{"id":5506,"date":"2021-01-27T08:28:21","date_gmt":"2021-01-27T11:28:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5506"},"modified":"2021-01-27T08:28:21","modified_gmt":"2021-01-27T11:28:21","slug":"nas-entrelinhas-a-vacina-dos-camarotes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-vacina-dos-camarotes\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A vacina dos camarotes"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A pol\u00edtica de sa\u00fade p\u00fablica de Bolsonaro, por exemplo, \u00e9 inspirada na Lei de Murici: \u201cCada um sabe de si\u201d, a m\u00e1xima do coronel Pedro Tamarindo na debandada da terceira campanha de Canudos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas da pandemia de coronav\u00edrus, que certamente ser\u00e1 objeto de muitos estudos e pesquisas, \u00e9 a desigualdade social escancarada que nos revela. A cortina foi rasgada pelo aux\u00edlio emergencial: a iniquidade chegava a 56 milh\u00f5es de pessoas, dos quais 2,6 milh\u00f5es em S\u00e3o Paulo e 1,6 milh\u00e3o no Rio de Janeiro, cidades \u00edcones do Sul Maravilha, segundo dados do Portal da Transpar\u00eancia de junho do ano passado. O n\u00famero de \u201cinvis\u00edveis\u201d dependentes dos recursos governamentais ultrapassava meio milh\u00e3o de pessoas em Salvador (762 mil), Fortaleza (747), Manaus (634 mil) e, pasmem, Bras\u00edlia (562 mil). No time das 10 cidades com maior n\u00famero de \u201cflagelados\u201d da crise sanit\u00e1ria, constavam, tamb\u00e9m, Belo Horizonte (494 mil), Bel\u00e9m (453 mil), Recife (420 mil) e Curitiba (339 mil).<\/p>\n<p>Vejam bem, n\u00e3o estamos falando do Brasil profundo, mas das principais cidades brasileiras, que lideram o nosso desenvolvimento econ\u00f4mico e social, os principais polos da transi\u00e7\u00e3o do Brasil rural para o urbano, na marcha for\u00e7ada do nosso modelo nacional-desenvolvimentista. Esse processo melhorou a vida das pessoas da porta para dentro, principalmente da classe m\u00e9dia. Entretanto, o crescimento acelerado das cidades deteriorou as condi\u00e7\u00f5es urbanas e deixou ao abandono a vida banal das periferias e morros, degradando a vida coletiva da porta para fora. Principalmente depois do Plano Real, a economia informal e o empreendedorismo mascararam a gravidade do problema, mitigado, ainda, pelo programa Bolsa fam\u00edlia, at\u00e9 que veio a recess\u00e3o provocada pela pandemia, que destruiu empregos e tamb\u00e9m provocou um \u201capag\u00e3o\u201d de capital.<\/p>\n<p>A conta da pandemia, do ponto de vista fiscal, ainda vai chegar, mas ningu\u00e9m mais pode ignorar a gravidade do problema social que o Brasil enfrenta, principalmente, as elites econ\u00f4micas do pa\u00eds. As desigualdades se manifestam em todos os seus aspectos \u2014 econ\u00f4mico, social, cultural, \u00e9tnico e de g\u00eanero \u2014 e n\u00e3o ser\u00e1 a prorroga\u00e7\u00e3o do aux\u00edlio emergencial que resolver\u00e1 o problema. \u00c9 invi\u00e1vel uma pol\u00edtica de renda m\u00ednima sem um projeto de desenvolvimento, sem pol\u00edtica industrial e de com\u00e9rcio exterior, sem reforma tribut\u00e1ria e administrativa, sem investimento em ci\u00eancia e tecnologia, em habita\u00e7\u00e3o, transportes e, principalmente, educa\u00e7\u00e3o. Acontece que, at\u00e9 agora, o governo federal pautou-se pela omiss\u00e3o ou o improviso nas pol\u00edticas sociais.