{"id":6294,"date":"2021-11-12T06:17:33","date_gmt":"2021-11-12T09:17:33","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6294"},"modified":"2021-11-12T06:17:33","modified_gmt":"2021-11-12T09:17:33","slug":"nas-entrelinhas-cristiana-lobo-cumpria-rito-todos-os-dias-atras-de-informacao-exclusiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-cristiana-lobo-cumpria-rito-todos-os-dias-atras-de-informacao-exclusiva\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Cristiana L\u00f4bo cumpria rito, todos os dias, atr\u00e1s de informa\u00e7\u00e3o exclusiva"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Como jornalista de pol\u00edtica, quebrou as barreiras do velho patriarcado e estabeleceu paradigmas para o trabalho das mulheres no jornalismo pol\u00edtico brasileiro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Acordei com maus pressentimentos e preocupado com o meu cora\u00e7\u00e3o bi\u00f4nico. Atualizei o blog e corri para a farm\u00e1cia para repor o estoque de medicamentos que me garantem uma vida quase normal, se \u00e9 que um jornalista pode ter uma rotina dessa ordem. Tomei o rem\u00e9dio no caf\u00e9 da manh\u00e3 e s\u00f3 ent\u00e3o liguei a tev\u00ea. Not\u00edcia terr\u00edvel: Cristiana L\u00f4bo havia morrido, v\u00edtima das complica\u00e7\u00f5es de uma pneumonia, fatal para quem j\u00e1 estava muito debilitada fisicamente por um c\u00e2ncer. Mesmo sabendo da gravidade de sua doen\u00e7a, n\u00e3o esperava que isso ocorresse. Ela era uma guerreira, cobriu a campanha presidencial de 2018 mesmo fazendo quimioterapia. Na \u00faltima vez que hav\u00edamos nos falado, por telefone, estava otimista.<\/p>\n<p>Cristiana L\u00f4bo foi grande rep\u00f3rter de pol\u00edtica, com muito mais quilometragem do que eu, apesar de cinco anos mais nova. Quando a conheci, estava fora das reda\u00e7\u00f5es, assessorava o l\u00edder do governo Itamar Franco na C\u00e2mara, o ent\u00e3o deputado federal Roberto Freire (Cidadania), meu amigo, e ela era colunista do jornal O Estado de S.Paulo. De certa forma, a conviv\u00eancia com Cristiana e outros jornalistas de sua gera\u00e7\u00e3o, como Ilimar Franco, Tales Faria, Expedito Filho, Maria Lima, Teresa Cruvinel e Helena Chagas, nessa passagem pelo Congresso, influenciaram minha volta \u00e0 reportagem pol\u00edtica pelas m\u00e3os de Ali Kamel, no jornal O Globo. Por causa da fam\u00edlia, n\u00e3o pude permanecer em Bras\u00edlia e fui trabalhar na sucursal de S\u00e3o Paulo, mas mantive contato com os colegas de Bras\u00edlia. O epicentro da cobertura das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1994 se deslocara para a capital paulista.<\/p>\n<p>Alguns anos depois, a convite de Josemar Gimenez, ent\u00e3o diretor de reda\u00e7\u00e3o do Correio, voltei para Bras\u00edlia, iniciando a trajet\u00f3ria que me fez colunista de pol\u00edtica. Desde ent\u00e3o, passamos a ter uma conviv\u00eancia quase di\u00e1ria, nos corredores do Pal\u00e1cio do Planalto e nos sal\u00f5es e plen\u00e1rios do Congresso. Foram horas e horas de conversas com colegas e fontes nos &#8220;cafezinhos&#8221; dos dois plen\u00e1rios. Os rep\u00f3rteres de pol\u00edtica de Bras\u00edlia formam uma esp\u00e9cie de c\u00edrculo de F\u00f3rmula 1, dif\u00edcil de entrar e muito f\u00e1cil de sair, no qual os profissionais circulam por diversos jornais ou passam a fazer parte da mob\u00edlia de uma reda\u00e7\u00e3o, como eu. Cristiana L\u00f4bo era pole position da not\u00edcia. Gostava de &#8220;furo&#8221; de reportagem e n\u00e3o tinha preconceitos com as fontes, mas sabia filtrar como ningu\u00e9m o fato entre as vers\u00f5es. Desculpem-me o trocadilho com o nome do programa que apresentava na Globo News.