{"id":5865,"date":"2021-06-30T07:02:48","date_gmt":"2021-06-30T10:02:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=5865"},"modified":"2021-06-30T07:02:48","modified_gmt":"2021-06-30T10:02:48","slug":"nas-entrelinhas-indios-sao-teimosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-indios-sao-teimosos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: \u00cdndios s\u00e3o teimosos"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A maioria dos brasileiros sente empatia pelos \u00edndios, porque herdou o DNA e a cultura. Ao contr\u00e1rio, o presidente Jair Bolsonaro \u00e9 inimigo dos direitos dos \u00edndios<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Uma das coisas que mais queimam o filme do Brasil no exterior s\u00e3o protestos de \u00edndios na Esplanada, ainda mais quando h\u00e1 enfrentamento com for\u00e7as policiais. As cenas ganham destaque nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e formam uma imagem muito negativa do pa\u00eds no exterior. Sintetizam tudo o que a opini\u00e3o p\u00fablica mundial condena em termos de viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos. As consequ\u00eancias s\u00e3o mais graves do que imaginam aqueles que continuam tratando os \u00edndios como seres humanos de segunda classe. Derrubar e queimar as florestas s\u00e3o um grave problema ambiental e diplom\u00e1tico; maltratar os \u00edndios mais ainda.<\/p>\n<p>A maioria dos brasileiros sente empatia pelos \u00edndios, porque herdou o DNA e a cultura, mesmo sem saber direito seus v\u00ednculos de ancestralidade. Ao contr\u00e1rio, o presidente Jair Bolsonaro \u00e9 inimigo dos direitos dos \u00edndios, apoia madeireiros, garimpeiros, pecuaristas e grileiros que invadem suas terras e derrubam a floresta, criminosamente. Pelo visto, o presidente da C\u00e2mara, Arthur Lira (PP-AL), tamb\u00e9m n\u00e3o gosta dos \u00edndios, embora deva ter uma ancestral \u201cpreada\u201d no mato, como era comum em Alagoas muito antigamente. Ontem, sob seu comando, o Centr\u00e3o \u201cpassou a boiada\u201d sobre os direitos dos \u00edndios na Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a cria um \u201cmarco temporal\u201d para as terras consideradas \u201ctradicionalmente ocupadas por ind\u00edgenas\u201d, exigindo a presen\u00e7a f\u00edsica dos \u00edndios em 5 de outubro de 1988; permite contrato de coopera\u00e7\u00e3o entre \u00edndios e n\u00e3o \u00edndios para atividades econ\u00f4micas (garimpo e derrubada de \u00e1rvores); possibilita contato com povos isolados amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o \u201cpara intermediar a\u00e7\u00e3o estatal de utilidade p\u00fablica\u201d (grandes projetos de minera\u00e7\u00e3o e hidrel\u00e9tricas). Agora, o projeto de lei segue para aprecia\u00e7\u00e3o no plen\u00e1rio da C\u00e2mara. Se aprovado, o texto vai ao Senado. A mudan\u00e7a permite \u00e0 Uni\u00e3o retomar \u00e1reas reservadas em caso de altera\u00e7\u00f5es de tra\u00e7os da comunidade (miscigena\u00e7\u00e3o). \u00danica representante ind\u00edgena no Congresso Nacional, a deputada Joenia Wapichana (Rede- RR) lamentou: \u201cO projeto \u00e9 totalmente eivado de v\u00edcios constitucionais. Al\u00e9m do mais, o que estamos discutindo hoje \u00e9 um retrocesso tremendo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Os Kariris<\/strong><\/p>\n<p>Em Alagoas, ou seja, na terra de Lira, h\u00e1 13 comunidades ind\u00edgenas, a maioria reconhecida ap\u00f3s 1999 e remanescente dos Kariris, grandes protagonistas da confedera\u00e7\u00e3o formada entre 1683 e 1713, para resistir aos colonizadores portugueses (Guerra dos B\u00e1rbaros). Os Kariris viviam entre os rios S\u00e3o Francisco, na Bahia, e o Parna\u00edba, no Piau\u00ed, com h\u00e1bitos similares aos do homem do neol\u00edtico, ou seja, da Idade da Pedra, quando as tribos se sedentarizaram e come\u00e7aram a desenvolver a agricultura e o pastoreio.<\/p>\n<p>O objetivo da Confedera\u00e7\u00e3o dos Kariris era a expuls\u00e3o dos portugueses que haviam se apossado de suas terras, escravizando os nativos. Em 1688, depois de dois anos de conflito, o Frei Manoel da Ressurrei\u00e7\u00e3o, Primaz e governador-geral interino do Brasil, chamou os bandeirantes para guerrear com os ind\u00edgenas, mas a situa\u00e7\u00e3o se agravou. Em 1713, o coronel Jo\u00e3o de Barros Braga promoveu uma expedi\u00e7\u00e3o de cavalaria, subindo os rios Jaguaribe e Salgado at\u00e9 o Cariri, no sert\u00e3o do Cear\u00e1, matando todos os \u00edndios que encontrou pelo caminho, sem distin\u00e7\u00e3o de sexo ou idade.<\/p>\n<p>Os Kariri-Xoc\u00f3, por\u00e9m, at\u00e9 hoje, vivem na zona rural do munic\u00edpio alagoano de Porto Real do Col\u00e9gio. S\u00e3o 1.400 indiv\u00edduos, que falam kariri e portugu\u00eas. A aldeia teve origem em 1578, com a chegada dos jesu\u00edtas, que reuniram v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas (Kariri, Carapat\u00f3s e Aconans) num aldeamento denominado \u201curubu-mirim\u201d. Os jesu\u00edtas acabaram expulsos pelo Frei Manoel da Ressurrei\u00e7\u00e3o, a mando do Marques de Pombal.<\/p>\n<p>Ser \u00edndio em Porto Real do Col\u00e9gio significa ser filho da aldeia e conhecer o segredo do Ouricuri, desde a primeira inf\u00e2ncia, al\u00e9m de outros ritos e costumes. Seu cotidiano laboral \u00e9 muito semelhante ao das popula\u00e7\u00f5es rurais de baixa renda, ou seja, s\u00e3o trabalhadores rurais. Em Alagoas, vivem em situa\u00e7\u00e3o semelhante os Tingui-Bot\u00f3 (Feira Grande), os Xucuru-Kariri (Palmeira dos \u00cdndios),os Wassu Cocal (JoaquimGomes),os Karapot\u00f3 (S\u00e3o Sebasti\u00e3o), os Kalanc\u00f3 (\u00c1guia Branca), os Dzubucu\u00e1 (Porto Real do Col\u00e9gio), os Geripank\u00f3, os Karuazu e os Katokinn (Pariconha). Teriam todos os motivos para deixarem de ser \u00edndios, mas n\u00e3o querem perder o que lhes resta de identidade \u00e9tnica. H\u00e1 521 anos s\u00e3o muito teimosos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maioria dos brasileiros sente empatia pelos \u00edndios, porque herdou o DNA e a cultura. 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