{"id":6074,"date":"2021-09-07T08:29:37","date_gmt":"2021-09-07T11:29:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6074"},"modified":"2021-09-08T06:51:45","modified_gmt":"2021-09-08T09:51:45","slug":"nas-entrelinhas-a-invencao-do-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-invencao-do-brasileiro\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A inven\u00e7\u00e3o do brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O imagin\u00e1rio nacional foi constru\u00eddo a partir de duas ideias-for\u00e7a:\u00a0um \u2018povo novo\u2019, que surgiu da miscigena\u00e7\u00e3o; e a unidade nacional, fundindo povo e territ\u00f3rio no Estado-na\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou com a famosa carta de Pero Vaz de Caminha, que somente veio a ser impressa no Brasil em 1817, no Rio de Janeiro, cinco anos antes da independ\u00eancia. A Terra Brasilis reproduzia mitos que povoaram o imagin\u00e1rio europeu desde as viagens de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo: \u201cnovo mundo\u201d, \u201cpara\u00edso perdido\u201d, \u201cbom selvagem\u201d etc. Mas a inven\u00e7\u00e3o dos brasileiros, digamos assim, \u00e9 uma obra dos mineiros. A Inconfid\u00eancia, em 1789, nos legou o nosso primeiro grande m\u00e1rtir nacional, Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier, o Tiradentes, preso \u00e0quela ocasi\u00e3o; depois, enforcado e esquartejado, em 21 de abril de 1792. E a ideia de na\u00e7\u00e3o formada a partir dos que aqui nasceram.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, o que c\u00e1 havia eram portugueses, baianos, pernambucanos, paulistas, fluminenses e ga\u00fachos, que protagonizaram a ocupa\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o territorial na qual o Estado antecipou a na\u00e7\u00e3o, mas sempre muito atr\u00e1s desses desbravadores. Not\u00e1vel foi a fa\u00e7anha dos paulistas, aliados \u00e0s tribos tupi-guarani, na ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio e na organiza\u00e7\u00e3o do mercado interno, bem como o trabalho dos africanos escravizados na nossa economia de exporta\u00e7\u00e3o e na vida dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>A partir do s\u00e9culo XIX, a inven\u00e7\u00e3o do brasileiro ganhou f\u00f4lego, principalmente com o Romantismo. Durante todo o Imp\u00e9rio, buscou-se um projeto est\u00e9tico-pol\u00edtico para o Brasil, uma identidade homogeneizadora, acima das diferen\u00e7as \u00e9tnicas e de classe. O imagin\u00e1rio nacional foi constru\u00eddo a partir de duas ideias-for\u00e7a: um \u201cpovo novo\u201d, que surgiu da miscigena\u00e7\u00e3o; e a unidade nacional, fundindo povo e territ\u00f3rio no Estado-na\u00e7\u00e3o. A l\u00edngua falada nos meios urbanos e o sincretismo religioso cat\u00f3lico, desde o per\u00edodo colonial, seriam fundamentais.<\/p>\n<p>Apesar de o Grito do Ipiranga ser a sua representa\u00e7\u00e3o \u00e9pica, encarnada por Dom Pedro I, a Independ\u00eancia n\u00e3o foi um fato isolado. No dia 7 de setembro de 1822, n\u00e3o haveria institui\u00e7\u00f5es minimamente organizadas no Brasil se a fam\u00edlia real portuguesa n\u00e3o houvesse aportado em 18 de janeiro de 1808, fugindo de Napole\u00e3o Bonaparte, que invadira Portugal. A chegada de D. Jo\u00e3oVI e toda sua comitiva transformaria a col\u00f4nia explorada \u00e0 exaust\u00e3o em sede do Reino, com suas institui\u00e7\u00f5es de Estado, com as prov\u00edncias brasileiras elegendo deputados \u00e0s Cortes Gerais de Lisboa, ap\u00f3s a expuls\u00e3o dos franceses.<\/p>\n<p>Transformou-se por completo a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos brasileiros. Houve reorganiza\u00e7\u00e3o das prov\u00edncias: em 1821, as antigas capitanias foram emancipadas como prov\u00edncias. Como os interesses do Brasil na vota\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Portuguesa em 1821 foram frustrados, D. Pedro I convocou uma Assembleia Constituinte para elaborar uma Constitui\u00e7\u00e3o para o Reino do Brasil. Somente a partir de 3 de maio de 1823, ou seja, ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia, os representantes das Prov\u00edncias reuniram-se. A chamada Constituinte da Mandioca leva esse nome popular porque era preciso ter pelo menos 500 alqueires de mandioca para se candidatar, e mais de 250 alqueires para votar.<\/p>\n<p><strong>Poder absoluto<\/strong><\/p>\n<p>Surgiram dois grandes partidos: o portugu\u00eas e o brasileiro. O primeiro representava grandes comerciantes da Corte e apoiavam o absolutismo de D. Pedro; o segundo, os m\u00e9dios e pequenos comerciantes e os grandes fazendeiros, e defendia a redu\u00e7\u00e3o de seus poderes imperiais. As ideias republicanas radicais, que emergiriam com for\u00e7a no Per\u00edodo Regencial, eram muito minorit\u00e1rias. Ant\u00f4nio Carlos de Andrada e Silva, irm\u00e3o de Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrada e Silva, foi relator do anteprojeto de Constitui\u00e7\u00e3o. Com 272 artigos influenciados pelas ideias do Iluminismo, defendia a soberania nacional e o liberalismo econ\u00f4mico. O escravismo e o latif\u00fandio n\u00e3o entraram em pauta \u2014 colocavam em risco os interesses da aristocracia rural brasileira.<\/p>\n<p>Havia amea\u00e7as de interven\u00e7\u00e3o do governo liberal das Cortes Gerais. Bahia, Par\u00e1 e Cisplatina pretendiam se manter unidos a Portugal, o que provocou as Guerras de Independ\u00eancia. A Assembleia Constituinte, por\u00e9m, entrou em confronto com o Imperador, que n\u00e3o aceitou a tentativa de redu\u00e7\u00e3o do seu poder, inclusive sobre as For\u00e7as Armadas, e a dissolveu, em 12 de novembro de 1823. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1824 foi outorgada por D. Pedro I e lhe garantia amplos poderes. O direito \u00e0 propriedade privada foi incorporado \u00e0 Carta com objetivo de proteger o regime escravocrata.<\/p>\n<p>A Monarquia preservaria o projeto de reunifica\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio colonial portugu\u00eas de D. Pedro I, at\u00e9 a abdica\u00e7\u00e3o, em 7 de abril de 1831. Desde ent\u00e3o, alternamos per\u00edodos de centraliza\u00e7\u00e3o e descentraliza\u00e7\u00e3o do poder. Havia no Brasil 4,5 milh\u00f5es de habitantes, sendo 800 mil \u00edndios, 1 milh\u00e3o de brancos, 1,2 milh\u00e3o de negros escravizados e 1,5 milh\u00e3o de mulatos, pardos, caboclos e mesti\u00e7os. \u00c9ramos n\u00f3s, os brasileiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O imagin\u00e1rio nacional foi constru\u00eddo a partir de duas ideias-for\u00e7a:\u00a0um \u2018povo novo\u2019, que surgiu da miscigena\u00e7\u00e3o; e a unidade nacional, fundindo povo e territ\u00f3rio no Estado-na\u00e7\u00e3o Tudo come\u00e7ou com a famosa carta de Pero Vaz de Caminha, que somente veio a ser impressa no Brasil em 1817, no Rio de Janeiro, cinco anos antes da independ\u00eancia. 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