{"id":6186,"date":"2021-10-08T06:56:43","date_gmt":"2021-10-08T09:56:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6186"},"modified":"2021-10-08T06:56:43","modified_gmt":"2021-10-08T09:56:43","slug":"nas-entrelinhas-um-recado-dos-investidores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-um-recado-dos-investidores\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Um recado dos investidores"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Sempre houve problemas, mas o Brasil era protagonista mundial na quest\u00e3o ambiental, por causa da legisla\u00e7\u00e3o existente e do combate aos crimes ambientais<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Muito emblem\u00e1tico o desfecho do leil\u00e3o de 92 blocos, ofertados ontem pela Ag\u00eancia Nacional de Petr\u00f3leo, G\u00e1s e Biocombust\u00edveis (ANP), para explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural: apenas cinco foram arrematados. Estavam distribu\u00eddos em 11 setores das bacias Campos, Pelotas, Potiguar e Santos. Entre as \u00e1reas que n\u00e3o receberam proposta, felizmente, est\u00e3o os lotes pr\u00f3ximos a Fernando de Noronha, onde, segundo ambientalistas, a explora\u00e7\u00e3o oferece riscos \u00e0 fauna marinha. Foram arrematados dois blocos do setor SS-AP4 e tr\u00eas no setor SS-AUP4, ambos na Bacia de Santos. Das nove empresas que se inscreveram para participar da disputa, apenas duas fizeram ofertas.<\/p>\n<p>A Shell arrematou sozinha quatro dos cinco blocos e formou cons\u00f3rcio com a Ecopetrol para arrematar o quinto. Inscreveram-se no leil\u00e3o: Petrobras, Chevron Brasil \u00d3leo e G\u00e1s Ltda., Total Energies EP Brasil Ltda., Ecopetrol \u00d3leo e G\u00e1s do Brasil Ltda., Murphy Exploration &amp; Production Company, Karoon Petr\u00f3leo e G\u00e1s Ltda., Wintershall Dea do Brasil Explora\u00e7\u00e3o e Produ\u00e7\u00e3o Ltda, e 3R Petroleum \u00d3leo e G\u00e1s S.A. A ANP arrecadou R$ 37 milh\u00f5es em b\u00f4nus de assinatura, um investimento previsto de R$ 136 milh\u00f5es. H\u00e1 dois anos n\u00e3o se realizavam leil\u00f5es, mas o desinteresse de investidores j\u00e1 havia sido registrado na rodada de outubro de 2019, na qual foram arrematados apenas 12 dos 36 blocos explorat\u00f3rios ofertados pela ANP. Entretanto, \u00e0 \u00e9poca, houve um recorde de arrecada\u00e7\u00e3o: R$ 8,915 bilh\u00f5es. Agora, n\u00e3o. Talvez tenha sido esse o \u00faltimo grande leil\u00e3o \u2014 o futuro dir\u00e1. Quanto mais profunda a camada pr\u00e9-sal, mais cara e complexa \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A forte presen\u00e7a da Shell tem uma explica\u00e7\u00e3o. Com 900 funcion\u00e1rios, a empresa est\u00e1 no Brasil h\u00e1 mais de 100 anos, tem forte participa\u00e7\u00e3o no cons\u00f3rcio de Libra e conseguiu manter no Brasil o seu \u201ccluster\u201d de explora\u00e7\u00e3o, um arranjo que envolve centenas de empresas, milhares de t\u00e9cnicos e muita tecnologia, mas que costuma migrar para outras fronteiras de petr\u00f3leo quando o ciclo de explora\u00e7\u00e3o \u00e9 interrompido por algum motivo. Para dar lucro, da pesquisa geol\u00f3gica \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o do produto, esse arranjo produtivo precisa ser renovado, o que somente \u00e9 poss\u00edvel com a previsibilidade e regularidade dos leil\u00f5es. Quando s\u00e3o interrompidos, capitais, recursos humanos, financeiros e tecnol\u00f3gicos se dispersam \u2014 o Rio de Janeiro que o diga.<\/p>\n<p>H\u00e1 fatores mais importantes, por\u00e9m, influenciando a desmobiliza\u00e7\u00e3o dos investidores. O primeiro \u00e9 a reestrutura\u00e7\u00e3o da economia mundial, globalizada, que est\u00e1 transitando do carbono para a energia limpa. Os melhores exemplos s\u00e3o a substitui\u00e7\u00e3o de termoel\u00e9tricas por usinas de energia solar e a produ\u00e7\u00e3o em massa de carros el\u00e9tricos. Europa e Estados Unidos j\u00e1 est\u00e3o em pleno processo de convers\u00e3o para a energia limpa, o que vem tendo forte impacto no mercado de petr\u00f3leo. