{"id":6424,"date":"2022-01-04T05:44:30","date_gmt":"2022-01-04T08:44:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6424"},"modified":"2022-01-04T05:56:31","modified_gmt":"2022-01-04T08:56:31","slug":"nas-entrelinhas-no-bicentenario-o-brasil-volta-a-encruzilhada-do-destino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-no-bicentenario-o-brasil-volta-a-encruzilhada-do-destino\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: No Bicenten\u00e1rio, o Brasil volta \u00e0 encruzilhada do destino"},"content":{"rendered":"<h4><em>A chave da pol\u00edtica brasileira \u00e9 a concilia\u00e7\u00e3o, mas nossa hist\u00f3ria social \u00e9 cruenta. A miscigena\u00e7\u00e3o \u00e9 que consolidou a ideia de um s\u00f3 povo e uma s\u00f3 na\u00e7\u00e3o<\/em><\/h4>\n<p>Uma na\u00e7\u00e3o \u00e9 formada, historicamente, de territ\u00f3rio, popula\u00e7\u00e3o, Estado, idioma e identidade comum, para a qual a literatura \u00e9 sua refer\u00eancia mais importante. N\u00e3o \u00e0 toa, Machado de Assis \u00e9 um totem da nossa cultura. Entretanto, h\u00e1 aqueles que imaginam que tudo aqui est\u00e1 fora do lugar. O debate proposto, em 1920, por Oliveira Viana, sobre as nossas institui\u00e7\u00f5es republicanas, 100 anos depois, est\u00e1 viv\u00edssimo. Seu Popula\u00e7\u00f5es Meridionais do Brasil arrancou aplausos un\u00e2nimes na \u00e9poca, com exce\u00e7\u00e3o de Astrojildo Pereira \u2014 que defendia a industrializa\u00e7\u00e3o e condenou suas teses racistas \u2014, um intelectual de origem anarquista, que viria a fundar o Partido Comunista, em mar\u00e7o de 1922.<\/p>\n<p class=\"texto\">O Centen\u00e1rio da Independ\u00eancia foi um ano do balacobaco. Desnudou mudan\u00e7as em curso no mundo e no Brasil, balan\u00e7ou os alicerces da Primeira Rep\u00fablica. O otimismo da belle \u00e9poque fora substitu\u00eddo pelo trauma da I Guerra Mundial (1914-1918), o comunismo rondava o mundo ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917. Ambi\u00e7\u00f5es civilizat\u00f3rias levaram o presidente Epit\u00e1cio Pessoa a mudar a face da capital federal para celebrar a data e sediar a Exposi\u00e7\u00e3o Universal do Rio de Janeiro. Em S\u00e3o Paulo, houve a pol\u00eamica Semana de Arte Moderna.<\/p>\n<p class=\"texto\">Que pa\u00eds era esse? Com suas greves nas principais cidades, os sindicatos ganharam for\u00e7a. O povo queria melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho. A economia da Primeira Rep\u00fablica (1889-1930), regida pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1891, estava mal das pernas. E lideran\u00e7as militares, que n\u00e3o reconheciam a derrota do candidato oposicionista Nilo Pe\u00e7anha nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de mar\u00e7o, queriam impedir que Artur Bernardes assumisse a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, em novembro.<\/p>\n<p class=\"texto\">A pris\u00e3o do presidente do Clube Militar, marechal Hermes da Fonseca, provocou um levante militar, logo debelado. Por\u00e9m, um grupo de jovens oficiais do Ex\u00e9rcito resolveu enfrentar, em plena praia de Copacabana, as for\u00e7as legais. Foram fuzilados. Sobreviveram apenas Eduardo Gomes e Siqueira Campos. O governo decretou o estado de s\u00edtio, os militares envolvidos foram presos e processados. Foi a g\u00eanese do movimento tenentista.