{"id":6128,"date":"2021-09-21T06:14:31","date_gmt":"2021-09-21T09:14:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6128"},"modified":"2021-09-21T06:14:31","modified_gmt":"2021-09-21T09:14:31","slug":"nas-entrelinhas-naufragio-em-dique-seco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-naufragio-em-dique-seco\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Naufr\u00e1gio em dique seco"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O projeto de constru\u00e7\u00e3o do submarino nuclear brasileiro, uma parceria com a Fran\u00e7a, nunca agradou aos Estados Unidos e ao Reino Unido<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Jair Bolsonaro participou, ontem, de reuni\u00e3o bilateral com o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, em Nova York, onde est\u00e3o para participar da 76a Assembleia Geral da ONU (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas), hoje. Em v\u00eddeo divulgado nas redes sociais do presidente da Rep\u00fablica, o premier afirma que havia prometido visitar o Brasil, mas a pandemia da covid-19 impediu a viagem. O tema da covid-19 dominou o encontro.<\/p>\n<p>Entretanto, quem quiser que se engane, o pano de fundo das rela\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas entre o Reino Unido e o Brasil s\u00e3o a forte presen\u00e7a comercial chinesa no continente, o controle do Atl\u00e2ntico Sul, \u00e1rea de influ\u00eancia dos ingleses, e o acordo militar com a Fran\u00e7a para constru\u00e7\u00e3o do submarino nuclear brasileiro. Al\u00e9m disso, o Brasil apoia as pretens\u00f5es da Argentina no sentido de recuperar a soberania sobre as Ilhas Malvinas (Falkland Islands), arquip\u00e9lago localizado na plataforma continental da Patag\u00f4nia, por\u00e9m um territ\u00f3rio ultramarino brit\u00e2nico.<\/p>\n<p>De abril a junho de 1982, a Argentina tentou recuperar o controle do territ\u00f3rio, mas levou uma surra da Marinha inglesa, com apoio log\u00edstico dos Estados Unidos e constrangida neutralidade brasileira. A derrota na Guerra das Malvinas colocou em xeque a doutrina de seguran\u00e7a nacional dos pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, inclusive o Brasil, pois supunha-se que o aliado principal contra qualquer outra pot\u00eancia de fora do subcontinente eram os EUA. O conceito de\u00a0\u201cAmaz\u00f4nia Azul\u201d e a decis\u00e3o de construir um submarino nuclear em parceria com a Fran\u00e7a, para aumentar o nosso poder de dissuas\u00e3o em \u00e1guas territoriais, t\u00eam tudo a ver com o petr\u00f3leo da camada pr\u00e9-sal e a Guerra das Malvinas.<\/p>\n<p>Na semana passada, Reino Unido e EUA protagonizaram um novo acordo militar com a Austr\u00e1lia, ou seja, no Pac\u00edfico e no \u00cdndico, no qual se comprometeram a fornecer submarinos nucleares \u00e0quele pa\u00eds da Oceania. Parlamentarista, a Austr\u00e1lia faz parte dos Reinos da Comunidade de Na\u00e7\u00f5es (Commonwealth realms), cuja chefe de Estado \u00e9 a Rainha Isabel II (Elizabeth II). O acordo detonou o contrato de US$ 65 bilh\u00f5es da Austr\u00e1lia com a Fran\u00e7a para compra de 12 submarinos franceses com propuls\u00e3o convencional.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o an\u00fancio do acordo militar entre Austr\u00e1lia, EUA e Reino Unido, a China tamb\u00e9m reagiu e considerou a alian\u00e7a uma amea\u00e7a \u201cextremamente irrespons\u00e1vel\u201d \u00e0 estabilidade regional. Pequim reivindica soberania sobre parte do Mar da China Meridional, muito rico em recursos naturais e importante rota comercial. Por isso, rejeita as pretens\u00f5es territoriais de outros pa\u00edses da regi\u00e3o, como Vietn\u00e3, Mal\u00e1sia ou Filipinas.<\/p>\n<p><strong>Submarino brasileiro<\/strong><br \/>\nAcontece que o projeto de constru\u00e7\u00e3o do submarino nuclear brasileiro, uma parceria com a Fran\u00e7a, nunca agradou aos EUA e ao Reino Unido. Os franceses forneceram tecnologia para constru\u00e7\u00e3o do casco do submarino, um grande desafio. O reator nuclear, por\u00e9m, foi todo desenvolvido pela Marinha brasileira (usar\u00e1 combust\u00edvel com apenas 6% de ur\u00e2nio, contra um m\u00ednimo de 15% dos franceses e 90% dos norte-americanos).<\/p>\n<p>O Almirantado \u201ceconomiza arroz\u201d para viabilizar o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub) e o Programa Nuclear da Marinha (PNM), mas o projeto est\u00e1 naufragando em dique seco, com cortes de 31% e 49%, respectivamente, no seu or\u00e7amento. Para garantir a continuidade m\u00ednima do projeto, a Marinha precisa recuperar R$ 267,5 milh\u00f5es que seriam destinados ao Prosub, mas foram vetados por Bolsonaro.<\/p>\n<p>O Brasil possui quatro submarinos da classe Tupi (Tupi, Tamoio, Timbira, Tapaj\u00f3), um da s\u00e9rie Tikuna e o Riachuelo, da classe Sporpene, o primeiro do Prosub. O Humait\u00e1, em fase de testes, \u00e9 o segundo. Terceiro e quarto, respectivamente, o Tonelero estava programado para ser lan\u00e7ado em dezembro deste ano, enquanto o Angostura, em dezembro de 2022. O valor total dos quatro submarinos convencionais \u00e9 de 100 milh\u00f5es de euros, o equivalente a R$ 630 milh\u00f5es em c\u00e2mbio atual. Somados, \u00e9 mesmo valor do submarino movido por energia nuclear, cujo nome ser\u00e1 \u00c1lvaro Alberto, o almirante que liderou o programa nuclear brasileiro. O cobertor, por\u00e9m, \u00e9 curto. A esquadra est\u00e1 sucateada e precisa de novas fragatas e navios-patrulha tamb\u00e9m em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O projeto de constru\u00e7\u00e3o do submarino nuclear brasileiro, uma parceria com a Fran\u00e7a, nunca agradou aos Estados Unidos e ao Reino Unido Jair Bolsonaro participou, ontem, de reuni\u00e3o bilateral com o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, em Nova York, onde est\u00e3o para participar da 76a Assembleia Geral da ONU (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas), hoje. 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