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os pa\u00edses produtores de petr\u00f3leo, liderados pela Ar\u00e1bia Saudita e pela R\u00fassia, reduziram a produ\u00e7\u00e3o e jogaram os pre\u00e7os dos combust\u00edveis para cima. Ou seja, h\u00e1 uma revolu\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica em curso, impulsionando a nova economia.<\/p>\n<p>O segundo, com certeza, \u00e9 a centralidade do conceito de sustentabilidade na agenda globalista, na qual o Brasil adotou uma posi\u00e7\u00e3o marginal. Em abril, os EUA, sob a lideran\u00e7a do presidente Joe Biden, voltaram a ter protagonismo no debate sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. No pr\u00f3ximo m\u00eas, na Esc\u00f3cia, ser\u00e1 realizada a Confer\u00eancia da ONU sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (COP). EUA, China, \u00cdndia, R\u00fassia e Brasil est\u00e3o entre os 17 pa\u00edses que respondem por 80% das emiss\u00f5es globais de CO2. A press\u00e3o internacional sobre esses pa\u00edses por causa do aquecimento global somente aumenta. As grandes expectativas s\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China, que promete um programa revolucion\u00e1rio de redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de CO2, e o Brasil, que continua \u201cpassando a boiada\u201d, como diria o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles.<\/p>\n<p><strong>Nova agenda<\/strong><br \/>\nA nossa vanguarda do combate \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o ambiental, principalmente \u00e0s queimadas e desmatamentos, sempre foram os ambientalistas e t\u00e9cnicos dos \u00f3rg\u00e3os governamentais, entre os quais o Ibama e o ICMBio. Sempre houve problemas ambientais, mas o Brasil era protagonista mundial na quest\u00e3o, por causa da legisla\u00e7\u00e3o existente e da pol\u00edtica oficial de combate aos crimes ecol\u00f3gicos. O presidente Jair Bolsonaro inverteu a situa\u00e7\u00e3o ao implodir as pol\u00edticas p\u00fablicas e estimular os predadores do meio ambiente. Agora, por\u00e9m, uma nova situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo criada, porque as empresas brasileiras inseridas nas cadeias de com\u00e9rcio global e no mercado financeiro internacional est\u00e3o aderindo \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es do F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial, e passaram a ver a sustentabilidade como um dos eixos do ambiente de neg\u00f3cios. Essa alian\u00e7a entre ambientalistas, t\u00e9cnicos governamentais e lideres empresariais est\u00e1 come\u00e7ando a virar o jogo.<\/p>\n<p>Entretanto, a pol\u00edtica continua sendo decisiva e, na atual legislatura, a agenda da sustentabilidade no Congresso est\u00e1 sob ataque do Centr\u00e3o, em seus m\u00faltiplos aspectos, desde a legisla\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a florestas e mananciais, \u00e0 quest\u00e3o das terras ind\u00edgenas. Um amplo espectro de for\u00e7as, que vai da direita \u00e0 esquerda, em raz\u00e3o de uma agenda desenvolvimentista, ainda prioriza a velha economia, em lugar da nova pol\u00edtica globalista e da economia do conhecimento. \u00c9 como se regred\u00edssemos ao velho debate agrarismo versus industrialismo, de 100 anos atr\u00e1s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre houve problemas, mas o Brasil era protagonista mundial na quest\u00e3o ambiental, por causa da legisla\u00e7\u00e3o existente e do combate aos crimes ambientais Muito emblem\u00e1tico o desfecho do leil\u00e3o de 92 blocos, ofertados ontem pela Ag\u00eancia Nacional de Petr\u00f3leo, G\u00e1s e Biocombust\u00edveis (ANP), para explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural: apenas cinco foram arrematados. 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