{"id":6505,"date":"2022-02-02T07:41:11","date_gmt":"2022-02-02T10:41:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6505"},"modified":"2022-02-02T07:54:36","modified_gmt":"2022-02-02T10:54:36","slug":"nas-entrelinhas-a-politica-mundial-caminha-no-sentido-anti-horario-no-brasil-tambem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-politica-mundial-caminha-no-sentido-anti-horario-no-brasil-tambem\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A pol\u00edtica mundial caminha no sentido anti-hor\u00e1rio; no Brasil, tamb\u00e9m."},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Caso Lula fa\u00e7a seu aggiornamento, a estrat\u00e9gia de seus concorrentes no campo democr\u00e1tico n\u00e3o passar\u00e1 da mera busca de sobreviv\u00eancia na trincheira parlamentar<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Desde a elei\u00e7\u00e3o do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a pol\u00edtica mundial caminha no sentido anti-hor\u00e1rio. As recentes elei\u00e7\u00f5es chilenas e, neste fim de semana, os pleitos portugueses mostram isso. A onda eleitoral favor\u00e1vel \u00e0s for\u00e7as mais conservadoras e reacion\u00e1rias, em v\u00e1rios pa\u00edses da Europa e da Am\u00e9rica Latina, foi contida em raz\u00e3o de fatores que tamb\u00e9m est\u00e3o se apresentando nas elei\u00e7\u00f5es brasileiras. Primeiro: indiscutivelmente, a pandemia de covid-19 desorganizou a economia e escancarou as desigualdades sociais num quesito b\u00e1sico, o direito \u00e0 vida. Segundo: o novo choque de petr\u00f3leo, patrocinado pela Opep, pela R\u00fassia e pela Venezuela, grandes produtores mundiais. Terceiro: a economia do carbono est\u00e1 tornando a vida humana no planeta muito mais dif\u00edcil e amea\u00e7a o futuro da esp\u00e9cie. Quarto: a compreens\u00e3o no Ocidente de que n\u00e3o existe salva\u00e7\u00e3o fora da democracia, por sinal, muito bem lembrada em 27 de janeiro passado, em mem\u00f3ria do Holocausto.<\/p>\n<p>\u00c9 uma corrida contra o tempo, porque o mundo est\u00e1 mudando em raz\u00e3o das novas tecnologias e sua utiliza\u00e7\u00e3o em grande escala, mas essas mudan\u00e7as est\u00e3o aprofundando o fosso entre o centro e a periferia do capitalismo e entre ricos e pobres, em todas as sociedades, algumas menos, a maioria mais, o que coloca em risco a pr\u00f3pria democracia. O status quo internacional herdado do p\u00f3s II Guerra Mundial est\u00e1 sendo posto em xeque, como agora, na crise da Ucr\u00e2nia, que, mais uma vez, confirma a tese de J\u00fcrgen Habermas, um fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo alem\u00e3o, de descongelamento do pacto de fronteiras tecido na Confer\u00eancia de Yalta, na Crim\u00e9ia, que na \u00e9poca ainda era territ\u00f3rio da R\u00fassia. Realizado entre os dias 4 e 11 de fevereiro de 1945, o encontro reuniu o presidente americano Franklin Roosevelt, o premi\u00ea brit\u00e2nico Winston Churchill e o l\u00edder sovi\u00e9tico Joseph St\u00e1lin. Desde a queda do Muro de Berlim, velhos conflitos entre na\u00e7\u00f5es e povos da Europa est\u00e3o sendo exumados.<\/p>\n<p>Estamos diante de uma nova &#8220;guerra fria&#8221;, na qual os Estados Unidos est\u00e3o abrindo duas frentes de fric\u00e7\u00e3o: uma na \u00c1sia, aliado a Taiwan e ao Jap\u00e3o, contra a China; a outra, no Leste Europeu, aliado \u00e0 Inglaterra e \u00e0 Ucr\u00e2nia, contra a R\u00fassia. \u00c9 nesse cen\u00e1rio que agora se desenvolve a corrida mundial para reinventar o Estado e a disputa pela hegemonia da nova economia mundial, que substituir\u00e1 o carbono pela energia limpa. Esse \u00e9, tamb\u00e9m, o pano de fundo da disputa pol\u00edtica que est\u00e1 em curso no Brasil, em raz\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es de outubro pr\u00f3ximo. A polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que estamos observando nas elei\u00e7\u00f5es faz parte desse contexto.