{"id":565,"date":"2016-05-25T07:31:56","date_gmt":"2016-05-25T10:31:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=565"},"modified":"2016-05-25T07:31:56","modified_gmt":"2016-05-25T10:31:56","slug":"nas-entrelinhas-todos-os-gatos-sao-pardos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-todos-os-gatos-sao-pardos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:  Todos os gatos s\u00e3o pardos"},"content":{"rendered":"<p><em>O impeachment de Dilma Rousseff est\u00e1 apenas no meio do caminho. Uma conta de subtrair mostra que com dois votos a presidente poderia voltar ao Pal\u00e1cio do Planalto<\/em><\/p>\n<p>O romance \u201cIl Gattopardo\u201d, do siciliano Giuseppe Tomasi di Lampedusa, retrata a decad\u00eancia da aristocracia siciliana durante o Risorgimento, o movimento de unifica\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia, personificada na fam\u00edlia de Don Fabrizio Corbera, Pr\u00edncipe de Salina. Um dos trechos c\u00e9lebres do livro \u00e9 o discurso do sobrinho de Don Fabrizio, Tancredi, pr\u00edncipe de Falconeri, incitando seu tio c\u00e9tico e conservador a abandonar sua lealdade aos Bourbons do Reino das Duas Sic\u00edlias e aliar-se aos Saboia, para evitar que os revolucion\u00e1rios liderados por Giuseppi Mazzini e Giuseppi Garibaldi tomassem o poder: \u201cA n\u00e3o ser que nos salvemos, dando-nos as m\u00e3os agora, eles nos submeter\u00e3o \u00e0 Rep\u00fablica. Para que as coisas permane\u00e7am iguais, \u00e9 preciso que tudo mude.\u201d<\/p>\n<p>O t\u00edtulo \u201cIl Gattopardo\u201d (O Leopardo) refere-se ao bras\u00e3o da fam\u00edlia. Faz alus\u00e3o ao felino, que foi ca\u00e7ado at\u00e9 a esp\u00e9cie ser extinta, em meados do s\u00e9culo XIX. Nessa \u00e9poca, Don Fabrizio testemunhava o decl\u00ednio e a indol\u00eancia da aristocracia siciliana. Lan\u00e7ado em 1956, o livro de Lampedusa retrata uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica recorrente, universal, popularizada no cinema pelo filme de Luchino Visconti, com o mesmo nome.<\/p>\n<p>O discurso de Trancredi tem tudo a ver com a atual situa\u00e7\u00e3o do Brasil. O presidente interino, Michel Temer, anunciou ontem as primeiras medidas de ajuste fiscal para enfrentar a crise econ\u00f4mica. Disse, com todas as letras, que o futuro do pa\u00eds, o sucesso de seu governo e (n\u00e3o disse, mas deu a entender) o destino da maioria dos pol\u00edticos depende das decis\u00f5es do Congresso. Apresentou-se como uma esp\u00e9cie de chefe de governo de um regime semi-parlamentarista, cuja capacidade de responder \u00e0s demandas da sociedade est\u00e1 \u00e0 prova.<\/p>\n<p>No momento em que Temer fazia seu pronunciamento, delegados e procuradores federais da Lava-Jato, em Curitiba, anunciavam os objetivos da 30\u00aa fase da opera\u00e7\u00e3o, denominada V\u00edcio, um dia depois de 29\u00aa fase, intitulada Repescagem. Na primeira, o alvo principal foi o ex-tesoureiro do PP, Jo\u00e3o Cl\u00e1udio Genu que foi preso; na segunda, mais uma vez, o ex-ministro e ex-deputado petista Jos\u00e9 Dirceu, que j\u00e1 estava preso e acaba de ser condenado a mais 21 anos de pris\u00e3o. No Senado, simultaneamente, dois investigados na Lava Jato protagonizavam o debate sobre as medidas econ\u00f4micas: o senador Romero Juc\u00e1 (PMDB-RR), cuja exonera\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Planejamento foi publicada ontem, e a senadora Gleisi Hoffman (PT-PR), ex-ministra da Casa Civil de Dilma Rousseff. O primeiro se empenha para aprovar a nova meta fiscal, um deficit de R$ 175,5 bilh\u00f5es; a segunda tenta obstruir a pauta e paralisar o governo Temer.<\/p>\n<p>O impeachment de Dilma Rousseff est\u00e1 apenas no meio do caminho. Uma conta de subtrair mostra que com dois votos a presidente poderia voltar ao Pal\u00e1cio do Planalto, desfazendo a maioria que aprovou seu afastamento, por 55 a 22 votos. No Senado, coisas estranhas acontecem quando os senadores co\u00e7am a gravata. \u00c9 a senha para votar contra, sair do plen\u00e1rio, se abster. Na reuni\u00e3o da Comiss\u00e3o de Or\u00e7amento, pela manh\u00e3, Gleisi derrubou a sess\u00e3o por falta de quorum. O l\u00edder do PMDB, Eun\u00edcio de Oliveira (CE), n\u00e3o estava presente. Senadores do PSDB resmungam pelos corredores que querem ver a bancada do PMDB enfrentar o PT na comiss\u00e3o especial do impeachment. N\u00e3o digeriram a escolha de Jos\u00e9 Serra (PSDB-SP) para o Itamaraty, sem que um deles ocupasse outra pasta na Esplanada.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 remota a possibilidade de Dilma voltar ao Pal\u00e1cio do Planalto, apesar do alarido dos petistas e das idiossincrasias tucanas. Lampedusa explica: os Tancredis tra\u00edram os Bourbons e se aliaram aos Saboia. Os partidos de oposi\u00e7\u00e3o foram abduzidos pelos eternos governistas, que tomaram conta do governo Temer para tudo mudar e continuar igual. O vice Michel Temer sabe do que se trata. \u00c9 um pol\u00edtico experiente, que por tr\u00eas vezes comandou a C\u00e2mara e conseguiu manter o controle do PMDB numa disputa na qual o ex-presidente Sarney e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), estavam aliados ao ex-presidente Lula. Por duas vezes foi eleito vice na chapa de Dilma, para arrependimento dos petistas.<\/p>\n<p>Os gatos que intitulam a coluna est\u00e3o em cena. Na penumbra do Congresso, desculpem-me o trocadilho infame, todos os parlamentares da base s\u00e3o gatos pardos, n\u00e3o importa se t\u00eam um passado imaculado ou est\u00e3o sujos de arara pela Lava-Jato. Para Michel Temer, o mais importante s\u00e3o os votos a favor do seu governo e do impeachment de Dilma. Antes que o povo volte pra rua e engrosse os camale\u00f4nicos protestos petistas, que agem como se nada tivessem com tudo isso, embora seja o resultado de 13 anos de mando petista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O impeachment de Dilma Rousseff est\u00e1 apenas no meio do caminho. 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