{"id":5559,"date":"2021-02-14T09:16:47","date_gmt":"2021-02-14T12:16:47","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5559"},"modified":"2021-02-14T14:02:05","modified_gmt":"2021-02-14T17:02:05","slug":"nas-entrelinhas-fogo-na-camisa-amarelax","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-fogo-na-camisa-amarelax\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Fogo na camisa amarela"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Como brincar carnaval diante de um cen\u00e1rio t\u00e3o macabro? \u00a0Ir \u00e0s ruas para uma festa cujo clima depende de aglomera\u00e7\u00e3o seria uma esp\u00e9cie de suic\u00eddio coletivo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O carnaval sempre foi um momento de invers\u00e3o de pap\u00e9is, de questionamento das normas, de fuga do padr\u00e3o da vida cotidiana e da liberta\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o. Neste ano, n\u00e3o. Ainda vamos levar algum tempo para ter a verdadeira dimens\u00e3o do que est\u00e1 ocorrendo, mas, talvez, o carnaval deste ano seja um momento de choque da dura realidade, que \u00e9 a crise sanit\u00e1ria pela qual o mundo est\u00e1 passando, agravada pela incompet\u00eancia e pelo negacionismo do governo. Oxal\u00e1, no pr\u00f3ximo carnaval, a maioria da popula\u00e7\u00e3o esteja imunizada contra a covid-19.<\/p>\n<p>No come\u00e7o da pandemia, imaginava-se que o carnaval de 2021 seria um dos maiores de todos os tempos, com a popula\u00e7\u00e3o indo \u00e0s ruas se divertir, superada a peste. Estar\u00edamos vivendo momentos felizes, de muita contesta\u00e7\u00e3o aos tabus da nudez e da sensualidade, de ironias e cr\u00edticas escrachadas aos governantes e, como n\u00e3o poderia deixar de ser, ao presidente Jair Bolsonaro. Feminismo, racismo, diversidade, exclus\u00e3o, os temas carater\u00edsticos do debate contempor\u00e2neo, numa sociedade pluralista e democr\u00e1tica, estariam sendo tratados com bom humor e muita sagacidade pelo povo nas ruas, cantando marchinhas e sambas.<\/p>\n<p>Por incr\u00edvel que possa parecer, o carnaval \u2014 essa festa t\u00e3o desvairada \u2014 tamb\u00e9m \u00e9 um momento de conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 quase imposs\u00edvel na vida de um brasileiro n\u00e3o ter visto um desfile de escola de samba, n\u00e3o ter sa\u00eddo num bloco ou participado de um baile de carnaval no qual n\u00e3o houvesse ruptura ou transforma\u00e7\u00e3o de costumes. \u00c9 uma festa muito amb\u00edgua, na qual a fuga da realidade funciona como um espelho da sociedade, quando a velha senhora que passa roupa para fora se veste de luxuosa baiana, a madame vira figurante numa ala de escola de samba, o jovem desempregado brilha na bateria, a socialite leva uma bronca do bombeiro hidr\u00e1ulico por atrasar o desfile e o gal\u00e3 da novela arrisca um desengon\u00e7ado samba no p\u00e9, sendo ele mesmo, e n\u00e3o o seu personagem.<\/p>\n<p>O carnaval substituiu o entrudo, que era uma festa embrutecida, na qual o povo tomava as ruas para jogar farinha, baldes d\u2019\u00e1gua, lim\u00f5es de cheiro e at\u00e9 lama e areia uns nos outros. Ou seja, um avan\u00e7o civilizat\u00f3rio. Roberto DaMatta, o antrop\u00f3logo estudioso dos foli\u00f5es e dos malandros, sempre destacou que o carnaval n\u00e3o \u00e9 apenas um momento de aliena\u00e7\u00e3o da realidade, \u00e9 um espa\u00e7o de transforma\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es da sociedade. O Rio de Janeiro, quanta ironia, teve um prefeito que n\u00e3o gosta de carnaval e n\u00e3o conseguiu se reeleger. Temos um presidente da Rep\u00fablica que tamb\u00e9m n\u00e3o gosta e que, talvez, se regozije pelo fato de o povo n\u00e3o ter tomado as ruas para fazer tro\u00e7a das autoridades e de si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p><strong>Foli\u00e3o de ra\u00e7a<\/strong><br \/>\nUm dos maiores carnavais de todos os tempos, segundo os historiadores, foi o de 1919, no Rio de Janeiro, ano de estreia do Cord\u00e3o do Bola Preta, que havia sido fundado em dezembro do ano anterior e, hoje, \u00e9 o maior bloco do pa\u00eds, arrastando milh\u00f5es pelo centro do Rio de Janeiro no s\u00e1bado de carnaval, o que deveria ter acontecido ontem. Aquele foi um carnaval no qual a popula\u00e7\u00e3o comemorou o fim da gripe espanhola, a epidemia que matou 15 mil pessoas somente no Rio de Janeiro. Neste carnaval, a m\u00e9dia de \u00f3bitos do estado est\u00e1 em 158 mortes por dia, sendo 234 \u00f3bitos e 5,5 mil casos de contamina\u00e7\u00e3o nas \u00faltimas 24 horas. J\u00e1 s\u00e3o 551 mil casos no estado.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio de cariocas e fluminenses. No Distrito Federal, a covid-19 matou 4.198 pessoas, de um total de 247 mil infectados; oito vezes mais do que acidentes e homic\u00eddios. Em Minas, foram 16,5 mil mortes, de um total de 798 mil infectados. Em S\u00e3o Paulo, 55 mil mortes, com 1,9 milh\u00e3o de infectados. Na Bahia, 10,6 mil mortos para 623 mil infectados. Em Pernambuco, 10,6 mil mortos para 277 mil infectados; no Amazonas, s\u00e3o 9,7 mil mortos para 292 mil infectados. Estamos vivendo a rebordosa das campanhas eleitorais e das festas de fim de ano.<\/p>\n<p>Como brincar carnaval diante de um cen\u00e1rio t\u00e3o macabro? Agora, com a segunda onda da pandemia, ir \u00e0s ruas para uma festa cujo clima depende de aglomera\u00e7\u00e3o e contato f\u00edsico seria uma esp\u00e9cie de suic\u00eddio coletivo. Por isso, mesmo que a festa seja em casa e nas redes sociais, neste ano, o carnaval n\u00e3o valeu. Melhor ficar em casa, cantar A Jardineira e p\u00f4r fogo na camisa amarela, como aquele foli\u00e3o de ra\u00e7a de Ary e Elizeth, na quarta-feira de cinzas.<\/p>\n<p><strong>PS<\/strong>: <em>at\u00e9 quinta-feira!<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como brincar carnaval diante de um cen\u00e1rio t\u00e3o macabro? \u00a0Ir \u00e0s ruas para uma festa cujo clima depende de aglomera\u00e7\u00e3o seria uma esp\u00e9cie de suic\u00eddio coletivo O carnaval sempre foi um momento de invers\u00e3o de pap\u00e9is, de questionamento das normas, de fuga do padr\u00e3o da vida cotidiana e da liberta\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o. Neste ano, n\u00e3o. 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