{"id":5682,"date":"2021-03-28T06:58:20","date_gmt":"2021-03-28T09:58:20","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5682"},"modified":"2021-03-28T07:00:37","modified_gmt":"2021-03-28T10:00:37","slug":"nas-entrelinhas-o-enigma-pos-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-enigma-pos-pandemia\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O enigma p\u00f3s-pandemia"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>No s\u00e9culo passado, o encontro da Hist\u00f3ria com as utopias gerou uma esp\u00e9cie de beco sem sa\u00edda: o que antes era um projeto de futuro se tornou anacr\u00f4nico<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O futuro imediato est\u00e1 sendo desenhado pela forma como cada pa\u00eds lida com a crise sanit\u00e1ria global, mas ainda \u00e9 um enigma. Toda a tecnologia utilizada para manter a atividade econ\u00f4mica maior poss\u00edvel num ambiente de distanciamento social j\u00e1 existia; todo o conhecimento cient\u00edfico empregado para a produ\u00e7\u00e3o de vacinas numa velocidade in\u00e9dita, tamb\u00e9m. Apesar da trag\u00e9dia que se abateu sobre a humanidade, especialmente aqui no Brasil \u2014 que se destaca pelo n\u00famero de infectados, de mortos e de negacionistas, entre os quais o presidente Jair Bolsonaro \u2014, \u00e9 preciso pensar no p\u00f3s-pandemia. O novo coronav\u00edrus escancarou ainda mais as contradi\u00e7\u00f5es da globaliza\u00e7\u00e3o, principalmente o agravamento das desigualdades, e colocou em xeque a ideia neoliberal de que o mercado sozinho \u00e9 mais eficiente do que o Estado para cuidar das pessoas.<\/p>\n<p>Provavelmente, se indagarmos a um jovem brasileiro se tem esperan\u00e7a de um futuro melhor, o risco \u00e9 termos dele um categ\u00f3rico n\u00e3o. \u00c9 uma vis\u00e3o completamente diferente do otimismo de seus pais e av\u00f3s quando tinham a mesma idade, embora a maioria talvez tenha condi\u00e7\u00f5es de vida at\u00e9 melhores, inclusive nas favelas e periferias. H\u00e1, por\u00e9m, menos perspectivas. Frustrou-se o exagero patri\u00f3tico do Conde Afonso Celso em Porque me ufano do meu pa\u00eds: \u201cH\u00e1 em ser brasileiro o gozo de um benef\u00edcio, uma vantagem, uma superioridade\u201d. Tamb\u00e9m o progressismo de um Stepan Zweig, ao escrever Brasil, o pa\u00eds do futuro. Recordo-me do relato sarc\u00e1stico de um amigo sobre a emo\u00e7\u00e3o de seu pai no dia da reunifica\u00e7\u00e3o da Alemanha:<\/p>\n<p>\u2014 Chorando de alegria, pai?<br \/>\n\u2014 N\u00e3o, de tristeza por voc\u00eas terem nascido aqui.<\/p>\n<p>Desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (1789- 1799), o Ocidente apostou no amanh\u00e3\u00a0melhor do que hoje. O Brasil de Juscelino Kubitschek e da Bossa Nova parecia ser a encarna\u00e7\u00e3o dessa utopia. Com sinal trocado, o \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d do regime militar tamb\u00e9m. Hoje, quantos jovens brasileiros de todas as classes sociais sonham com a possibilidade de migrar para outro pa\u00eds? Quantos desejam a dupla nacionalidade como principal heran\u00e7a de seus pais? E aqueles que n\u00e3o t\u00eam essa possibilidade e perdem completamente a perspectiva, diante do apag\u00e3o de oportunidades? Disso decorre uma l\u00f3gica exacerbada durante a pandemia: \u00e9 preciso viver agora. Todo prazer adiado ser\u00e1 perdido. Mesmo que, nas baladas, o v\u00edrus seja como uma bala solit\u00e1ria da roleta russa.<\/p>\n<p><strong>Distopia<\/strong><br \/>\nO \u201camanh\u00e3 ser\u00e1 melhor\u201d era a base comum para todas as utopias, do liberalismo \u00e0 social-democracia, do comunismo ao fascismo. Seus valores comuns eram: produtividade, crescimento, trabalho e urbaniza\u00e7\u00e3o. Em torno deles, os interesses nacionais e de classe teciam a identidade dos indiv\u00edduos. Nossa sociedade \u00e9 fruto disso a\u00ed. O que dava sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa identidade se desagrega: as na\u00e7\u00f5es, as classes sociais, a fam\u00edlia; as rela\u00e7\u00f5es entre gera\u00e7\u00f5es e entre os sexos. A vida privada \u2014 fam\u00edlia, casa, carro, gastronomia, viagens \u2014 \u00e9 a \u00faltima trincheira da felicidade. A liberdade tornou-se um fim em si; o trabalho, apenas um desagrad\u00e1vel meio de financiamento. E aqueles que n\u00e3o t\u00eam nada disso? S\u00e3o \u201cinvis\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p>O encontro da Hist\u00f3ria com as utopias gerou uma esp\u00e9cie de beco sem sa\u00edda. Bandeiras da velha esquerda foram capturadas pelo reacionarismo: o intervencionismo, o estatismo, as grandes obras, o nacionalismo. O que antes era um projeto de futuro se tornou anacr\u00f4nico, foi ultrapassado pelas novas for\u00e7as produtivas. Diferentemente das anteriores, por\u00e9m, a crise civilizat\u00f3ria n\u00e3o anuncia nenhuma supera\u00e7\u00e3o do capitalismo nem uma revolu\u00e7\u00e3o redentora. Somente mais e mais tecnologia. Esse \u00e9 o caldo de cultura para tanto negacionismo e a atual distopia. Definir um novo projeto de civiliza\u00e7\u00e3o, mais pluralista e justo, e reconstituir o nosso projeto de na\u00e7\u00e3o em bases democr\u00e1ticas n\u00e3o ser\u00e3o uma tarefa f\u00e1cil, embora as condi\u00e7\u00f5es materiais para isso existam, em termos de conhecimento e criatividade humana. Assim como um paciente da covid- 19 necessita de oxig\u00eanio, nossos jovens precisam de uma nova utopia para prosseguir em busca da felicidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No s\u00e9culo passado, o encontro da Hist\u00f3ria com as utopias gerou uma esp\u00e9cie de beco sem sa\u00edda: o que antes era um projeto de futuro se tornou anacr\u00f4nico O futuro imediato est\u00e1 sendo desenhado pela forma como cada pa\u00eds lida com a crise sanit\u00e1ria global, mas ainda \u00e9 um enigma. 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