{"id":6045,"date":"2021-08-25T06:36:47","date_gmt":"2021-08-25T09:36:47","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6045"},"modified":"2021-08-25T06:36:47","modified_gmt":"2021-08-25T09:36:47","slug":"nas-entrelinhas-a-violencia-a-espreita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-violencia-a-espreita\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A viol\u00eancia \u00e0 espreita"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Um breve passeio pela Hist\u00f3ria das ideias pol\u00edticas mostra o enorme retrocesso que estamos vivendo, devido ao culto \u00e0 lei do mais forte e \u00e0 justi\u00e7a pelas pr\u00f3prias m\u00e3os<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A Pol\u00edtica como Voca\u00e7\u00e3o, do soci\u00f3logo alem\u00e3o Max Weber, em 1918, na Universidade de Munique, publicada em livro no ano seguinte, \u00e9 um cl\u00e1ssico da ci\u00eancia pol\u00edtica e obra de refer\u00eancia para os jornalistas, cuja atividade \u00e9 insepar\u00e1vel da pol\u00edtica. Ele dizia que somos uma esp\u00e9cie de \u201ccasta de p\u00e1rias\u201d e \u201cas mais estranhas representa\u00e7\u00f5es sobre os jornalistas e seu trabalho s\u00e3o, por isso, correntes\u201d. Com raz\u00e3o, afirmava que a vida do jornalista \u00e9 muitas vezes \u201cmarcada pela pura sorte\u201d, sob condi\u00e7\u00f5es que \u201ccolocam \u00e0 prova constantemente a seguran\u00e7a interior, de um modo que muito dificilmente pode ser encontrado em outras situa\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA experi\u00eancia com frequ\u00eancia amarga na vida profissional talvez n\u00e3o seja nem mesmo o mais terr\u00edvel. Precisamente no caso dos jornalistas exitosos, exig\u00eancias internas particularmente dif\u00edceis lhe s\u00e3o apresentadas. N\u00e3o \u00e9 de maneira alguma uma iniquidade lidar nos sal\u00f5es dos poderosos da terra apa-rentemente no mesmo p\u00e9 de igualdade (&#8230;). Espantoso n\u00e3o \u00e9 o fato de que h\u00e1 muitos jornalistas humanamente disparatados ou desvalorizados, mas o fato de, apesar de tudo, precisamente essa classe encerra em si um n\u00famero t\u00e3o grande de homens valiosos e completamente aut\u00eanticos, algo que os outsiders n\u00e3o suporiam facilmente\u201d. \u00c0quela \u00e9poca, as mulheres ainda n\u00e3o eram a maioria na categoria, mas, mesmo assim, mais de 100 anos depois, suas observa\u00e7\u00f5es s\u00e3o atual\u00edssimas e tamb\u00e9m servem para elas, principalmente as que est\u00e3o em come\u00e7o de carreira.<\/p>\n<p>O tema da viol\u00eancia faz parte da vida dos jornais. N\u00e3o raro, os jornalistas s\u00e3o as v\u00edtimas, como acontece agora no Afeganist\u00e3o. Nos grot\u00f5es do nosso pa\u00eds, ainda hoje, segundo a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI), s\u00e3o constantes as intimida\u00e7\u00f5es e os assassinatos de profissionais de imprensa. Na revolu\u00e7\u00e3o digital, os jornalistas perderam o monop\u00f3lio da not\u00edcia. N\u00e3o h\u00e1 fato relevante que n\u00e3o seja registrado pelo celular de um cidad\u00e3o comum. Mesmo assim, somos diariamente desafiados a desnudar a verdade e confrontados por fake news, poderosos instrumentos de luta pol\u00edtica contra o Estado democr\u00e1tico. Nessa guerra entre a verdade e as mentiras, os jor- nalistas s\u00e3o a infantaria da democracia, com a miss\u00e3o de desarmar seus inimigos.<\/p>\n<p>Voltemos a Weber. A express\u00e3o monop\u00f3lio da viol\u00eancia (gewaltmonopol des staates) foi cunhada por ele, como atributo do Estado ocidental moderno \u2014 ou seja, o uso leg\u00edtimo da for\u00e7a f\u00edsica dentro de um determinado territ\u00f3rio em defesa da sociedade. Esse poder de coer\u00e7\u00e3o \u00e9 exercido pelo Estado por meio de seus agentes leg\u00edtimos. O conceito tem origem hobbesiana, inspirado na figura do Leviat\u00e3, o mito fen\u00edcio relatado no Livro de J\u00f3: um monstro gigantesco, meio drag\u00e3o, meio crocodilo, que vivia num lago e tinha como miss\u00e3o defender os peixes mais fracos dos peixes mais fortes. O ingl\u00eas Thomas Hobbes, um dos pais do Estado moderno, fez essa analogia em 1651 (Leviat\u00e3), para responder duas quest\u00f5es: como as sociedades foram formadas e como devem ser governadas?