{"id":6691,"date":"2022-04-03T07:27:57","date_gmt":"2022-04-03T10:27:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6691"},"modified":"2022-04-03T07:29:08","modified_gmt":"2022-04-03T10:29:08","slug":"nas-entrelinhas-bolsonaro-levou-a-melhor-em-troca-de-partidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-bolsonaro-levou-a-melhor-em-troca-de-partidos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Bolsonaro levou a melhor em troca de partidos"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Com sua filia\u00e7\u00e3o ao PL, a legenda saltou de 43 para 75 deputados; o PP, de 42 para 59; e o Republicanos, ligado ao bispo Edir Macedo, saltou de 31 para 46 deputados<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O jurista Norberto Bobbio dizia que os governos, mesmo os &#8220;maus governos&#8221;, s\u00e3o a forma mais concentrada de poder, porque arrecadam, normatizam e coagem. Por isso, n\u00e3o se deve subestimar sua capacidade de agrega\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas e sociais, atender interesses e cooptar apoios.<\/p>\n<p>Nas democracias, o &#8220;autogoverno do povo&#8221; \u00e9 um mito, mesmo nas revolu\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas (inglesa, francesa, americana e russa). No Brasil, todas as &#8220;revolu\u00e7\u00f5es&#8221; vitoriosas foram golpes de Estado bem-sucedidos \u2014 incluindo a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, que inaugurou a nossa &#8220;moderniza\u00e7\u00e3o conservadora&#8221;.<\/p>\n<p>Entretanto, com a urna eletr\u00f4nica e as elei\u00e7\u00f5es diretas para os cargos do Executivo \u2014 presidente da Rep\u00fablica, governadores e prefeitos \u2014, o protagonismo popular \u00e9 absoluto no momento do voto. Mesmo durante o regime militar, sem elei\u00e7\u00f5es diretas para presidente, governadores e prefeitos das capitais, o voto popular foi decisivo para a derrota daquela ditadura. Vem da\u00ed o imponder\u00e1vel nas elei\u00e7\u00f5es brasileiras, que alterna o imprevis\u00edvel (vit\u00f3rias de Collor de Mello, em 1982; Fernando Henrique Cardoso, em 1994; Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, em 2002; e Jair Bolsonaro, em 2018) e o previs\u00edvel (a reelei\u00e7\u00e3o de FHC, em 1998, e de Lula, em 2006). A elei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, em 2010, e sua reelei\u00e7\u00e3o, em 2014, estavam no terreno da previsibilidade.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 teoria dos governos de Bobbio, quem governa \u00e9 sempre uma minoria ou alguns grupos minorit\u00e1rios em concorr\u00eancia entre si, que tomam decis\u00f5es que atingem a todos. As classes pol\u00edticas &#8220;se imp\u00f5em&#8221; ou &#8220;se prop\u00f5em&#8221;. Minorias organizadas e resolutas acabam controlando o poder e suas decis\u00f5es. Hoje, vivemos uma contradi\u00e7\u00e3o entre o chamado &#8220;esp\u00edrito das leis&#8221; \u2014 ou seja, a ideia de que somos uma democracia ampliada e regulada pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 \u2014 e a forma como Bolsonaro governa.<\/p>\n<p>De vi\u00e9s bonapartista, o atual presidente nunca fez a menor quest\u00e3o de governar para a toda a sociedade. Governa para os seus, como a b\u00edblica recomenda\u00e7\u00e3o a Matheus. Os exemplos est\u00e3o em toda parte, com destaque \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 cultura, ao meio ambiente e \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>Quando desmobilizou sua tropa de assalto, a extrema-direita que embalou sua campanha eleitoral, ancorou sua capacidade de governan\u00e7a na forte presen\u00e7a de militares na administra\u00e7\u00e3o e, para garantir a governabilidade, entregou o Or\u00e7amento da Uni\u00e3o e uma parte do governo aos pol\u00edticos do Centr\u00e3o. Aos trancos e barrancos, at\u00e9 agora isso deu certo. O \u00fanico momento em que fracassou foi durante a pandemia de covid-19.