{"id":6189,"date":"2021-10-10T09:10:47","date_gmt":"2021-10-10T12:10:47","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6189"},"modified":"2021-10-10T10:00:45","modified_gmt":"2021-10-10T13:00:45","slug":"nas-entrelinhas-as-almas-mortas-e-a-montanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-as-almas-mortas-e-a-montanha\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: As almas mortas e a montanha"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O trauma vai muito al\u00e9m dos 600 mil mortos por covid-19. Milh\u00f5es de pacientes passaram pelas enfermarias. O que mudou no modo de vida e na forma de pensar dessas pessoas?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201cDiga- me, m\u00e3ezinha, t\u00eam morrido camponeses seus? \u2014 Nem me fale paizinho \u2014 dezoito homens! Disse a velha com um suspiro. \u2014 E tudo gente boa que morreu, bons trabalhadores. \u00c9 verdade que nasceram outros depois, mas o que valem? \u00c9 tudo crian\u00e7ada; mas o fiscal chegou, mandando pagar a taxa por alma, da mesma forma. Os homens est\u00e3o defuntos, mas eu tenho que pagar como se estivessem vivos.\u201d<\/p>\n<p>No livro <em>Almas mortas<\/em>, o escritor ucraniano Nikolai Gogol ironiza a servid\u00e3o russa na \u00e9poca do czar Pedro, o Grande, que resolveu cobrar impostos sobre todas as almas. Cobrava at\u00e9 de quem n\u00e3o era cat\u00f3lico, apesar de n\u00e3o ser nada religioso. Os propriet\u00e1rios de terras eram obrigados a pagar os impostos pelo n\u00famero de servos, inclusive os que haviam morrido. P\u00e1vel Iv\u00e1novitich Tch\u00edtchicov, o personagem central do romance, resolve ganhar dinheiro com isso.<\/p>\n<p>Charmoso, educado, sagaz e boa pinta, usa de convencimento para enganar pequenos propriet\u00e1rios. Aproveita-se da burocracia russa ineficiente, e do regime de servid\u00e3o e da mis\u00e9ria, para hipotecar almas como se todas estivessem vivas e, com isso, obter lucro. Se o propriet\u00e1rio vende uma alma, para Tchitchicov, o vendedor n\u00e3o perde nada. Pelo contr\u00e1rio, ele economiza no imposto que teria que pagar e ainda ganha uma quantia em rublos. Quanto ao comprador, essas almas mortas passar\u00e3o a fazer parte do seu patrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>O plano de Tchitchicov \u00e9 simples. Ao comprar almas mortas a partir de pequenos propriet\u00e1rios de terra, esses servos permanecem em livros dos fazendeiros at\u00e9 o pr\u00f3ximo recenseamento e, muito embora mortos, s\u00e3o tribut\u00e1veis. Ao compr\u00e1-los, aliviam a carga fiscal dos propriet\u00e1rios. Seu plano \u00e9 instalar esses servos mortos nas listas fiscais de uma propriedade distante, em que ele vai, ent\u00e3o, ser capaz de obter uma hipoteca generosa do governo e sair com uma pequena fortuna. Certos aspectos da pandemia de covid-19 aqui no Brasil lembram o romance de Gogol.<\/p>\n<p>Ultrapassamos a marca de 600 mil mortes por covid-19, mantendo, por\u00e9m, uma m\u00e9dia de 500 \u00f3bitos por dia. Na sexta-feira, quando atingimos esse patamar, o ministro da Sa\u00fade, Marcelo Queiroga, deu uma entrevista coletiva minimizando o fato, para destacar que: (1) o governo est\u00e1 empenhado em viabilizar a terceira dose da vacina contra a covid-19 e (2) um n\u00famero muito maior de pessoas diagnosticadas com a doen\u00e7a se recuperou. De fato, cerca de 20,6 milh\u00f5es de pessoas tiveram covid-19 e sobreviveram; no momento, 285.032 est\u00e3o enfermas.<\/p>\n<p><strong>O trauma coletivo<\/strong><br \/>\nA forma burocr\u00e1tica da entrevista e a falta de empatia do ministro est\u00e3o em linha com a pol\u00edtica sanit\u00e1ria do governo federal. Contaminado na viagem do presidente Jair Bolsonaro \u00e0 ONU, mesmo sem sintomas, teve que fazer tr\u00eas semanas de quarentena em Nova York, para voltar ao Brasil. Sua desastrosa atua\u00e7\u00e3o durante a pandemia tamb\u00e9m est\u00e1 sendo investigada pela CPI do Senado. Os senadores dever\u00e3o concluir seus trabalhos nas pr\u00f3ximas semanas e, segundo o relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), as consequ\u00eancias ser\u00e3o inqu\u00e9ritos civis e criminais, a serem conduzidos pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, a Pol\u00edcia Federal e o Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU). O relator propor\u00e1 a demiss\u00e3o do ministro Queiroga e\/ou a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro, por crime de responsabilidade. Estamos no Brasil, a um ano das elei\u00e7\u00f5es, e o nosso pa\u00eds, como dizia o maestro Ant\u00f4nio Carlos Jobim, n\u00e3o \u00e9 para principiantes: nada de demiss\u00e3o nem impeachment.<\/p>\n<p>Nossa realidade vai al\u00e9m das obras de fic\u00e7\u00e3o. Muita incompet\u00eancia e espertezas macabras foram desnudadas pela CPI da Sa\u00fade, por\u00e9m, nada se aproxima tanto da hist\u00f3ria de Gogol como o caso macabro da Prevent S\u00eanior, empresa que se especializou no atendimento de idosos, em cuja estrat\u00e9gia de tratamento, al\u00e9m do \u201ckit cloroquina\u201d, nos casos graves, segundo den\u00fancias de m\u00e9dicos e pacientes, os \u201ccuidados paliativos\u201d seriam uma esp\u00e9cie de eutan\u00e1sia n\u00e3o consentida, para dizer o m\u00ednimo. O trauma coletivo da pandemia no Brasil \u00e9 irrevers\u00edvel, principalmente para os familiares e amigos desses 600 mil mortos por covid-19.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as ao SUS, milh\u00f5es de pacientes passaram pelas enfermarias dos hospitais, alguns com longas interna\u00e7\u00f5es. O que mudou no modo de vida e na forma de pensar dessas pessoas? O escritor alem\u00e3o Thomas Mann, cuja m\u00e3e era brasileira, ao descrever as pol\u00eamicas entre pacientes num sanat\u00f3rio de Davos, nos Alpes su\u00ed\u00e7os, fez um mosaico do que estava acontecendo na Europa \u00e0 beira da I Guerra Mundial. N\u2019<em>A montanha m\u00e1gica<\/em>, a tuberculose muda a no\u00e7\u00e3o de tempo durante a interna\u00e7\u00e3o, enquanto a vida segue o curso tr\u00e1gico da Hist\u00f3ria e m\u00e9dicos charlat\u00e3es oferecem aos ricos pacientes falsas op\u00e7\u00f5es de cura. Naquela \u00e9poca n\u00e3o existia a penicilina; hoje, temos tamb\u00e9m as vacinas contra a covid-19.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trauma vai muito al\u00e9m dos 600 mil mortos por covid-19. Milh\u00f5es de pacientes passaram pelas enfermarias. O que mudou no modo de vida e na forma de pensar dessas pessoas? \u201cDiga- me, m\u00e3ezinha, t\u00eam morrido camponeses seus? \u2014 Nem me fale paizinho \u2014 dezoito homens! 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