{"id":6631,"date":"2022-03-13T07:05:07","date_gmt":"2022-03-13T10:05:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6631"},"modified":"2022-03-13T07:05:07","modified_gmt":"2022-03-13T10:05:07","slug":"nas-entrelinhas-orlando-brito-fez-a-cronica-do-poder-da-gloria-e-da-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-orlando-brito-fez-a-cronica-do-poder-da-gloria-e-da-solidao\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Orlando Brito fez a cr\u00f4nica do poder, da gl\u00f3ria e da solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Era impressionante a sua capacidade de ler a alma dos pol\u00edticos, suas verdadeiras inten\u00e7\u00f5es e agruras, pela simples postura. Mestre do fotojornalismo, captava o instante certo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sua filha \u00fanica, Carolina, cuidou dele at\u00e9 o \u00faltimo momento. Mobilizou a solidariedade dos amigos, acompanhou os cuidados dos m\u00e9dicos, tentou convencer o pai a aceitar a nova situa\u00e7\u00e3o sem se rebelar contra os tubos e aparelhos que o mantiveram vivo nos hospitais p\u00fablicos de Bras\u00edlia. O jornalista Orlando Brito foi sepultado ontem no Cemit\u00e9rio Campo da Esperan\u00e7a, na Asa Sul, ap\u00f3s 34 dias de muita luta. Depois de duas cirurgias no intestino, em decorr\u00eancia de um c\u00e2ncer, teve fal\u00eancia m\u00faltipla dos \u00f3rg\u00e3os. Morreu \u00edntegro e pobre, como acontece com muitos jornalistas, no Hospital de Taguatinga.<\/p>\n<p>Orlando P\u00e9ricles Brito de Oliveira nasceu em 1950, em Jana\u00faba, Minas Gerais. Como muitos jornalistas da sua gera\u00e7\u00e3o, come\u00e7ou a carreira muito jovem: em 1964, aos 14 anos, come\u00e7ou a trabalhar como laboratorista no jornal \u00daltima Hora, uma porta de entrada das reda\u00e7\u00f5es; as outras eram a revis\u00e3o e o trabalho de office boy. A profiss\u00e3o somente viria a ser regulamentada em outubro de 1969. Fez carreira nos principais ve\u00edculos do pa\u00eds: O Globo, Jornal do Brasil e revistas Caras e Veja. Ao deixar a revista, criou a ag\u00eancia de not\u00edcias Obrito News, organizou semin\u00e1rios, deu aulas, fez confer\u00eancias e palestras. Andou pelos cafund\u00f3s do Brasil e pelo mundo afora, mas especializou-se na cobertura pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Fotografou presidentes, ministros, senadores e deputados. O pol\u00edtico que n\u00e3o foi flagrado em plena atividade por Orlando Brito passou batido por Bras\u00edlia. Contou com seu olhar arguto 50 anos de hist\u00f3ria pol\u00edtica do Brasil, com compet\u00eancia e sensibilidade que, na maioria das vezes, dispensava a legenda. Ele traduzia em imagens muitas vezes aquilo que n\u00f3s, seus colegas da cobertura de pol\u00edtica, n\u00e3o consegu\u00edamos enxergar nem escrever.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi s\u00f3 isso, como bom mineiro, seguiu o exemplo de Assis Horta, o grande fotografo de A Cigarra, filho de Diamantina, que registrou a vida banal das pessoas comuns, dando a elas a dignidade e a altivez perp\u00e9tuas, invis\u00edveis para as elites do come\u00e7o do s\u00e9culo passado. Brito fotografou trabalhadores em greve, protestos de estudantes, a vida dos \u00edndios, as agruras dos garimpos, a aridez graciliana dos sert\u00f5es nordestinos. Mas tamb\u00e9m as personalidades do mundo esportivo e art\u00edstico, al\u00e9m cenas do cotidiano de cidades de mais de 60 pa\u00edses. Era um cosmopolita.