{"id":6409,"date":"2021-12-31T07:02:59","date_gmt":"2021-12-31T10:02:59","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6409"},"modified":"2021-12-31T07:02:59","modified_gmt":"2021-12-31T10:02:59","slug":"nas-entrelinhas-no-ano-que-vem-a-gente-nao-morre-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-no-ano-que-vem-a-gente-nao-morre-mais\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: No ano que vem a gente n\u00e3o morre mais"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, numa \u00e9poca de confraterniza\u00e7\u00f5es, como foi o Natal e ser\u00e1 o ano-novo, puxar o freio de m\u00e3o nas comemora\u00e7\u00f5es coletivas. Mas \u00e9 preciso cuidado<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A m\u00fasica Sujeito de sorte, de Belchior, foi um dos hits de 2021, na voz de Emicida, Maju e Pablo Vittar, desde que a velha can\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum Alucina\u00e7\u00e3o foi sampleada pelo rapper paulista no \u00e1lbum AmarElo, ganhador do Grammy Latino. A grava\u00e7\u00e3o ao vivo, no Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo, lotado de moradores da periferia de S\u00e3o Paulo, deu origem a um excelente document\u00e1rio, uma boa pedida para quem ainda n\u00e3o viu e n\u00e3o quer \u201colhar pra cima\u201d (ou j\u00e1 olhou) nessa virada de ano. Emicida se destaca n\u00e3o apenas por sua atua\u00e7\u00e3o art\u00edstica, mas tamb\u00e9m por suas ideias generosas, que trazem para o centro do debate a realidade das periferias urbanas e puxam os fios de hist\u00f3ria que ligam o hip hop brasileiro ao nosso samba tradicional.<\/p>\n<p>O sucesso da regrava\u00e7\u00e3o de Sujeito de sorte tem a ver com os tempos de c\u00f3lera pol\u00edtica e de pandemia que estamos vivendo: \u201cPresentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte\/ Porque apesar de muito mo\u00e7o me sinto s\u00e3o e salvo e forte\/ E tenho comigo pensado\/ Deus \u00e9 brasileiro e anda do meu lado\/ E assim j\u00e1 n\u00e3o posso sofrer no ano passado\/ Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro\/ Ano passado eu morri mas esse ano eu n\u00e3o morro\/ Ano passado eu morri mas esse ano eu n\u00e3o morro\/Ano passado eu morri mas esse ano eu n\u00e3o morro\u201d.<\/p>\n<p>Esses versos da can\u00e7\u00e3o de Belchior s\u00e3o atribu\u00eddos ao mitol\u00f3gico cantador Z\u00e9 Limeira (1886-1954), um repentista analfabeto, nascido em Teixeira, na Para\u00edba, imbat\u00edvel nos seus improvisos surrealistas, segundo o jornalista Orlando Tejo, seu conterr\u00e2neo, autor do livro \u201cZ\u00e9 Limeira \u2013 O Poeta do Absurdo\u201d, publicado em 1973. O repentista dominava a rima e a m\u00e9trica, mas n\u00e3o dava a m\u00ednima para a ora\u00e7\u00e3o, o que era considerado um insulto pelos cantadores de sua \u00e9poca. Entretanto, fazia muito sucesso de p\u00fablico, perambulando pelos sert\u00f5es nordestinos, em jornadas de at\u00e9 60 quil\u00f4metros a p\u00e9, num dia, para participar de desafios com outros cantadores famosos, como o Cego Aderaldo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o sucesso de Belchior, Tejo pleiteou a autoria dos versos, o que gera grandes controv\u00e9rsias. N\u00e3o havia documenta\u00e7\u00e3o sobre a obra de Z\u00e9 Limeira, cuja vida foi romanceada por Tejo, um defensor da m\u00e9trica, com suposto prop\u00f3sito de provocar os poetas concretistas. N\u00e3o importa, a distopia sertaneja de Z\u00e9 Limeira influenciou outros artistas, como Belchior e Z\u00e9 Ramalho, e tem tudo a ver com o momento que o pa\u00eds est\u00e1 vivendo, inclusive nessa passagem de ano, na qual uma epidemia de Influenza (H3N2) tomou de assalto as nossas cidades, lotando as emerg\u00eancias do SUS, e a nova variante da Covid-19, a sul-africana \u00d4micro est\u00e1 chegando com tudo, sem que o pa\u00eds esteja devidamente preparado para ela.