<\/p>\n<p><strong>Lei de Murici<\/strong><br \/>\nUm retrospecto das declara\u00e7\u00f5es do presidente Jair Bolsonaro; do ministro da Economia, Paulo Guedes; e do ministro da Sa\u00fade, Eduardo Pazuello, mostra um governo err\u00e1tico na condu\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e focado apenas na preserva\u00e7\u00e3o e fortalecimento do seu poder em rela\u00e7\u00e3o ao Legislativo, ao Judici\u00e1rio e aos demais entes federados. O sucesso do Pal\u00e1cio do Planalto nas disputas pelo controle das Mesas da C\u00e2mara e do Senado fixar\u00e1 o foco na \u201cguerra de posi\u00e7\u00f5es\u201d para consolidar um governo bonapartista, que se pretende tutor da sociedade. O problema das desigualdades est\u00e1 fora de sua agenda. A crise sanit\u00e1ria mostra isso. Uma pol\u00edtica de transfer\u00eancia de renda com objetivo apenas eleitoral n\u00e3o ser\u00e1 sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de sa\u00fade p\u00fablica de Bolsonaro, por exemplo, \u00e9 inspirada na Lei de Murici: \u201cCada um sabe de si\u201d, a m\u00e1xima do coronel Pedro Tamarindo na debandada da terceira campanha de Canudos. O presidente da Rep\u00fablica sempre se colocou ao lado dos que n\u00e3o querem se vacinar, mesmo depois de os principais l\u00edderes mundiais darem o exemplo se vacinando. \u00c9 o principal respons\u00e1vel pelo desmantelo do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica epidemiol\u00f3gica. Agora, Bolsonaro resolveu defender a compra e a distribui\u00e7\u00e3o de vacinas por empresas privadas, entre elas, a Petrobras e a Vale, para imunizar seus funcion\u00e1rios, furando a fila do Programa Nacional de Imuniza\u00e7\u00e3o, para manter a atividade da economia. A doa\u00e7\u00e3o de metade das vacinas para o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) legitimaria o privil\u00e9gio. Teremos a vacina dos camarotes, para usar uma express\u00e3o do meu xar\u00e1 Luiz Carlos Rocha, advogado de Curitiba, enquanto a \u201cpipoca\u201d espera a vez nas filas do SUS, devido ao descaso e \u00e0s trapalhadas do general Pazuello na Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Acontece que a Lei de Murici pode ser a senha para um desastre anunciado, como na retirada de Canudos. Tudo come\u00e7ou quando o sanguin\u00e1rio coronel Moreira Cezar, no dia 3 de fevereiro de 1897, mudou subitamente de ideia e optou pelo ataque imediato, em vez do cerco a Canudos. O arraial foi duramente castigado pela artilharia. As for\u00e7as do Ex\u00e9rcito conseguiram invadir o arraial e conquistar algumas casas. Foram, contudo, obrigadas a recuar, devido \u00e0 pouca muni\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s cerca de cinco horas de combate, Moreira C\u00e9sar foi mortalmente ferido no ventre, quando se preparava para ir \u00e0 frente de batalha incentivar a tropa.<\/p>\n<p>O comando foi transferido ao coronel Pedro Tamarindo, que decidiu recuar, ap\u00f3s sete horas de combate. Moreira C\u00e9sar agonizou 12 horas, ordenando que Canudos fosse, uma vez mais, atacado. Em reuni\u00e3o de oficiais, por\u00e9m, fora decidida a retirada, dado o grande n\u00famero de feridos, numa marcha de 200 quil\u00f4metros at\u00e9 Queimada. Atacada incessantemente pelos jagun\u00e7os, a tropa debandou. Tamarindo foi morto no C\u00f3rrego dos Angicos. Seu corpo foi deixado no campo de batalha. Acabou empalado num galho de angico pelos jagun\u00e7os. A primeira favela do Rio de Janeiro foi formada pelos soldados desmobilizados ap\u00f3s a Guerra de Canudos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pol\u00edtica de sa\u00fade p\u00fablica de Bolsonaro, por exemplo, \u00e9 inspirada na Lei de Murici: \u201cCada um sabe de si\u201d, a m\u00e1xima do coronel Pedro Tamarindo na debandada da terceira campanha de Canudos Uma das caracter\u00edsticas da pandemia de coronav\u00edrus, que certamente ser\u00e1 objeto de muitos estudos e pesquisas, \u00e9 a desigualdade social escancarada que nos revela. 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