{"id":5717,"date":"2021-04-12T17:23:22","date_gmt":"2021-04-12T20:23:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5717"},"modified":"2021-04-12T17:25:43","modified_gmt":"2021-04-12T20:25:43","slug":"nas-entrelinhas-demolicoes-bolsonaristas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-demolicoes-bolsonaristas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Demoli\u00e7\u00f5es bolsonaristas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Bolsonaro sofre muitas influ\u00eancias da vertente autorit\u00e1ria do positivismo, entre as quais da tese de que o presidente deve ter a autoridade de um ditador<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Le Marais, em Paris, bairro que abrigou a antiga nobreza francesa, \u00e9 um reduto das comunidades gay e judaica. Uma de suas atra\u00e7\u00f5es \u00e9 a Chapelle de l\u2019Humanit\u00e9, constru\u00edda em 1903, por iniciativa do Apostolado Positivista do Brasil. Fica na rue Payenne, n\u00ba 5, local onde morou Clotilde de Vaux, a escritora que inspirou Auguste de Comte, um dos pais da sociologia e criador do positivismo. Decorado pelos brasileiros D\u00e9cioVillares e Eduardo de S\u00e1 e tombado pelo Patrim\u00f4nio franc\u00eas, \u00e9 o \u00fanico templo positivista remanescente na Europa.<\/p>\n<p>A capela \u00e9 quase uma r\u00e9plica do Templo da Humanidade da Igreja Positivista do Brasil, na rua Benjamin Constant, n\u00ba 74, na Gl\u00f3ria, no Rio de Janeiro, cujo teto cheio de infiltra\u00e7\u00f5es desabou durante um temporal, em 2009. O positivismo chegou ao Brasil por interm\u00e9dio de Miguel Lemos e Raimundo Teixeira Mendes. Em 1877, expulsos da Escola Polit\u00e9cnica de S\u00e3o Paulo, viajaram para Paris, onde frequentaram c\u00edrculos positivistas.<\/p>\n<p>A Igreja Positivista brasileira foi fundada no dia 11 de maio de 1881 e seu lema inspirou as inscri\u00e7\u00f5es da bandeira nacional: \u201cO Amor por princ\u00edpio e a Ordem por base; o Progresso por fim\u201d. Seus membros eram figuras ativas na vida pol\u00edtica nacional, o que fez com que o positivismo fosse a ideologia dominante do movimento republicano. Benjamin Constant, engenheiro militar e professor da Escola Militar da Praia Vermelha, influenciou fortemente os militares que proclamaram a Rep\u00fablica, da qual foi ministro da Guerra.<\/p>\n<p>Entretanto, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1881 adotou as teses dos federalistas americanos John Jay, Alexander Hamilton e James Madison: federa\u00e7\u00e3o, presidencialismo, separa\u00e7\u00e3o dos Poderes, elei\u00e7\u00e3o direta, o bicameralismo, direitos e garantias individuais, como o habeas corpus. No dia seguinte ao da sua promulga\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, em vez do republicano paulista Prudente de Moraes (PRP), foi eleito presidente o marechal alagoano Deodoro da Fonseca. J\u00falio de Castilhos, l\u00edder positivista ga\u00facho, apoiou a elei\u00e7\u00e3o de Deodoro, mas quatro deputados de seu partido, o PRR, votaram em Prudente de Morais: Assis Brasil, Manuel da Rocha Os\u00f3rio, Alcides Lima e Vitorino Monteiro.<\/p>\n<p><strong>Teologia e Metaf\u00edsica<\/strong><\/p>\n<p>No Rio Grande do Sul, uma comiss\u00e3o formada por Assis Brasil, J\u00falio de Castilhos e Ramiro Barcellos elaborava o projeto da Constitui\u00e7\u00e3o estadual. Castilhos imp\u00f4s sua lideran\u00e7a. Aprovou um texto no qual a autoridade legal do presidente do estado equivalia \u00e0 de um ditador, sendo eleito para o cargo em 14 de julho de 1891. O vice-presidente Floriano Peixoto, tamb\u00e9m alagoano, em 21 de novembro daquele ano, assumiria a Presid\u00eancia e passaria a governar em permanente \u201cestado de s\u00edtio\u201d, como se fosse um ditador. Nasciam o castilhismo e o florianismo, que se fundiriam ao tenentismo na Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e, mais tarde, dariam origem ao Estado Novo, sob a lideran\u00e7a de Getulio Vargas. Em nenhum outro lugar do mundo, nem mesmo na Fran\u00e7a, as ideias positivistas foram t\u00e3o longevas como no Brasil.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, o positivismo \u00e9 a marca registrada da pol\u00edtica brasileira e nossas institui\u00e7\u00f5es. Repousa sobre tr\u00eas pilares: a defesa da fam\u00edlia, o estado e a ci\u00eancia. Entretanto, como quase todas as ideais que circulam por aqui, sempre foi heterodoxo. Por exemplo, influenciou Maur\u00edcio de Lacerda e Oliveira Viana. Ambos apoiaram a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, mas tomaram caminhos opostos. O primeiro tornou-se l\u00edder da Alian\u00e7a Nacional Libertadora (ANL) e, depois, fundaria a Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional (UDN). O segundo seria um advers\u00e1rio feroz do liberalismo e grande ide\u00f3logo do Estado Novo, em 1937, e fez a cabe\u00e7a dos generais que deram o golpe militar de 1964.<\/p>\n<p>Bolsonaro sofre muitas influ\u00eancias dessa vertente autorit\u00e1ria do positivismo, entre as quais da tese de que o presidente deve ter a autoridade de um ditador. Essa \u00e9 a origem dos conflitos institucionais que vivemos. Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a: Bolsonaro n\u00e3o acredita nas ci\u00eancias, gravita entre os estados \u201cteol\u00f3gico\u201d e \u201cmetaf\u00edsico\u201d. O positivismo \u00e9 a f\u00e9 que aposta nas grandes ci\u00eancias, principalmente a Biologia e a Sociologia, as quais o presidente ignora. E tem mais: as crises que provoca desorganizam a institucionalidade constru\u00edda pela elite pol\u00edtica conservadora do pa\u00eds, n\u00e3o pela esquerda quando esteve no poder.<\/p>\n<p><strong>Obs<\/strong>: <em>O mapa que ilustra a coluna \u00e9 de Let\u00edcia Soares, Sociologia-UEMG<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bolsonaro sofre muitas influ\u00eancias da vertente autorit\u00e1ria do positivismo, entre as quais da tese de que o presidente deve ter a autoridade de um ditador Le Marais, em Paris, bairro que abrigou a antiga nobreza francesa, \u00e9 um reduto das comunidades gay e judaica. 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