{"id":6458,"date":"2022-01-18T06:55:23","date_gmt":"2022-01-18T09:55:23","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6458"},"modified":"2022-01-18T06:55:23","modified_gmt":"2022-01-18T09:55:23","slug":"nas-entrelinhas-bolsonaro-perdeu-a-guerra-porque-contrariou-o-bom-senso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-bolsonaro-perdeu-a-guerra-porque-contrariou-o-bom-senso\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Bolsonaro perdeu a guerra porque contrariou o bom senso"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Para 59% da popula\u00e7\u00e3o, sabotou a imuniza\u00e7\u00e3o. Esse resultado, obviamente, ter\u00e1 s\u00e9rias consequ\u00eancias eleitorais;\u00a081% s\u00e3o a favor da exig\u00eancia do &#8220;passaporte de vacina&#8221; em locais fechados<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No come\u00e7o do s\u00e9culo passado, por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es, houve uma grande revolta popular no Rio de Janeiro contra a vacina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. O epis\u00f3dio, por\u00e9m, \u00e9 um marco contra a ignor\u00e2ncia e o negacionismo da ci\u00eancia. \u00c0quela \u00e9poca, a antiga capital era uma cidade insalubre, em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica, na qual proliferavam doen\u00e7as contagiosas: tuberculose, peste bub\u00f4nica, febre amarela, var\u00edola, mal\u00e1ria, tifo, c\u00f3lera etc. O presidente Rodrigues Alves resolveu realizar uma s\u00e9rie de reformas urbanas para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida da ent\u00e3o capital, a cargo do engenheiro Pereira Passo, que alargou ruas e removeu corti\u00e7os, desalojando a popula\u00e7\u00e3o; o mais miser\u00e1vel. Diretor-geral de Sa\u00fade P\u00fablica desde 1903, o m\u00e9dico Oswaldo Cruz assumiu o cargo com a miss\u00e3o de implementar o saneamento p\u00fablico e erradicar a febre amarela, a peste bub\u00f4nica e a var\u00edola, principalmente.<\/p>\n<p>Com essa inten\u00e7\u00e3o, em 1904, o governo prop\u00f4s a obrigatoriedade da vacina\u00e7\u00e3o, lei aprovada em 31 de outubro, apesar dos protestos, inclusive um abaixo-assinado com 18 mil assinaturas, muito para aquela \u00e9poca. A lei exigia comprovantes de vacina\u00e7\u00e3o para realizar matr\u00edculas nas escolas, assim como para obten\u00e7\u00e3o de empregos, viagens, hospedagens e casamentos. Previa multas para quem n\u00e3o se vacinasse. O povo se revoltou, estimulado pelos pol\u00edticos de oposi\u00e7\u00e3o. A confus\u00e3o come\u00e7ou no Largo do S\u00e3o Francisco e se espalhou de Copacabana ao Engenho Novo, com quebra-quebras, tiros, barricadas. O saldo foi de 945 pessoas na Ilha de Cobras, 30 mortos, 110 feridos e 461 deporta\u00e7\u00f5es para o estado do Acre. Historiadores avaliam que a pol\u00edtica higienista e a forma autorit\u00e1ria como foi imposta a vacina\u00e7\u00e3o causaram a revolta, al\u00e9m do fato de que a vacina\u00e7\u00e3o de mulheres era vista como uma amea\u00e7a \u00e0 honra machista.<\/p>\n<p>Quase 120 anos depois, a vacina\u00e7\u00e3o em massa no Brasil \u00e9 uma pol\u00edtica de sa\u00fade p\u00fablica muito bem-sucedida. \u00c9 resultado de muitas campanhas de vacina\u00e7\u00e3o, entre as quais se destacam: (1) a campanha contra a meningite na d\u00e9cada de 1970, quando uma epidemia matou milhares de crian\u00e7as e o ent\u00e3o regime militar tentou escond\u00ea-la; e (2) a campanha contra a poliomielite, que praticamente erradicou a paralisia infantil, por\u00e9m, na d\u00e9cada de 1980, foi objeto de uma grande pol\u00eamica entre o general Jo\u00e3o Batista Figueiredo e o criador da vacina, Albert Sabin, por causa da subnotifica\u00e7\u00e3o dos casos de poliomielite. Ontem, o DataFolha divulgou pesquisa de opini\u00e3o amplamente favor\u00e1vel \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o contra a covid-19, inclusive das crian\u00e7as. \u00c9 uma vit\u00f3ria do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) e do nosso modelo federativo, que neutralizou a desastrada pol\u00edtica do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, gra\u00e7as \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de governadores e prefeitos. Est\u00e3o com vacina\u00e7\u00e3o completa 75% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Donas de casa<\/strong><\/p>\n<p>Os