<\/p>\n<p><b>Pensamento positivo<\/b><br \/>\nTr\u00eas doses no bra\u00e7o da maioria dos velhinhos e outros grupos de risco e uma variante aparentemente menos letal, embora altamente transmiss\u00edvel, n\u00e3o justificam as medidas adotadas por Marcelo Queiroga, o falso ministro da Sa\u00fade, e Milton Ribeiro, o da (des)Educa\u00e7\u00e3o, contra a vacina\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e a obrigatoriedade de apresenta\u00e7\u00e3o do certificado de vacina\u00e7\u00e3o nas escolas, respectivamente. S\u00e3o dois negacionistas alinhados com o presidente Jair Bolsonaro, que novamente erra no diagn\u00f3stico da pandemia (talvez pense: agora sim, a \u00d4micron \u00e9 uma \u201cgripezinha), e aposta outra vez na \u201cimuniza\u00e7\u00e3o de rebanho\u201d para n\u00e3o atrapalhar a economia.<\/p>\n<p>Essa pol\u00edtica nos levou a 618 mil mortos at\u00e9 agora. A nova onda da pandemia precisa ser tratada sem alarmismo, mas com responsabilidade, ou seja, com medidas adequadas: vacina\u00e7\u00e3o em massa, uso generalizado de m\u00e1scaras, asseio permanente das m\u00e3os e distanciamento social. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, numa \u00e9poca de confraterniza\u00e7\u00f5es, como foi Natal e ser\u00e1 o ano-novo, puxar o freio de m\u00e3o nas comemora\u00e7\u00f5es coletivas. Mas a realidade j\u00e1 est\u00e1 mostrando que \u00e9 preciso cuidado redobrado, ainda mais quando o pr\u00f3prio governo federal sabota a sa\u00fade p\u00fablica e exp\u00f5e a popula\u00e7\u00e3o aos seus desatinos.<\/p>\n<p>Entretanto, eis a outra face do Brasil, aquela que vai \u00e0 luta por dias melhores, que adota os devidos cuidados e resiste nos pequenos neg\u00f3cios, nas atividades agr\u00edcolas, industriais e de servi\u00e7os, na cultura e nas atividades essenciais, entre as quais as da sa\u00fade, da limpeza urbana, da seguran\u00e7a p\u00fablica e tantas outras, sem as quais seria imposs\u00edvel os encontros familiares na passagem de ano. Esque\u00e7am o presidente Jair Bolsonaro e seus passeios de jet sky, oremos por milhares de pessoas que chapinham na lama para tentar salvar o que lhes restam de bens, ap\u00f3s as enchentes na Bahia, ou buscam socorro m\u00e9dico nas emerg\u00eancias do SUS em todo o pa\u00eds. Como o sertanejo Z\u00e9 Limeira, vamos pensar positivamente em 2021: ano que vem a gente n\u00e3o morre mais.<\/p>\n<p><strong>Feliz ano-novo!<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, numa \u00e9poca de confraterniza\u00e7\u00f5es, como foi o Natal e ser\u00e1 o ano-novo, puxar o freio de m\u00e3o nas comemora\u00e7\u00f5es coletivas. Mas \u00e9 preciso cuidado A m\u00fasica Sujeito de sorte, de Belchior, foi um dos hits de 2021, na voz de Emicida, Maju e Pablo Vittar, desde que a velha can\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum Alucina\u00e7\u00e3o foi sampleada pelo rapper [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[176,722,28,36,38,371,4,972,9,3,71],"tags":[1092,130,367,888,644,259],"class_list":["post-6409","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cidades","category-ciencia","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-etica","category-governo","category-memoria","category-politica-2","category-politica","category-saude","tag-bahia","tag-bolsonaro","tag-educacao","tag-emicida","tag-pandemia","tag-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6409","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6409"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6409\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6414,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6409\/revisions\/6414"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6409"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6409"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6409"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}