{"id":6103,"date":"2021-09-10T06:01:08","date_gmt":"2021-09-10T09:01:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6103"},"modified":"2021-09-10T06:01:08","modified_gmt":"2021-09-10T09:01:08","slug":"nas-entrelinhas-as-nuvens-do-planalto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-as-nuvens-do-planalto\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: As nuvens do Planalto"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O que Bolsonaro fala n\u00e3o se escreve. Agora, com a sua Mensagem \u00e0 Na\u00e7\u00e3o, na qual se compromete\u00a0a respeitar a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, veremos se cumpre o que escreve<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ex-banqueiro, ex-deputado, ex-governador de Minas Gerais e ent\u00e3o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores na \u00e9poca da publica\u00e7\u00e3o do Ato Institucional no 5, em 13 de dezembro de 1968, Magalh\u00e3es Pinto eram um pol\u00edtico conservador, que apoiou o golpe de 1964, como a maioria dos caciques da antiga Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional (UDN). Para ele, a pol\u00edtica era como uma nuvem: \u201cVoc\u00ea olha e ela est\u00e1 de um jeito; olha de novo e ela j\u00e1 mudou\u201d.<\/p>\n<p>Signat\u00e1rio do hist\u00f3rico Manifesto dos Mineiros, lan\u00e7ado por setores liberais contra o Estado Novo (1937-1945), em outubro de 1943, mesmo assim Magalh\u00e3es Pinto subscreveu o AI-5 na \u201cesperan\u00e7a\u201d de que o decreto tivesse vig\u00eancia de seis ou oito meses, diria em entrevista, 16 anos depois. O regime militar s\u00f3 acabou em 1985, com a elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves, seu advers\u00e1rio hist\u00f3rico do antigo PSD. O tempo fora suficiente para volatilizar seu projeto de chegar \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, frustra\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m ocorreu com outros pol\u00edticos golpistas, como o ex-governador carioca Carlos Lacerda, que teve o mandato cassado pelos militares.<\/p>\n<p>As nuvens da pol\u00edtica no Planalto s\u00e3o caprichosas e trai\u00e7oeiras. Nessa \u00e9poca do ano, em que a seca castiga o Distrito Federal, elas aparecem e desaparecem ao sabor do vento. As chuvas, com raios e trov\u00f5es, s\u00e3o uma raridade, mas eventualmente ocorrem. Na ter\u00e7a-feira, Dia da Independ\u00eancia, Bras\u00edlia amanheceu sob um amea\u00e7ador cumulonimbus, uma forma\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0quelas \u201cNuvens Negras\u201d que intitularam o editorial do antigo Correio da Manh\u00e3, a senha para a marcha das tropas do general Mour\u00e3o Filho, de Juiz de Fora para o Rio de janeiro, em 31 de mar\u00e7o de 1964, o estopim da destitui\u00e7\u00e3o do presidente Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p>Existem nuvens em camadas e nuvens convectivas. Nuvens em camadas aparecem altas no c\u00e9u, s\u00e3o as mais comuns nessa \u00e9poca do ano em Bras\u00edlia. As nuvens convectivas\u00a0est\u00e3o mais pr\u00f3ximas da superf\u00edcie da\u00a0Terra. Em 1802, o ingl\u00eas\u00a0Luke Howard criou quatro\u00a0categorias de nuvens usadas at\u00e9 hoje: cumulus,\u00a0stratus, nimbus e cirrus. O\u00a0nome cumulus vem do latim e significa \u201cpilha\u201d ou\u00a0\u201cmont\u00e3o. Nimbus \u00e9 a palavra para \u201cnuvem\u201d em latim. Nuvens nimbus s\u00e3o\u00a0produtoras de precipita\u00e7\u00e3o. A categoria nimbus \u00e9\u00a0frequentemente combinada com outras categorias para indicar condi\u00e7\u00f5es de tempestade.<\/p>\n<p>Na g\u00edria dos morros e\u00a0sub\u00farbios cariocas, \u201cCB\u201d\u00a0significa \u201csangue bom\u201d. Na\u00a0meteorologia, por\u00e9m, a sigla significa cumuloninbus, um terror para pilotos e navegantes. S\u00e3o nuvens que podem ocorrer a\u00a0qualquer momento, durante todo o ano. Na avia\u00e7\u00e3o, limitam o espa\u00e7o a\u00e9reo, pois o voo dentro delas \u00e9 de extremo risco \u2014 tamb\u00e9m afetam pousos e decolagem. No mar, nos rios e nos lagos, podem causar naufr\u00e1gios. Provocam turbul\u00eancia, granizo, forma\u00e7\u00e3o de gelo, saraiva (granizos lan\u00e7ados para fora da nuvem, em ar claro), rel\u00e2mpagos e, por vezes, tornados. H\u00e1 registros de ventos de 100 milhas\/hora e tempestades de 8 mil toneladas de \u00e1gua por minuto, que duram n\u00e3o muito mais do que meia-hora. Seus raios podem chegar a 100 milh\u00f5es de volts.<\/p>\n<p><strong>Dissipa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Ter\u00e7a e quarta-feira, parecia que um CB levaria a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 ao naufr\u00e1gio e calcinaria os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Mas era uma daquelas nuvens da nossa pol\u00edtica. No auge da tens\u00e3o entre os manifestantes que ocupam a Esplanada e os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), as tropas do Comando Militar do Planalto, chefiadas pelo general de divis\u00e3o Rui Yutaka Matsuda, estavam de prontid\u00e3o, para garantia da lei e da ordem, se assim fosse necess\u00e1rio. N\u00e3o estavam aquarteladas para dar um golpe de Estado, mas, sim, proteger o STF, se fossem requisitadas pelo presidente da Corte, Luiz Fux. Por muito pouco, o presidente Jair Bolsonaro n\u00e3o cometeu um grave crime de sedi\u00e7\u00e3o ao incitar os caminhoneiros contra o Supremo, o contr\u00e1rio do que deveria fazer como. \u201ccomandante supremo\u201d das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>Enquanto as multid\u00f5es que mobilizara urravam, Bolsonaro se isolava politicamente. Na quar- ta-feira, as rea\u00e7\u00f5es do presidente do STF, Luiz Fux, e dos presidentes da C\u00e2mara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), refletiram essa situa\u00e7\u00e3o.\u00a0Ontem, os bloqueios de rodovias pelos caminhoneiros que apoiam Bolsonaro e querem fechar o Supremo, e as rea\u00e7\u00f5es do mercado financeiro, com a\u00e7\u00f5es em queda e d\u00f3lar em alta, reve- lavam que o presidente ainda estava dentro cumulonimbus, enquanto os pol\u00edticos e a magistratura o contornavam.<\/p>\n<p>O antol\u00f3gico e duro discurso do ministro do STF Lu\u00eds Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), durante a sess\u00e3o da Corte, deixou muito claro que os ministros do Supremo n\u00e3o se acovardariam. Coube ao ex-presidente Michel Temer, como se fosse um velho controlador de voo, convencer o presidente a mudar de rota, enquanto as nuvens se dissipavam. O que Bolsonaro fala n\u00e3o se escreve. Agora, com a sua Mensagem \u00e0 Na\u00e7\u00e3o, na qual se compromete a respeitar os demais Poderes e a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, veremos se cumpre o que escreve.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que Bolsonaro fala n\u00e3o se escreve. 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