{"id":6299,"date":"2021-11-14T06:55:17","date_gmt":"2021-11-14T09:55:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6299"},"modified":"2021-11-14T16:01:46","modified_gmt":"2021-11-14T19:01:46","slug":"nas-entrelinhas-marighella-e-giocondo-historias-que-se-cruzam-na-resistencia-ao-regime-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-marighella-e-giocondo-historias-que-se-cruzam-na-resistencia-ao-regime-militar\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Marighella e Giocondo, hist\u00f3rias que se cruzam na resist\u00eancia ao regime militar"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Dois filmes e duas hist\u00f3rias que mostram um passado de radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que n\u00e3o deve se repetir<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Vale a pena ver o filme Marighella, dirigido por Wagner Moura, com Seu Jorge esbanjando talento na telona, no papel de Carlos Marighella, em 1969, no auge da atua\u00e7\u00e3o da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), o grupo guerrilheiro que liderava e foi dizimado pelo delegado S\u00e9rgio Fleury.<\/p>\n<p>Em contraponto, sugiro tamb\u00e9m o document\u00e1rio Giocondo Dias, Ilustre Clandestino, de Vladimir de Carvalho, dispon\u00edvel no Canal Brasil, que re\u00fane depoimentos sobre o l\u00edder comunista que substituiu Luiz Carlos Prestes na Secretaria-Geral do PCB. Ambos mostram um passado de radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que n\u00e3o deve se repetir.<\/p>\n<p>Moura dirigiu um blockbuster pol\u00edtico, que utiliza os recursos da fic\u00e7\u00e3o e dos filmes de a\u00e7\u00e3o para fazer um recorte hist\u00f3rico da vida de Carlos Marighella, inspirada na excelente biografia de Mario Magalh\u00e3es sobre o l\u00edder comunista carism\u00e1tico que arrastou para a luta armada jovens militantes do antigo PCB e um grupo de padres dominicanos.<\/p>\n<p>Carvalho fez um garimpo de imagens, a partir dos depoimentos de militantes que participaram do resgate de Giocondo Dias, o l\u00edder comunista clandestino que havia ficado isolado, ap\u00f3s o desmonte da estrutura do velho Partid\u00e3o, em 1975, quando 12 integrantes do Comit\u00ea Central foram assassinados e milhares de militantes foram presos.<\/p>\n<p>Marighella e Giocondo fizeram parte do chamado &#8220;grupo baiano&#8221;, que lideraria a reorganiza\u00e7\u00e3o do PCB no final do Estado Novo, em 1943, tecendo uma alian\u00e7a pragm\u00e1tica com Get\u00falio Vargas para o Brasil entrar na II Guerra Mundial contra o Eixo: Arm\u00eanio Guedes, Mois\u00e9s Vinhas, Aristeu Nogueira, Milton Ca\u00edres de Brito, Arruda C\u00e2mara, Le\u00f4ncio Basbaum, Alberto Passos Guimar\u00e3es, Jacob Gorender, Maur\u00edcio Grabois, Jos\u00e9 Praxedes, Osvaldo Peralva, Boris Tabakoff, Jorge Amado, Jo\u00e3o Falc\u00e3o, Fernando Santana, M\u00e1rio Alves e Ana Montenegro, nem todos baianos.<\/p>\n<p>O cabo Giocondo Dias era um mito comunista, somente ofuscado por Luiz Carlos Prestes. Havia liderado a tomada do poder em Natal (RN), no levante comunista de 1935, no qual Prestes fora preso. Na ocasi\u00e3o, levou tr\u00eas tiros de um dos comandados, ao proteger com o pr\u00f3prio corpo o governador do Rio Grande Norte, Rafael Fernandes Gurj\u00e3o, a quem Giocondo havia dado voz de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Escondido para se recuperar dos ferimentos, sobreviveria a 13 facadas, em luta corporal com um capanga do propriet\u00e1rio da fazenda onde estava. Preso, cumpriu um ano de cadeia at\u00e9 a anistia de 1937, a chamada &#8220;Macedada&#8221;, concedida para legitimar o golpe do Estado Novo. Essa experi\u00eancia influenciaria sua vis\u00e3o sobre a luta armada.<\/p>\n<p>Estudante de engenharia, Marighella largou a faculdade em 1934 para atuar no PCB no Rio de Janeiro, sendo preso a primeira vez em 1936. Tamb\u00e9m foi libertado na &#8220;Macedada&#8221;, por\u00e9m, acabou novamente preso em 1939 e foi libertado em 1945, com a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Voltou para a Bahia e se elegeu deputado federal, integrando a bancada comunista na Constituinte de 1946.