<\/p>\n<p><strong>Verdades e mentiras<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Ele meeente!&#8221; \u2014 quantas vezes ouvi esse coment\u00e1rio, ela rindo, depois de conversas e entrevistas, como a me advertir: tome cuidado com essas informa\u00e7\u00f5es. Plugada nos bastidores de Bras\u00edlia, gostava de trocar figurinhas com os colegas para avaliar a conjuntura e checar as informa\u00e7\u00f5es. Era bem-humorada, se divertia com as idiossincrasias e trapalhadas dos pol\u00edticos. Goianamente, contava &#8220;causos&#8221;, que, muitas vezes, iam parar na coluna de seu querido amigo Jorge Bastos Moreno, outro grande rep\u00f3rter.<br \/>\nTamb\u00e9m fazia parte de um grupo de jornalistas que frequentava a casa do ex-deputado Her\u00e1clito Fortes, uma das melhores fontes do Congresso, mesmo sem mandato. Espirituoso e bem informado, o pol\u00edtico piauense conseguia reunir pol\u00edticos influentes e jornalistas para conversas sem chatices, em torno de frugal culin\u00e1ria nordestina. Quantas vezes Cristiana L\u00f4bo saiu dos est\u00fadios da Rede Globo direto para esses encontros, no qual a alta gastronomia era a not\u00edcia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&#8220;Azedo, vem comigo ao Pal\u00e1cio do Planalto, quem sabe l\u00e1 tem not\u00edcia&#8221;. Cristiana cumpria um rito quase obrigat\u00f3rio todos os dias, um p\u00e9riplo pelos longos corredores da C\u00e2mara, do Senado e do Pal\u00e1cio do Planalto, atr\u00e1s de uma informa\u00e7\u00e3o exclusiva. Vez por outra, me chamava para acompanh\u00e1-la e conversar sobre a conjuntura pol\u00edtica, dividindo o acesso \u00e0s fontes, sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com isso. Tinha plena consci\u00eancia de sua vantagem estrat\u00e9gica, digamos assim, ao poder entrar no ar ao vivo na Globo, com o furo de reportagem, que seria a manchete de todos os jornais impressos no dia seguinte.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, meu celular tocava: &#8220;Azedo, voc\u00ea estar\u00e1 em Bras\u00edlia na sexta-feira? Gostaria que participasse do programa desta semana, gostei de sua coluna de hoje e pretendo tratar desse assunto&#8221;. Era Cristiana, generosa com os colegas, inclusive com os mais jovens. Valorizava as melhores coberturas, independentemente dos autores e seus ve\u00edculos. Quando o assunto da semana era economia, chamava algu\u00e9m que cobria o Minist\u00e9rio da Fazenda. A mesma coisa fazia se o centro das aten\u00e7\u00f5es era o meio ambiente, a educa\u00e7\u00e3o ou a pol\u00edtica externa.<\/p>\n<p>Como jornalista de pol\u00edtica, quebrou as barreiras do velho patriarcado e estabeleceu paradigmas para o trabalho das mulheres no jornalismo pol\u00edtico brasileiro. Acolheu e aconselhou colegas mais novas, abriu-lhes espa\u00e7os sem medo da concorr\u00eancia. Assim, revelou em seu programa uma nova gera\u00e7\u00e3o de comentaristas de pol\u00edtica, como Andreia Sadi, Natuza Nery, J\u00falia Duailib e Ana Flor, que hoje brilham na Globo News. Meus sentimentos ao Murilo e aos seus filhos, Barbara e Gustavo, e aos demais parentes e amigos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como jornalista de pol\u00edtica, quebrou as barreiras do velho patriarcado e estabeleceu paradigmas para o trabalho das mulheres no jornalismo pol\u00edtico brasileiro Acordei com maus pressentimentos e preocupado com o meu cora\u00e7\u00e3o bi\u00f4nico. 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