{"id":6259,"date":"2021-11-02T06:58:11","date_gmt":"2021-11-02T09:58:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6259"},"modified":"2021-11-02T06:58:11","modified_gmt":"2021-11-02T09:58:11","slug":"nas-entrelinhas-o-luto-dos-outros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-luto-dos-outros\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O luto dos outros"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>As v\u00edtimas da covid-19 foram sepultadas em caix\u00f5es lacrados, sem que amigos e familiares pudessem ver, pela \u00faltima vez, o rosto de seus entes queridos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Na cr\u00f4nica <em>A morte dos outros<\/em>, publicada no livro <em>Alta ajuda<\/em> (Foz Editora), o fil\u00f3sofo e professor Francisco Bosco \u2014 filho do cantor e compositor Jo\u00e3o Bosco \u2014 afirma que se uma divindade lhe desse a chance de fazer um \u00fanico pedido, n\u00e3o seria um pedido para a vida, mas para a morte. \u201cEu escolheria como morrer, ali\u00e1s, como n\u00e3o morrer: eu pediria que, entre as infinitas formas poss\u00edveis de encontrar a morte, eu fosse poupado unicamente de ser buscado por ela em um acidente de avi\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Segundo ele, todos sabemos que vamos morrer, mas o que torna suport\u00e1vel a nossa finitude \u00e9 ela ser indeterminada, porque n\u00e3o sabemos quando vamos morrer e, por isso, essa \u00e9 uma verdade encoberta, como uma doen\u00e7a indolor. Por isso, \u00e9 t\u00e3o aterrorizante ser desenganado por uma doen\u00e7a incur\u00e1vel e saber que os nossos dias est\u00e3o contados. Entretanto, Bosco n\u00e3o tem medo do perigo, da morte no mar ou mesmo num voo de asa delta, j\u00e1 levou at\u00e9 um tiro durante um assalto, mas n\u00e3o quer morrer num acidente a\u00e9reo:<\/p>\n<p>\u201cDeus n\u00e3o permita que eu morra em um avi\u00e3o. Um Airbus que n\u00e3o sei quem construiu, n\u00e3o sei quem nomeou, n\u00e3o sei quem abasteceu, n\u00e3o sei quem pilotou. Sentado espremido no meio de centenas de pessoas que eu n\u00e3o sei quem s\u00e3o. Emboscado por um c\u00e9u que n\u00e3o sei qual \u00e9. Emboscado por uma emboscada que n\u00e3o saberei qual \u00e9. E que n\u00e3o ter\u00e1 rosto. E que nem mesmo tocar\u00e1 a minha pele. Que me matar\u00e1 sem me conhecer. E que n\u00e3o poderei lutar. E de nada valer\u00e1 a for\u00e7a do meu corpo. Nem minha for\u00e7a moral. Nem toda a minha hist\u00f3ria. E assim nem serei um homem. Nem terei tempo de pensar no meu amor. E morrerei assim sem sentido. E ter-me-\u00e3o roubado a \u00fanica coisa que sempre tive: meu rosto sair\u00e1 nos jornais junto aos rostos dos demais, e minha morte ser\u00e1 apenas dos outros.\u201d<\/p>\n<p>De Plat\u00e3o e Epicuro a pensadores como Arthur Schopenhauer, S\u00f6ren Kierkegaard, Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger, a morte \u00e9 um tema recorrente na Filosofia. Nas religi\u00f5es, tem um lugar especialmente reservado: o dia de finados, que est\u00e1 associado ao luto eterno dos familiares e amigos pela perda do ente querido. Francisco Bosco \u00e9 um fil\u00f3sofo do nosso cotidiano, seu pavor em rela\u00e7\u00e3o aos acidentes de avi\u00e3o \u00e9 muito comum, a ponto de muitos passageiros terem s\u00edndrome de p\u00e2nico em pleno voo.<\/p>\n<p>O maior acidente a\u00e9reo do Brasil ocorreu em 17 de julho de 2007. Chocou o Brasil e o mundo. Ao aterrissar no aeroporto de Congonhas, em S\u00e3o Paulo, o Airbus A320-233 \u2014 usado no voo 3054, procedente de Porto Alegre \u2014 avan\u00e7ou al\u00e9m da pista, cruzou a Avenida Washington Lu\u00eds e se chocou com um posto de gasolina e com um pr\u00e9dio da pr\u00f3pria empresa respons\u00e1vel pela aeronave, a TAM (atual Latam). Morreram todos os 187 passageiros e tripulantes a bordo e outras 12 pessoas em solo, totalizando 199 \u00f3bitos.<\/p>\n<p><strong>Desastre sanit\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>T\u00e3o horroroso quanto o acidente de Congonhas foi o colapso dos hospitais de Manaus, entre abril e maio do ano passado, quando a cidade chegou a registrar 140 sepultamentos num \u00fanico dia, em cova rasa, contra uma m\u00e9dia de 30 \u00f3bitos di\u00e1rios. A maioria das mortes ocorreu por asfixia: faltou oxig\u00eanio nos hospitais da cidade para atender aos pacientes de covid-19.<\/p>\n<p>O desastre sanit\u00e1rio foi o coroamento de uma inepta gest\u00e3o do general Eduardo Pazuello no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, \u00e0 frente de uma equipe de militares despreparados. Sob comando do presidente Jair Bolsonaro, na base do \u201cele manda, eu obede\u00e7o\u201d, trataram a pandemia como uma \u201cgripezinha\u201d e acreditavam que a \u201cimuniza\u00e7\u00e3o de rebanho\u201d era a estrat\u00e9gia correta de combate \u00e0 pandemia. E que bastaria a cloroquina para mitigar os efeitos letais do v\u00edrus.<\/p>\n<p>O luto dos familiares e amigos das v\u00edtimas da pandemia equivale \u00e0 3.050 trag\u00e9dias de Congonhas, o que faz de hoje um finados ainda mais triste. As v\u00edtimas de covid-19 foram sepultadas em caix\u00f5es fechados, com os corpos lacrados, sem que amigos e familiares sequer pudessem ver, pela \u00faltima vez, o rosto de seus entes queridos. Em muitos casos, as mortes poderiam ter sido evitadas com isolamento social, m\u00e1scaras, \u00e1lcool em gel e, sobretudo, vacinas. Mas o luto dessas fam\u00edlias e de seus c\u00edrculos de amizade n\u00e3o morreu, ainda existe, porque o amor transcende a vida da pessoa amada. A pandemia est\u00e1 sendo controlada, mas o Brasil permanece enlutado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As v\u00edtimas da covid-19 foram sepultadas em caix\u00f5es lacrados, sem que amigos e familiares pudessem ver, pela \u00faltima vez, o rosto de seus entes queridos Na cr\u00f4nica A morte dos outros, publicada no livro Alta ajuda (Foz Editora), o fil\u00f3sofo e professor Francisco Bosco \u2014 filho do cantor e compositor Jo\u00e3o Bosco \u2014 afirma que se uma divindade lhe desse [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[722,4,92,972,113,9,3,71,193],"tags":[130,1055,737,839,733,725],"class_list":["post-6259","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencia","category-governo","category-literatura","category-memoria","category-militares","category-politica-2","category-politica","category-saude","category-transportes","tag-bolsonaro","tag-congonhas","tag-covid-19","tag-finados","tag-luto","tag-manaus"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6259","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6259"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6259\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6265,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6259\/revisions\/6265"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}