{"id":5706,"date":"2021-04-06T09:22:53","date_gmt":"2021-04-06T12:22:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5706"},"modified":"2021-04-06T09:22:53","modified_gmt":"2021-04-06T12:22:53","slug":"nas-entrelinhas-bolsonaro-e-o-mito-de-sisifo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-bolsonaro-e-o-mito-de-sisifo\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Bolsonaro e o mito de S\u00edsifo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Como disse Camus, \u201csempre houve homens para defender os direitos do irracional\u201d. O problema \u00e9 quando se trata do presidente da Rep\u00fablica<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O consagrado escritor franc\u00eas Albert Camus foi um existencialista, para quem o homem vive em busca de sua ess\u00eancia, do seu sentido, e encontra um mundo desconexo, inintelig\u00edvel, guiado por religi\u00f5es e ideologias pol\u00edticas. Num de seus ensaios filos\u00f3ficos, Camus classifica S\u00edsifo, um dos grandes personagens da mitologia grega, como um her\u00f3i absurdo. \u201cTanto por causa de suas paix\u00f5es como por seu tormento. Seu desprezo pelos deuses, seu \u00f3dio \u00e0 morte e sua paix\u00e3o pela vida lhe valeram esse supl\u00edcio indiz\u00edvel no qual todo seu ser se empenha em n\u00e3o terminar coisa alguma. \u00c9 o pre\u00e7o que se paga pelas paix\u00f5es desta terra\u201d, resumiu.<\/p>\n<p>Os deuses condenaram S\u00edsifo a rolar incessantemente uma rocha at\u00e9 o cume de uma montanha, de onde a pedra se precipitava por seu pr\u00f3prio peso. \u201cImaginaram que n\u00e3o haveria puni\u00e7\u00e3o mais terr\u00edvel que o trabalho in\u00fatil e sem esperan\u00e7a\u201d, afirma Camus, que publicou O Mito de S\u00edsifo em 1942. Nessa obra, destaca o mundo imerso em irracionalida- des. \u201cOu n\u00e3o somos livres, e o respons\u00e1- vel pelo mal \u00e9 Deus todo-poderoso, ou somos livres e respons\u00e1veis, mas Deus n\u00e3o \u00e9 todo-poderoso\u201d, questionava.<\/p>\n<p>\u00c0quela \u00e9poca, em plena Segunda Guerra Mundial, o mundo parecia mesmo absurdo: a guerra, a ocupa\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a, o triunfo aparente da viol\u00eancia e da injusti\u00e7a, tudo se opunha ao humanismo e \u00e0 ideia de civiliza\u00e7\u00e3o. O trabalho de S\u00edsifo, ao empurrar incessantemente uma pedra at\u00e9 o alto da montanha, at\u00e9 ela tornar a cair, \u00e9 uma analogia perfeita com o esfor\u00e7o empreendido por profissionais da sa\u00fade, prefeitos e governadores para combater a pandemia do novo coronav\u00edrus: a covid-19. Entretanto, esse n\u00e3o \u00e9 um trabalho in\u00fatil e sem esperan\u00e7a, como no caso do mito grego. \u00c9 uma batalha que acabar\u00e1 sendo ganha, apesar de tudo.<\/p>\n<p>Como disse Camus, por\u00e9m, \u201csempre houve homens para defender os direitos do irracional\u201d. O problema \u00e9 quando se trata de um governante, como o presidente Jair Bolsonaro, que combate as medidas de isolamento social e mobiliza seus aliados para sabotar os esfor\u00e7os dram\u00e1ticos que est\u00e3o sendo realizados para evitar que a pandemia mantenha sua escalada, que pode chegar a mais de 500 mil mortos em julho, segundo estimativas dos principais centros de estudos epidemiol\u00f3gicos do mundo.<\/p>\n<p><strong>Liminares<\/strong><br \/>\nA pol\u00eamica do momento \u00e9 a liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Marques, o mais novo da Corte, indicado por Bolsonaro, que autoriza o funcionamento de templos religiosos durante a pandemia, mesmo contrariando as medidas de restri\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o de pessoas e aglomera\u00e7\u00f5es adotadas por prefeitos e governadores de cidades e estados nos quais a pandemia saiu do controle. Apesar de o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) estar entrando em colapso, por falta de leitos, respiradores e insumos para atender tantos infectados graves, o ministro acolheu pedido da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Juristas Evang\u00e9licos, apresentada em junho do ano passado, para libertar os cultos.<\/p>\n<p>Houve rea\u00e7\u00e3o entre seus colegas do Supremo. Al\u00e9m das cr\u00edticas p\u00fablicas do decano Marco Aur\u00e9lio Mello, ontem, o ministro do STF Gilmar Mendes, ao negar\u00a0uma a\u00e7\u00e3o do PSD, manteve o decreto do governador de S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o Doria (PSDB), que restringiu as atividades religiosas de igrejas no estado. Contrariou a decis\u00e3o de Kassio Marques, que havia liberado celebra\u00e7\u00f5es presenciais em todo o pa\u00eds. \u00c0 tarde, o procurador-geral da Rep\u00fablica, Augusto Aras, aliado de Bolsonaro e cotado para a vaga do ministro Marco Aur\u00e9lio Mello, que est\u00e1 prestes a se aposentar, protocolou no Supremo um pedido para retirar de Gilmar Mendes e transferir para Kassio Marques a a\u00e7\u00e3o do PSD contra a proibi\u00e7\u00e3o de cultos e missas coletivas em S\u00e3o Paulo, porque \u00e9 relator de uma a\u00e7\u00e3o mais antiga: a do PSD \u00e9 de mar\u00e7o deste ano.<\/p>\n<p>O presidente do STF, ministro Luiz Fux, decidiu p\u00f4r o assunto em vota\u00e7\u00e3o amanh\u00e3, na reuni\u00e3o plen\u00e1ria da Corte. A decis\u00e3o de Kassio Marques, a pretexto de garantir a liberdade religiosa, est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com a jurisprud\u00eancia do Supremo, que atribuiu aos estados e munic\u00edpios autoridade para fixar medidas restritivas de enfrentamento da pandemia, inclusi- ve, o fechamento de templos e igrejas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como disse Camus, \u201csempre houve homens para defender os direitos do irracional\u201d. O problema \u00e9 quando se trata do presidente da Rep\u00fablica O consagrado escritor franc\u00eas Albert Camus foi um existencialista, para quem o homem vive em busca de sua ess\u00eancia, do seu sentido, e encontra um mundo desconexo, inintelig\u00edvel, guiado por religi\u00f5es e ideologias pol\u00edticas. 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