede UBS, Howard Beale (Peter Finch), surta e aparece na televis\u00e3o afirmando que cometer\u00e1 suic\u00eddio dentro de uma semana, em pleno hor\u00e1rio nobre. Seu produtor entra em p\u00e2nico com a atitude do amigo, acreditando que sua carreira e a de Howard estariam encerradas. Entretanto, o colapso do \u00e2ncora acaba dando mais audi\u00eancia ao programa. A ambiciosa diretora de tev\u00ea Diana Christensen (Faye Dunaway) e o executivo Frank Hackett (Robert Duvall) n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para o surto do apresentador, s\u00f3 querem saber de faturar com o sucesso de p\u00fablico.<br \/>\nRede de Intrigas se passa logo ap\u00f3s a Guerra do Vietn\u00e3 e o esc\u00e2ndalo de Watergate, que levou Richard Nixon \u00e0 ren\u00fancia. \u00c9 um ambiente de muito ceticismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es norte-americanas. Neste cen\u00e1rio, o sisudo \u00e2ncora Howard Beale se transforma num jornalista sem papas na l\u00edngua, que n\u00e3o tolera a situa\u00e7\u00e3o e assume o papel de porta-voz da opini\u00e3o p\u00fablica. Controlar o desequilibrado Howard Beale, por\u00e9m, ser\u00e1 bem mais dif\u00edcil do que qualquer um poderia pensar.<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica brasileira, a intriga da hora \u00e9 o estresse entre o presidente Jair Bolsonaro e seu vice, general Hamilton Mour\u00e3o, provocado por inconfid\u00eancias de um assessor parlamentar, que acabou demitido. Desde o epis\u00f3dio das \u201crachadinhas\u201d (devolu\u00e7\u00e3o de parte dos sal\u00e1rios dos assessores para o parlamentar que os nomeou) da Assembl\u00e9ia Legislativa do Rio de Janeiro, no qual est\u00e3o envolvidos o senador Fl\u00e1vio Bolsonaro (PR-RJ), seu filho, e a primeira-dama Michele, Bolsonaro est\u00e1 convencido de que o vice sonha com a cadeira de presidente da Rep\u00fablica. Demitiu dois ministros, logo ap\u00f3s o esc\u00e2ndalo vir \u00e0 tona, por acreditar numa conspira\u00e7\u00e3o para ape\u00e1-lo do cargo: o ex-secret\u00e1rio-geral da Presid\u00eancia Gustavo Bebianno, j\u00e1 falecido, e o ex-secret\u00e1rio de Governo Carlos Alberto Santos Cruz, um general reformado \u2014 respeitad\u00edssimo na caserna, por sua atua\u00e7\u00e3o em miss\u00f5es da ONU no Haiti e no Congo \u2014, que hoje lhe faz uma oposi\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Patente \u00e9 documento<\/strong><br \/>\nA crise sanit\u00e1ria e a recess\u00e3o econ\u00f4mica, que Bolsonaro tenta mitigar no gog\u00f3 falando barbaridades, jogaram os indicadores de aprova\u00e7\u00e3o do governo para baixo e est\u00e3o desgastando a imagem do presidente da Rep\u00fablica de forma muito acelerada. O n\u00famero de mortes provocado pela covid-19 e a indigna\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com o colapso do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) em Manaus, al\u00e9m de desmoralizar os militares \u00e0 frente do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, sob comando do general Eduardo Pazuello, embalaram a agita\u00e7\u00e3o a favor do impeachment de Bolsonaro. O que parecia impens\u00e1vel, passou a ser uma possibilidade, diante do descalabro na sa\u00fade: uma alian\u00e7a entre os partidos de esquerda e o general Mour\u00e3o, homem sabidamente de direita. Com essa, Bolsonaro n\u00e3o contava.<\/p>\n<p>A escolha de Mour\u00e3o como vice teve por objetivo evitar que a oposi\u00e7\u00e3o derrotada nas urnas em 2018 embarcasse na canoa do impeachment. A narrativa de que o impeachment de Dilma Rousseff fora um golpe liderado pelo vice Michael Temer, com apoio dos militares, dividia oposi\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 que o impeachment passou a ser o centro da t\u00e1tica tanto da esquerda como dos movimentos c\u00edvicos que foram pra rua contra a \u201cpresidenta\u201d petista. Bolsonaro trabalha para consolidar sua blindagem no Congresso, com a elei\u00e7\u00e3o do senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG) e do deputado Arthur Lira (PP-AL) \u00e0 Presid\u00eancia do Senado e da C\u00e2mara, respectivamente. \u00c9 jogo jogado, mas isso n\u00e3o significa corpo fechado.<\/p>\n<p>Mesmo que Bolsonaro obtenha uma vit\u00f3ria consagradora na \u201cguerra de posi\u00e7\u00f5es\u201d para se manter no poder, isso n\u00e3o altera certas caracter\u00edsticas de seu governo nem do Congresso. A maioria formada para apoi\u00e1-lo, tanto na C\u00e2mara como no Senado, foi obra silenciosa dos militares que controlam o governo, sobretudo do ministro Luiz Ramos, secret\u00e1rio de Governo, e das velhas raposas pol\u00edticas do Centr\u00e3o, entre as quais o senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP, e os ex-deputados Valdemar Costa Neto (SP), do PL, e Roberto Jefferson (RJ)), do PTB, e o ex-prefeito Gilberto Kassab (SP), do PSD, com maior ou menor estrid\u00eancia.<\/p>\n<p>S\u00e3o pol\u00edticos que j\u00e1 apoiaram e abandonaram todos os governos. Por sua vez, os militares t\u00eam uma cultura de troca de guarda, ou seja, rod\u00edzio nos comandos, que foi uma das caracter\u00edsticas do regime militar. Bolsonaro tem raz\u00e3o ao ver em Mour\u00e3o uma amea\u00e7a. O vice \u00e9 \u201cimex\u00edvel\u201d e est\u00e1 preparado para assumir seu lugar em caso de necessidade, com apoio do Centr\u00e3o e dos militares, caso a popularidade do presidente continue desabando e o impeachment realmente ganhe as ruas, financiado por setores empresariais descontentes com os rumos da economia. Al\u00e9m disso, num governo de caracter\u00edsticas bonapartistas, patente \u00e9 documento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que parecia impens\u00e1vel, passou a ser uma possibilidade, diante do descalabro na sa\u00fade: uma alian\u00e7a entre os partidos de esquerda e o general Mour\u00e3o contra Bolsonaro A moral da hist\u00f3ria n\u00e3o tem muito a ver com o longa-metragem que empresta o t\u00edtulo \u00e0 coluna, por sinal, uma excelente dica para a tarde deste domingo, em tempos de distanciamento social. 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