n\u00fameros tamb\u00e9m s\u00e3o acachapantes contra o negacionismo do presidente Jair Bolsonaro, que at\u00e9 hoje n\u00e3o se vacinou e n\u00e3o pretende imunizar a filha de 11 anos: 81% dos entrevistados s\u00e3o a favor da exig\u00eancia do &#8220;passaporte de vacina&#8221; para que seja liberada a entrada em locais fechados como bares, restaurantes e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, entre outros. Apenas 18% s\u00e3o contra a exig\u00eancia do comprovante, e 1% n\u00e3o soube responder. Os mais favor\u00e1veis ao passaporte s\u00e3o mulheres (87%), pessoas com mais de 60 anos (87%), com ensino fundamental completo (86%) e aqueles que ganham at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos por m\u00eas (85%). Os maiores grupos negacionistas est\u00e3o estre os homens (24%), pessoas de 25 a 34 anos (22%) e aqueles que t\u00eam renda mensal de mais de 10 sal\u00e1rios m\u00ednimos (28%). No Sudeste, 84% s\u00e3o favor\u00e1veis \u00e0 medida; no Sul, 75%. As donas de casa (90%) s\u00e3o as mais entusiastas da vacina\u00e7\u00e3o; entre as empres\u00e1rias, 60%.<\/p>\n<p>Como a oposi\u00e7\u00e3o a Rodrigues Alves e Oswaldo Cruz, Bolsonaro perdeu a guerra da vacina. Para 59% da popula\u00e7\u00e3o, sabotou a imuniza\u00e7\u00e3o. Esse resultado, obviamente, ter\u00e1 s\u00e9rias consequ\u00eancias eleitorais, mesmo com a resili\u00eancia dos setores que apoiam tudo o que Bolsonaro prop\u00f5e, inclusive quando afronta o &#8220;bom senso&#8221;. Nesse aspecto, a vacina\u00e7\u00e3o deve ser objeto de uma reflex\u00e3o pol\u00edtica mais ampla, que nos remete ao comportamento da maioria da popula\u00e7\u00e3o. De certo modo, na elei\u00e7\u00e3o de 2018, Bolsonaro explorou com muito \u00eaxito o &#8220;senso comum&#8221; da maioria dos eleitores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crise \u00e9tica que atingia em cheio o nosso sistema pol\u00edtico, sobretudo os partidos.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma grande diferen\u00e7a, por\u00e9m, entre &#8220;senso comum&#8221; e &#8220;bom senso&#8221;. O primeiro \u00e9 uma postura passiva e acomodada, que segue crit\u00e9rios, comportamentos e modos de agir tradicionais na sociedade. Bolsonaro soube us\u00e1-lo com maestria, principalmente nos temas relacionados \u00e0 mudan\u00e7a de costumes e \u00e0 defesa da fam\u00edlia unicelular patriarcal. O &#8220;bom senso&#8221;, ao contr\u00e1rio, leva ao reposicionamento cr\u00edtico, porque resulta de certa sabedoria popular e de uma compreens\u00e3o da realidade tal como ela \u00e9, como o das donas de casa ouvidas na pesquisa. N\u00e3o resulta de conclus\u00f5es de car\u00e1ter ideol\u00f3gico, por exemplo. Quando confrontou o bom senso da sociedade, Bolsonaro perdeu a guerra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para 59% da popula\u00e7\u00e3o, sabotou a imuniza\u00e7\u00e3o. Esse resultado, obviamente, ter\u00e1 s\u00e9rias consequ\u00eancias eleitorais;\u00a081% s\u00e3o a favor da exig\u00eancia do &#8220;passaporte de vacina&#8221; em locais fechados No come\u00e7o do s\u00e9culo passado, por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es, houve uma grande revolta popular no Rio de Janeiro contra a vacina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. O epis\u00f3dio, por\u00e9m, \u00e9 um marco contra a ignor\u00e2ncia e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[176,722,28,38,980,4,972,3,9,115,71],"tags":[130,737,841,878],"class_list":["post-6458","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cidades","category-ciencia","category-cultura","category-educacao","category-eleicoes-2","category-governo","category-memoria","category-politica","category-politica-2","category-rio-de-janeiro","category-saude","tag-bolsonaro","tag-covid-19","tag-vacinas","tag-pesquisa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6458","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6458"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6458\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6465,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6458\/revisions\/6465"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6458"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6458"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6458"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}