<\/p>\n<p>Bolsonaro representa as for\u00e7as mais conservadoras desse processo, com as quais est\u00e1 se articulando internacionalmente, embora tenha perdido seus principais aliados na cena mundial, com as derrotas de Donald Trump, nos Estados Unidos, e Benjamin Netanyahu, em Israel. No outro lado do campo, o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva se esfor\u00e7a para ocupar o espa\u00e7o das for\u00e7as de centro, embora sua candidatura seja essencialmente de uma esquerda tradicional. O reposicionamento de Lula n\u00e3o ocorre por acaso. O ex-presidente est\u00e1 conectado a lideran\u00e7as importantes da Europa e sabe que o desafio de incorporar o Brasil \u00e0 nova realidade global depende de novos paradigmas e n\u00e3o do velho nacional-desenvolvimentismo. Ser\u00e1 capaz de fazer isso?<\/p>\n<p><strong>Desafios ao centro<\/strong><\/p>\n<p>De certa forma, o destino das for\u00e7as pol\u00edticas que buscam a constru\u00e7\u00e3o de uma terceira via nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais depende dessa resposta. Caso Lula fa\u00e7a seu aggiornamento, a estrat\u00e9gia de seus concorrentes no campo democr\u00e1tico n\u00e3o passar\u00e1 da mera busca de sobreviv\u00eancia na trincheira parlamentar. A massa cr\u00edtica adquirida por sua candidatura nas camadas de mais baixa renda, beneficiadas durante seu governo, sustenta a polariza\u00e7\u00e3o com o presidente Jair Bolsonaro, cuja posi\u00e7\u00e3o segura no segundo turno est\u00e1 amea\u00e7ada, mas n\u00e3o a ponto de se tornar irrevers\u00edvel. Em raz\u00e3o da for\u00e7a do Estado brasileiro e das corpora\u00e7\u00f5es e segmentos da sociedade que se identificam com sua narrativa, Bolsonaro ainda garante seu lugar no segundo turno.<\/p>\n<p>Os demais candidatos de oposi\u00e7\u00e3o enfrentam duas grandes dificuldades: a fragmenta\u00e7\u00e3o do seu campo de for\u00e7as, que funciona como um balaio de caranguejos, ou seja, quando um pr\u00e9-candidato tenta fugir do cesto, o outro o puxa para baixo; e a aus\u00eancia de uma narrativa eleitoral robusta, que consiga sensibilizar a grande massa do eleitorado refrat\u00e1ria \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o e oferecer propostas exequ\u00edveis para a retomada do desenvolvimento.<\/p>\n<p>Teoricamente, Ciro Gomes (PDT), Sergio Moro (Podemos), Jo\u00e3o Doria (PSDB), Andr\u00e9 Janones (Avante), Simone Tebet (MDB), Alessandro Vieira (Cidadania), Rodrigo Pacheco (PSD) e Felipe d&#8217;\u00c1vila (Novo), protagonistas da fragmenta\u00e7\u00e3o, podem enfrentar esse problema. Para isso, precisam promover, sinceramente, uma composi\u00e7\u00e3o dessas for\u00e7as em bases eleitorais sustent\u00e1veis; formular um programa comum, que d\u00ea respostas \u00e0 necessidade de fortalecer a democracia e desenvolver o pa\u00eds de forma sustent\u00e1vel e integrada \u00e0 economia mundial; e defender o combate efetivo \u00e0 desigualdade e \u00e0 exclus\u00e3o social, com metas claras e exequ\u00edveis. Parece f\u00e1cil, mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caso Lula fa\u00e7a seu aggiornamento, a estrat\u00e9gia de seus concorrentes no campo democr\u00e1tico n\u00e3o passar\u00e1 da mera busca de sobreviv\u00eancia na trincheira parlamentar Desde a elei\u00e7\u00e3o do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a pol\u00edtica mundial caminha no sentido anti-hor\u00e1rio. As recentes elei\u00e7\u00f5es chilenas e, neste fim de semana, os pleitos portugueses mostram isso. 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