<\/p>\n<p class=\"texto\">Nesse contexto, Oliveira Vianna concluiu que era imposs\u00edvel reproduzir no Brasil o parlamentarismo ingl\u00eas, o liberalismo democr\u00e1tico franc\u00eas, o federalismo e a descentraliza\u00e7\u00e3o \u00e0 americana, que apenas refor\u00e7aram &#8220;a anarquia branca, o predom\u00ednio das oligarquias e o risco de fragmenta\u00e7\u00e3o&#8221;. Defendia &#8220;contravir intensivamente \u00e0s ideias de liberdade&#8221; e construir um Estado capaz de se impor a todo o pa\u00eds, inspirado nos &#8220;reacion\u00e1rios audazes que salvaram o Imp\u00e9rio&#8221;. Suas ideias embalaram a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, serviram de alicerce para o Estado Novo, em 1937, e inspiraram os l\u00edderes do regime de militar (1964-1985). Infelizmente, renasceram das cinzas com a elei\u00e7\u00e3o do presidente Jair Bolsonaro.<\/p>\n<h4>Iniquidade social<\/h4>\n<p class=\"texto\">A chave da pol\u00edtica brasileira \u00e9 a concilia\u00e7\u00e3o, mas nossa hist\u00f3ria social \u00e9 cruenta. &#8220;Entre \u00edndios convertidos e os selvagens, os negros escravos, libertos, africanos e crioulos, os brancos rein\u00f3is e os mazombos, os mamelucos, os mulatos e os cafuzos, diversos e conflitantes, venceram os conciliadores&#8221;, dizia o mestre Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues, em Concilia\u00e7\u00e3o e reforma no Brasil. Apesar de tantos pelourinhos, quilombos, motins, revoltas, repress\u00f5es sangrentas, fuzilamentos, enforcamentos, esquartejamentos, guerras e guerrilhas, a miscigena\u00e7\u00e3o consolidou a ideia de um s\u00f3 povo e uma s\u00f3 na\u00e7\u00e3o, muito mais do que a concilia\u00e7\u00e3o das elites para se manter no poder, perpetuar o patrimonialismo, a pol\u00edtica de compadrio e clientela, e a exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p class=\"texto\">Por conveni\u00eancia, quase n\u00e3o se fala das lutas cruentas: Balaiada (1838-41); Cabanagem (1835-40); Sabinada (1837-38); Levante dos Mal\u00eas (1835); Cabanada (1832-35); Guerra dos Farrapos (1835-45). Houve as ditaduras de Vargas (1937-45) e dos militares (1964-84), com seus assassinatos, pris\u00f5es e torturas. A aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o mudou o modo de produ\u00e7\u00e3o e derrubou o Imp\u00e9rio, mas a Rep\u00fablica manteve, at\u00e9 hoje, a iniquidade social desnudada pela Guerra de Canudos (1896-97) mesmo nos grandes ciclos de moderniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"texto\">Na ditadura Vargas, com a moderniza\u00e7\u00e3o do Estado, a quest\u00e3o oper\u00e1ria deixou de ser um caso de pol\u00edcia, mas a pol\u00edtica passou a ser. Os governos de Juscelino Kubitschek e de Fernando Henrique Cardoso reformaram o Estado e modernizaram a economia em bases democr\u00e1ticas, mas a velha desigualdade social continuou na ordem do dia. Mesmo no governo Lula, que atacou o problema da mis\u00e9ria absoluta, a mudan\u00e7a social acabou abduzida pelo transformismo pol\u00edtico. As ideias de Oliveira Vianna est\u00e3o viv\u00edssimas desde a elei\u00e7\u00e3o do presidente Jair Bolsonaro, um saudosista do regime militar, que termina o primeiro mandato nos bra\u00e7os do Centr\u00e3o. Confronto ou concilia\u00e7\u00e3o, atraso ou reformas, autoritarismo ou democracia. Neste Bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia, nossa na\u00e7\u00e3o est\u00e1 numa nova encruzilhada do destino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A chave da pol\u00edtica brasileira \u00e9 a concilia\u00e7\u00e3o, mas nossa hist\u00f3ria social \u00e9 cruenta. A miscigena\u00e7\u00e3o \u00e9 que consolidou a ideia de um s\u00f3 povo e uma s\u00f3 na\u00e7\u00e3o Uma na\u00e7\u00e3o \u00e9 formada, historicamente, de territ\u00f3rio, popula\u00e7\u00e3o, Estado, idioma e identidade comum, para a qual a literatura \u00e9 sua refer\u00eancia mais importante. 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