<\/p>\n<p><strong>Lei do mais forte<\/strong><br \/>\n\u00c9 dele a famosa frase \u201chomini lupus homini\u201d (o homem \u00e9 o lobo do homem), justamente por sermos ego\u00edstas e entrarmos em conflito uns com os outros. Apesar de ego\u00edstas, por\u00e9m, temos racionalidade e \u201cmedo da morte violenta\u201d. Para Hobbes, era poss\u00edvel abrir m\u00e3o da liberdade total e fazer um pacto, o \u201ccontrato social\u201d, para sair da vida solit\u00e1ria e selvagem \u2014 ou seja, do \u201cestado de natureza\u201d \u2014 e viver juntos, sob um poder soberano, no \u201cestado civil\u201d \u2014 ou seja, em sociedade. Entretanto, para isso, \u00e9 preciso um poder que os obrigue a respeitarem o contrato.<\/p>\n<p>O Estado sozinho, absoluto, por\u00e9m, n\u00e3o resolve o problema. \u00c9 preciso garantir liberdade e direitos aos cidad\u00e3os. \u00c9 a\u00ed que John Stuart Mill, no s\u00e9culo XIX, ou seja, dois s\u00e9culos depois, entra em cena. Em Sobre a Liberdade (1859), Mill resumiu: o Estado deve preservar a autonomia individual e, ao mesmo tempo, evitar a tirania da maioria. Tudo \u00e9 permitido ao indiv\u00edduo, desde que as suas a\u00e7\u00f5es n\u00e3o causem danos a terceiros. Todas as pessoas podem desenvolver de maneira aut\u00f4noma o seu projeto de vida; a sociedade deve proteger a liberdade de indiv\u00edduos se desenvolverem de modo aut\u00f4nomo e, em troca, os seus membros n\u00e3o devem interferir nos direitos legais alheios; os danos que s\u00e3o causados a outras pessoas t\u00eam como consequ\u00eancia uma puni\u00e7\u00e3o proporcional.<\/p>\n<p>Esse breve passeio pela Hist\u00f3ria das ideias pol\u00edticas mostra o enorme retrocesso que estamos vivendo no governo Bolsonaro, devido ao culto \u00e0 lei do mais forte e \u00e0 justi\u00e7a pelas pr\u00f3prias m\u00e3os. E \u00e0 perda do monop\u00f3lio da viol\u00eancia pelo Estado em raz\u00e3o da venda indiscriminada de armas, da forma\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias privadas e de falanges pol\u00edticas armadas, al\u00e9m do engajamento de agentes armados do Estado em disputas pol\u00edticas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um breve passeio pela Hist\u00f3ria das ideias pol\u00edticas mostra o enorme retrocesso que estamos vivendo, devido ao culto \u00e0 lei do mais forte e \u00e0 justi\u00e7a pelas pr\u00f3prias m\u00e3os A Pol\u00edtica como Voca\u00e7\u00e3o, do soci\u00f3logo alem\u00e3o Max Weber, em 1918, na Universidade de Munique, publicada em livro no ano seguinte, \u00e9 um cl\u00e1ssico da ci\u00eancia pol\u00edtica e obra de refer\u00eancia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[677,4,7,92,972,9,3,80,68],"tags":[130,1004,379,592,69,422],"class_list":["post-6045","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comunicacao","category-governo","category-justica","category-literatura","category-memoria","category-politica-2","category-politica","category-seguranca","category-violencia","tag-bolsonaro","tag-hobbes","tag-imprensa","tag-mill","tag-violencia","tag-weber"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6045","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6045"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6045\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6052,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6045\/revisions\/6052"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6045"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6045"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6045"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}