{"id":6022,"date":"2021-08-19T06:09:47","date_gmt":"2021-08-19T09:09:47","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6022"},"modified":"2021-08-19T08:53:33","modified_gmt":"2021-08-19T11:53:33","slug":"nas-entrelinhas-o-naufragio-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-naufragio-de-bolsonaro\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O naufr\u00e1gio de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Reacion\u00e1rios s\u00e3o obcecados pelo medo das mudan\u00e7as e se comportam de maneira nost\u00e1lgica, sonhando com um passado idealizado, que n\u00e3o \u00e9 o que a Hist\u00f3ria registra<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O analista pol\u00edtico e ensa\u00edsta Mark Lilla, professor de Hist\u00f3ria das Ideias na Universidade de Columbia, em Nova York, ganhou muita notoriedade ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, ao publicar um artigo no The New York Times no qual pedia que a esquerda norte-americana abandonasse a \u201cera do liberalismo identit\u00e1rio\u201d e buscasse a unidade diante da especificidade das minorias. \u00c9 autor de <em>O progressista de ontem e o do amanh\u00e3: desafios da democracia liberal no mundo p\u00f3s-pol\u00edticas identit\u00e1rias<\/em> (no original, <em>The Once and Future Liberal: After Identity Politics<\/em>) e <em>A Mente Naufragada<\/em>, publicados pela Editora Schwarcz e Cia. das Letras, respectivamente.<\/p>\n<p>Voltou a gerar pol\u00eamicas em meados do ano passado, ao articular uma carta-manifesto assinada por 150 intelectuais, entre os quais Noam Chomsky, Gloria Steinem, Martin Amis e Margaret Atwood, no qual reivindicavam o direito de discordar, sem que isso colocasse em risco o emprego de ningu\u00e9m, uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 patrulha ideol\u00f3gica dos setores progressistas dos Estados Unidos contra intelectuais conservadores. Esse posicionamento foi importante para a unidade dos democratas, fundamental para a vit\u00f3ria de Joe Biden nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais do ano passado e o racha dos republicanos, ao isolar a extrema-direita na tentativa de golpe de Estado de Trump.<\/p>\n<p>Lilla \u00e9 um estudioso dos dramas ideol\u00f3gicos do s\u00e9culo XX. No livro <em>A Mente Naufragada<\/em>, faz uma clara distin\u00e7\u00e3o entre o reacionarismo e o pensamento conservador. Segundo ele, \u201cos reacion\u00e1rios da nossa \u00e9poca descobriram que a nostalgia pode ser uma forte motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, talvez mais poderosa at\u00e9 do que a esperan\u00e7a. As esperan\u00e7as podem ser desiludidas. A nostalgia \u00e9 irrefut\u00e1vel\u201d. Isso tem tudo a ver com o presidente Jair Bolsonaro, o grupo de militares saudosistas do\u00a0regime militar que o cerca e os grupos de extrema-direita que organizou por meio das redes sociais, que, agora, est\u00e3o armados at\u00e9 os dentes.<\/p>\n<p>Enquanto velhos revolucion\u00e1rios da gera\u00e7\u00e3o 1968 ainda alimentam expectativas de uma nova ordem social redentora, os reacion\u00e1rios s\u00e3o obcecados pelo medo das mudan\u00e7as em curso\u00a0no mundo e se comportam de maneira nost\u00e1lgica, sonhando com a volta a um passado idealizado, que n\u00e3o \u00e9 o que a Hist\u00f3ria registra. \u201cA nostalgia baixou como uma nuvem sobre o pensamento europeu depois da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e nunca mais se afastou totalmente\u201d, lembra Lilla, prop\u00f3sito dos pensadores que, h\u00e1 um s\u00e9culo, serviram de caldo de cultura para o nazismo e o fascismo.<\/p>\n<p><strong>Nostalgia da ditadura<\/strong><\/p>\n<p>Quando o ministro da defesa, o general Braga Netto, por exemplo, comparece \u00e0 C\u00e2mara para prestar esclarecimentos e nega que houve uma ditadura no Brasil, revela uma mente naufragada no passado, quando Tancredo Neves foi eleito no col\u00e9gio eleitoral e o regime militar caiu sem um tiro, em 1985. O regime militar foi, sim, uma ditadura, que durou 20 anos, suprimiu as liberdades, prendeu, sequestrou e matou oposicionistas. Essa era a narrativa dos generais que se revezaram na Presid\u00eancia e impuseram um artificial sistema bipartid\u00e1rio, para disfar\u00e7ar o regime autorit\u00e1rio, sob o argumento de que se tratava de uma \u201cdemocracia relativa\u201d.<\/p>\n<p>A outra face dessa narrativa \u00e9 a recorrente interpreta\u00e7\u00e3o de Bolsonaro sobre o artigo 142 da Constitui\u00e7\u00e3o, ao atribuir \u00e0s For\u00e7as Armadas o papel de \u201cpoder moderador\u201d nas rela\u00e7\u00f5es entre o presidente da Rep\u00fablica, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). Busca-se, como em 1937, no golpe do Estado Novo, e em 1964, na deposi\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart, uma suposta amea\u00e7a comunista, no caso representada pelo favoritismo do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva nas pesquisas eleitorais sobre o pleito de 2022.<\/p>\n<p>Constr\u00f3i-se uma tese de afronta \u00e0 legalidade para justificar uma \u201cinterven\u00e7\u00e3o militar\u201d, com base em suposta inseguran\u00e7a da urna eletr\u00f4nica e nas medidas tomadas pelo Supremo Tribunal Federal contra a rede montada para disseminar mentiras e apregoar um golpe de Estado. \u201cOnde os outros veem o rio do tempo fluindo como sempre fluiu, o reacion\u00e1rio enxerga os destro\u00e7os do para\u00edso passando \u00e0 deriva\u201d, explica Lilla. \u00c9 mais ou menos o que distingue o presidente Jair Bolsonaro dos setores conservadores que participam e ainda apoiam o seu governo, mas n\u00e3o sua loucura golpista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reacion\u00e1rios s\u00e3o obcecados pelo medo das mudan\u00e7as e se comportam de maneira nost\u00e1lgica, sonhando com um passado idealizado, que n\u00e3o \u00e9 o que a Hist\u00f3ria registra O analista pol\u00edtico e ensa\u00edsta Mark Lilla, professor de Hist\u00f3ria das Ideias na Universidade de Columbia, em Nova York, ganhou muita notoriedade ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, ao publicar um artigo no The [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[980,589,4,7,972,113,8,9,3,76],"tags":[130,351,137,114,58],"class_list":["post-6022","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eleicoes-2","category-eua","category-governo","category-justica","category-memoria","category-militares","category-partidos","category-politica-2","category-politica","category-trump","tag-bolsonaro","tag-ditadura","tag-historia","tag-militares","tag-trump"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6022","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6022"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6022\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6035,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6022\/revisions\/6035"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6022"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6022"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6022"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}