{"id":6558,"date":"2022-02-18T07:33:02","date_gmt":"2022-02-18T10:33:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6558"},"modified":"2022-02-18T08:02:20","modified_gmt":"2022-02-18T11:02:20","slug":"nas-entrelinhas-tragedias-se-repetem-em-escala-cada-vez-maior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-tragedias-se-repetem-em-escala-cada-vez-maior\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Trag\u00e9dias se repetem em escala cada vez maior"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A hist\u00f3ria se repete em Petr\u00f3polis. O contraste entre o not\u00e1vel conjunto arquitet\u00f4nico do seu centro hist\u00f3rico e os loteamentos nas encostas tomadas por constru\u00e7\u00f5es em \u00e1reas de risco \u00e9 gritante<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Todo rep\u00f3rter passa por v\u00e1rias editorias bem antes de chegar \u00e0quela na qual se encontra profissionalmente, o que \u00e9 o objetivo de qualquer jornalista. A melhor escola de reportagem de uma reda\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 a editoria de Cidade, que cuida do dia a dia dos seus leitores.<\/p>\n<p>Em 1975, ap\u00f3s passar pelos jornais O Dia, A Not\u00edcia, \u00daltima Hora, O Fluminense e A Tribuna, de Niter\u00f3i, fui trabalhar no Di\u00e1rio de Petr\u00f3polis, cujo dono, Jos\u00e9 Antonio Dias Carneiro, delegara a tarefa de dirigir o jornal ao seu filho, Paulo Ant\u00f4nio Carneiro, ent\u00e3o um jovem idealista, alguns anos apenas mais velho do que eu. Fui contratado para fazer reportagens especiais sobre a Cidade Imperial e a Regi\u00e3o Serrana do Rio de Janeiro, que estava em pleno processo de fus\u00e3o. Os jornais di\u00e1rios do interior fluminense lutavam para n\u00e3o desaparecer, diante da for\u00e7a dos concorrentes da antiga Guanabara.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, morava em Niter\u00f3i e estudava Ci\u00eancias Sociais na Universidade Federal Fluminense (UFF), o que me obrigava a pegar o primeiro \u00f4nibus do dia que ligava as duas cidades, para chegar bem cedo \u00e0 reda\u00e7\u00e3o e voltar no final da tarde, a tempo de assistir as aulas. Certa vez, o \u00f4nibus em que viajava foi assaltado por um bandido armado. Acabou cercado na antiga barreira de fiscaliza\u00e7\u00e3o que havia pr\u00f3ximo ao Hotel Quitandinha. Depois de longa e tensa negocia\u00e7\u00e3o, o assaltante se rendeu. Naquele dia, voltei para a reda\u00e7\u00e3o para contar a hist\u00f3ria como testemunha ocular e dormi na Cidade Imperial.<\/p>\n<p>Choveu muito naquela noite. Na manh\u00e3 seguinte, a not\u00edcia havia chegado \u00e0 reda\u00e7\u00e3o primeiro do que eu: um leitor telefonou para o jornal e avisou que uma fam\u00edlia havia sido soterrada num deslizamento de encosta. Morreram o casal e quatro crian\u00e7as. Ao fazer a cobertura da trag\u00e9dia, observei que a casa onde eles moravam fora constru\u00edda em condi\u00e7\u00f5es completamente irregulares, a come\u00e7ar pelo loteamento do terreno, um dos primeiros nas encostas \u00edngremes da cidade.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o funeral das v\u00edtimas, sugeri ao ent\u00e3o editor-chefe do jornal a publica\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de reportagens sobre a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e a ocupa\u00e7\u00e3o irregular das encostas de Petr\u00f3polis. O jornalista Di\u00f3genes Dagoberto Costa, meu chefe, era um ex-sargento da Aeron\u00e1utica, expulso da caserna ap\u00f3s o golpe militar de 1964, por suspeitas de liga\u00e7\u00f5es com o antigo PCB. Pautou 10 reportagens.