<\/p>\n<p>Foi o primeiro brasileiro premiado no World Press Photo Prize do Museu Van Gogh, de Amsterd\u00e3, na Holanda, o mais cobi\u00e7ado pr\u00eamio de fotojornalismo do mundo. Conquistou o primeiro lugar pelo jornal O Globo, na categoria &#8220;Sequ\u00eancias&#8221;: registros de um exerc\u00edcio militar, intitulados &#8220;Uma miss\u00e3o fatal&#8221;. De tanto ganhar o Pr\u00eamio Abril de Fotografia, a partir da d\u00e9cima segunda vez foi considerado &#8220;hors concours&#8221;.<\/p>\n<p>Poder, Gl\u00f3ria e Solid\u00e3o, que empresta o t\u00edtulo \u00e0 coluna, foi seu livro mais importante, dos seis que publicou. \u00c9 um registro impressionante de epis\u00f3dios e protagonistas da hist\u00f3ria pol\u00edtica do Brasil. Al\u00e9m de excelente rep\u00f3rter fotogr\u00e1fico, Brito era um grande cronista pol\u00edtico e contador de hist\u00f3rias. O &#8220;making of&#8221; de trabalho, em textos bem-humorados e contextualizados historicamente, re\u00fane aulas de bom jornalismo. Muitos deles est\u00e3o no site <strong>Os Divergentes<\/strong>, do qual \u00e9 um dos fundadores.<\/p>\n<p><strong>Compromisso com a \u00e9tica<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tive a fortuna de trabalhar diretamente com Orlando Brito, fazendo dupla nas reportagens, mesmo quando fui rep\u00f3rter da antiga \u00daltima Hora, no Rio de janeiro, e no Globo, na sucursal de S\u00e3o Paulo. Entretanto, j\u00e1 como rep\u00f3rter de pol\u00edtica em Bras\u00edlia, compartilhamos muitos momentos da vida pol\u00edtica nacional. E aprendi a prestar muita aten\u00e7\u00e3o naquilo que o Brito falava, muitas vezes sutis sugest\u00f5es de pautas. Era impressionante a sua capacidade de ler a alma dos pol\u00edticos, suas verdadeiras inten\u00e7\u00f5es e agruras, pela simples postura. Brito capturava o instante certo.<\/p>\n<p>Assim, passei a fazer parte de uma confraria de jornalistas de pol\u00edtica que se re\u00fane regularmente, eventualmente, duas vezes por semana. Como somos da mesma gera\u00e7\u00e3o, cada qual \u00e9 um mar de hist\u00f3rias, sendo Brito um oceano. \u00c0s vezes, ele sa\u00eda para fotografar algum evento na Esplanada dos Minist\u00e9rios. Invariavelmente, voltava satisfeito com o resultado de seu pr\u00f3prio trabalho e nos mostrava as fotos, orgulhoso, antes de publicar: \u201colha isso, ouro puro\u201d. Educado, delicado, tratava a todos com a mesma urbanidade, mas sabia qual era seu lugar no podium da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Sua recente divers\u00e3o era registrar os humores do presidente Jair Bolsonaro e o clima no governo, a partir de detalhes nas solenidades e entrevistas que somente ele conseguia capturar. Previu interna\u00e7\u00f5es do presidente da Rep\u00fablica, flagrou momentos de estresse da equipe de governo, antecipou quedas de ministros. At\u00e9 as rusgas dom\u00e9sticas com a primeira-dama, Michelle, seus olhos atentos conseguiam captar. Volta e meia nos mostrava uma foto e dizia: &#8220;essa \u00e9 impublic\u00e1vel&#8221;. Sua \u00e9tica era impressionante, Orlando Brito respeitava a fronteira entre o p\u00fablico e o privado, nunca foi um paparazzi.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era impressionante a sua capacidade de ler a alma dos pol\u00edticos, suas verdadeiras inten\u00e7\u00f5es e agruras, pela simples postura. Mestre do fotojornalismo, captava o instante certo Sua filha \u00fanica, Carolina, cuidou dele at\u00e9 o \u00faltimo momento. 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