<\/p>\n<p>Giocondo viria a ser eleito deputado estadual. Com a cassa\u00e7\u00e3o de seus mandatos, foi encarregado da seguran\u00e7a do l\u00edder comunista Luiz Carlos Prestes, na clandestinidade, enquanto Marighella se destacaria na lideran\u00e7a do PCB em S\u00e3o Paulo, durante os governos Dutra e Vargas.<\/p>\n<p><strong>As diverg\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a morte de Joseph Stalin, em 1953, com a realiza\u00e7\u00e3o do XX Congresso do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (PCUS), em 1956, a c\u00fapula do PCB entrou em crise. O Comit\u00ea Central somente se reuniria dois anos depois, para destituir a Executiva liderada por Arruda C\u00e2mara e Jo\u00e3o Amazonas, que mantivera em segredo as den\u00fancias dos crimes de Stalin feitas por Nikita Kruschov, o novo l\u00edder sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Giocondo, que fora um dos art\u00edfices da alian\u00e7a do PCB com Juscelino Kubitscheck (PSD) nas elei\u00e7\u00f5es de 1955, com Alberto Passos e Arm\u00eanio Guedes, articulou a Declara\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o de 1958, na qual o PCB assumiu o compromisso com a defesa da democracia. E emergiu da crise como segundo homem na hierarquia partid\u00e1ria, sob a lideran\u00e7a de Prestes. Giocondo e Marighella, por\u00e9m, divergiram quanto \u00e0 &#8220;pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o com imperialismo&#8221; de Juscelino.<\/p>\n<p>No governo Jango, Marighella defendeu a reforma agr\u00e1ria &#8220;na lei ou na marra&#8221;, Giocondo condenou o radicalismo das ligas camponesas. O primeiro apoiou a &#8220;revolta dos marinheiros&#8221;, o segundo considerou o movimento de cabo Anselmo uma provoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando os militares destitu\u00edram Jango, Marighella acreditou que bastaria o brigadeiro Francisco Teixeira bombardear as tropas do general Mour\u00e3o Filho, que marchavam em dire\u00e7\u00e3o ao Rio de Janeiro, para derrotar os golpistas, enquanto Prestes, o &#8220;Setor Mil&#8221; (militares da ativa), Giocondo e outros dirigentes conclu\u00edram que Jango estava politicamente derrotado e a resist\u00eancia armada resultaria num in\u00fatil de banho de sangue.<\/p>\n<p>Para Giocondo, a derrota da ditadura exigia longa resist\u00eancia, a partir da forma\u00e7\u00e3o de frente democr\u00e1tica, como de fato ocorreu. Inspirado na Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, Marighella acreditava que poderia transformar a derrubada do regime militar na revolu\u00e7\u00e3o socialista. Em tempo: \u00e0s v\u00e9speras do golpe de mar\u00e7o de 1964, Prestes articulava a reelei\u00e7\u00e3o de Jango.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois filmes e duas hist\u00f3rias que mostram um passado de radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que n\u00e3o deve se repetir Vale a pena ver o filme Marighella, dirigido por Wagner Moura, com Seu Jorge esbanjando talento na telona, no papel de Carlos Marighella, em 1969, no auge da atua\u00e7\u00e3o da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), o grupo guerrilheiro que liderava e foi dizimado pelo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[169,978,28,92,972,113,8,9,3,44,68],"tags":[122,138,351,1062,1061,121],"class_list":["post-6299","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinema","category-cuba","category-cultura","category-literatura","category-memoria","category-militares","category-partidos","category-politica-2","category-politica","category-terrorismo","category-violencia","tag-comunismo","tag-democracia","tag-ditadura","tag-giocondo","tag-marighela","tag-prestes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6299","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6299"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6299\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6311,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6299\/revisions\/6311"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6299"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6299"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6299"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}