<\/p>\n<p><strong>Quem ganhou e quem perdeu<\/strong><\/p>\n<p>Entretanto, Bolsonaro foi obrigado a recuar de seus prop\u00f3sitos autorit\u00e1rios toda vez em que amea\u00e7ou atravessar a Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, principalmente em dire\u00e7\u00e3o ao Supremo Tribunal Federal (STF). Esbarrou na resist\u00eancia dos ministros da Corte, que sempre se uniram nesses casos, e na ampla mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade civil, que vai al\u00e9m dos partidos de oposi\u00e7\u00e3o. Existe uma dist\u00e2ncia entre as ideias autorit\u00e1rias do atual presidente, reiteradas no \u00faltimo dia 31, ao defender o regime militar, e sua capacidade efetiva de p\u00f4-las em pr\u00e1tica, imposta pela atua\u00e7\u00e3o das for\u00e7as democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o significa que tenha desistido. Seu projeto pol\u00edtico \u00e9 uma &#8220;democracia iliberal&#8221;, sem programa de governo, a n\u00e3o ser a supremacia do Executivo e um mal desenhado &#8220;Brasil grande&#8221;, pois ignora os problemas reais e as verdadeiras prioridades da popula\u00e7\u00e3o. Entretanto, esse projeto n\u00e3o ser\u00e1 derrotado por antecipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O troca-troca de partidos durante a janela partid\u00e1ria mostra que Bolsonaro recuperou expectativa de poder e plena viabilidade eleitoral. Com sua filia\u00e7\u00e3o ao PL, a legenda saltou de 43 para 75 deputados; o PP, do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PI), de 42 para 59; o Republicanos, do deputado Marcos Pereira (SP), ligado ao bispo Edir Macedo, saltou de 31 para 46 deputados. Os partidos do Centr\u00e3o podem at\u00e9 abandon\u00e1-lo, se perder a elei\u00e7\u00e3o e, por ora, n\u00e3o \u00e9 o caso.<\/p>\n<p>Lula continua sendo o favorito nas pesquisas de opini\u00e3o, mas a dist\u00e2ncia para Bolsonaro encurtou. Na federa\u00e7\u00e3o que o apoia, a bancada do PT na C\u00e2mara passou de 53 a 55 deputados e a do PV, de quatro para tr\u00eas. A do PCdoB foi outra que caiu \u2014 de oito para sete. O PSB, mesmo filiando Geraldo Alckmin, que ser\u00e1 seu vice, passou de 30 para 21 deputados.<\/p>\n<p>Os partidos da chamada &#8220;terceira via&#8221; tamb\u00e9m sofreram baixas:; o PDT de Ciro Gomes, encolheu de 25 para 19 deputados; o PSDB, de Jo\u00e3o Doria e Eduardo Leite, de 31 para 25, compensados pela federa\u00e7\u00e3o com o Cidadania, cuja bancada caiu de oito para seis deputados; o\u00a0MDB, de Simone Tebet, de 34 para 33 deputados. O Podemos teve a bancada reduzida de 11 para nove deputados, al\u00e9m de perder Sergio Moro para a Uni\u00e3o Brasil, que teve as maiores perdas: dos 81 deputados da fus\u00e3o entre PSL e DEM, restaram 45. Esses n\u00fameros refletem as dificuldades para romper a polariza\u00e7\u00e3o Lula x Bolsonaro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com sua filia\u00e7\u00e3o ao PL, a legenda saltou de 43 para 75 deputados; o PP, de 42 para 59; e o Republicanos, ligado ao bispo Edir Macedo, saltou de 31 para 46 deputados O jurista Norberto Bobbio dizia que os governos, mesmo os &#8220;maus governos&#8221;, s\u00e3o a forma mais concentrada de poder, porque arrecadam, normatizam e coagem. 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