<\/p>\n<p>A 68km do Rio de Janeiro, Petr\u00f3polis localiza-se no topo da Serra da Estrela, no conjunto montanhoso da Serra dos \u00d3rg\u00e3os, com ver\u00f5es \u00famidos e quentes e invernos secos e relativamente frios, que podem chegar a 2\u00b0 cent\u00edgrados. As montanhas concentram a massa de ar quente e \u00famido, que sobe a 2 mil metros de altitude. O contato com o ar frio dessas altitudes provoca chuvas catastr\u00f3ficas.<\/p>\n<p>Somente ap\u00f3s a descoberta de ouro e diamante na regi\u00e3o de Minas Gerais, a cidade passou a ser ocupada pelos portugueses. Em 1822, D. Pedro I se encantou com a regi\u00e3o e comprou a Fazenda do C\u00f3rrego Seco, com prop\u00f3sito de construir um pal\u00e1cio. Em 1843, Dom Pedro II decidiu criar um povoado para assentar os primeiros imigrantes alem\u00e3es e construir o pal\u00e1cio idealizado por seu pai, que ficou pronto quatro anos depois.<\/p>\n<p><strong>Da taipa \u00e0 alvenaria<\/strong><\/p>\n<p>Petr\u00f3polis nasce projetada pelo major J\u00falio Frederico Koeler, com um n\u00facleo urbano bel\u00edssimo, com ares europeus, bem de acordo com a vontade de um imperador descendente da Casa dos Habsburgo. Dom Pedro II passou 40 ver\u00f5es em Petr\u00f3polis, temporadas que, \u00e0s vezes, duravam cinco meses.<\/p>\n<p>Em 1861, a cidade foi servida pela primeira rodovia macadamizada do Brasil, a Estrada Uni\u00e3o e Ind\u00fastria, que ligava o Rio a Juiz de Fora (MG). A Estrada de Ferro Pr\u00edncipe do Gr\u00e3o Par\u00e1 (Leopoldina) chegou \u00e0 cidade em 1883, por iniciativa do Bar\u00e3o de Mau\u00e1. Todos os presidentes, de Floriano a Costa e Silva, frequentaram Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie de reportagens sobre a ocupa\u00e7\u00e3o das encostas denunciou a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, a grilagem de terras, a explora\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o mais miser\u00e1vel da cidade. Com ampla repercuss\u00e3o, aumentou o prest\u00edgio e a circula\u00e7\u00e3o do jornal, mas provocou forte rea\u00e7\u00e3o do mercado imobili\u00e1rio e da extrema-direita local, que acusava Paulo Ant\u00f4nio e Di\u00f3genes de serem comunistas.<\/p>\n<p>\u00c0quela \u00e9poca, oficiais do antigo Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores do Ex\u00e9rcito monitoravam o Di\u00e1rio. O resultado foi o enquadramento dos dois na Lei de Seguran\u00e7a Nacional (LSN) e a ado\u00e7\u00e3o de censura pr\u00e9via no jornal. O que n\u00e3o sab\u00edamos \u00e9 que a &#8220;Casa Morte&#8221;, um aparelho do DOI-Codi do Ex\u00e9rcito utilizado para torturar e assassinar oposicionistas, estava localizada no munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, as trag\u00e9dias se repetem em Petr\u00f3polis, aumentando de escala. O contraste entre o not\u00e1vel conjunto arquitet\u00f4nico do seu centro hist\u00f3rico e os loteamentos nas encostas tomadas por constru\u00e7\u00f5es em \u00e1reas de risco \u00e9 gritante. Os &#8220;arquitetos&#8221; da periferia, ao longo de quase 50 anos, sa\u00edram da taipa para a alvenaria, n\u00e3o t\u00eam uma cultura de constru\u00e7\u00e3o civil tecida ao longo dos s\u00e9culos, como os antigos mestres e art\u00edfices de obras europeus que, com trabalho escravo, constru\u00edram o centro hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas provocam eventos mais extremos, com chuvas cada vez mais catastr\u00f3ficas para as encostas da cidade. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o muito mais grave do que a das favelas do Rio de Janeiro, onde h\u00e1 muita conten\u00e7\u00e3o de encostas. O saldo parcial de 117 mortos e 116 desaparecidos mostra isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria se repete em Petr\u00f3polis. 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