{"id":6717,"date":"2022-04-12T07:08:21","date_gmt":"2022-04-12T10:08:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6717"},"modified":"2022-04-12T07:08:21","modified_gmt":"2022-04-12T10:08:21","slug":"nas-entrelinhas-contra-quem-se-articula-a-terceira-via","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-contra-quem-se-articula-a-terceira-via\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Contra quem se articula a terceira via?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Perguntem ao ex-governador Jo\u00e3o Doria (PSDB): quem \u00e9 o seu advers\u00e1rio principal? A mesma pergunta pode ser feita a Simone Tebet (MDB) ou a Ciro Gomes (PDT). N\u00e3o querer\u00e3o responder<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Na arte da guerra, n\u00e3o identificar o inimigo principal pode ser um erro capaz de levar ao desastre. Numa ordem democr\u00e1tica, \u00e9 melhor chamar o &#8220;inimigo&#8221; de advers\u00e1rio, porque ele pode ser o aliado de amanh\u00e3, como est\u00e1 acontecendo agora, com o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) e o ex-governador de S\u00e3o Paulo Geraldo Alckmin (PSB), seu rival no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es de 2006, ent\u00e3o pelo PSDB. Numa elei\u00e7\u00e3o polarizada entre Lula e o presidente Jair Bolsonaro, o desafio da chamada terceira via \u00e9 identificar o advers\u00e1rio principal no primeiro turno.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria est\u00e1 repleta de erros de avalia\u00e7\u00e3o sobre essa quest\u00e3o. O mais not\u00f3rio foi o confronto entre comunistas e social-democratas na Alemanha, que dividiu o movimento sindical e a intelectualidade, abrindo caminho para Adolf Hitler chegar ao poder. Os comunistas chamavam os social-democratas de social-fascistas, o que era um equ\u00edvoco, mas havia l\u00e1 suas raz\u00f5es: o assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, que representavam o esp\u00edrito revolucion\u00e1rio da \u00e9poca. Eles acusavam a Social-Democracia Alem\u00e3 de trai\u00e7\u00e3o, por ter aprovado os cr\u00e9ditos de guerra no Reichstag (parlamento alem\u00e3o), em 4 de agosto de 1914. Liebeneck foi o \u00fanico deputado a votar contra a guerra.<\/p>\n<p>Quando a onda da Revolu\u00e7\u00e3o Russa impactou a Alemanha derrotada na guerra, em 1918, com o surgimento de conselhos oper\u00e1rios, a queda do Kaiser e a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, o governo ficou nas m\u00e3os dos dirigentes mais conservadores da social-democracia, que fizeram um pacto com o estado-maior militar para liquidar o levante dos oper\u00e1rios da Liga Spartacus, n\u00facleo inicial do Partido Comunista Alem\u00e3o. Em 15 de janeiro, um destacamento de soldados prendeu Liebknecht e Rosa, que lideravam o levante. Foram levados para o Hotel \u00c9den, quartel-general dos Freikorps \u2014 veteranos do ex\u00e9rcito do Kaiser \u2014, no centro de Berlim, paramilitares com os quais o governo social-democrata havia feito um acordo para reprimir a insurrei\u00e7\u00e3o. Os dois l\u00edderes foram espancados, arrastados e mortos a tiros. O trauma da guerra dividiu a esquerda mundial, principalmente depois de Revolu\u00e7\u00e3o Russa, e nunca mais foi superado.<\/p>\n<p><strong>Lula x Bolsonaro<\/strong><\/p>\n<p>Aqui no Brasil, erro igualmente tr\u00e1gico ocorreu \u00e0s v\u00e9speras do golpe militar de 1964. Jo\u00e3o Goulart havia assumido o governo como vice de J\u00e2nio Quadros, que renunciara em 1961, em meio a forte crise institucional, na qual os militares n\u00e3o queriam dar-lhe posse. Houve um acordo para isso: a ado\u00e7\u00e3o do parlamentarismo. A posse de Jango fora garantida pela conflu\u00eancia de uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o popular, liderada pelo ent\u00e3o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, e uma h\u00e1bil articula\u00e7\u00e3o parlamentar, na qual se destacaram Tancredo Neves e San Tiago Dantas. Para recuperar parte do poder, em 1963, Jango viria a convocar e vencer um plebiscito para a volta do presidencialismo, realizado em 6 de janeiro daquele ano.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es presidenciais estavam convocadas para 1965. Os candidatos mais fortes eram Juscelino Kubitschek, do antigo PSD, que pretendia voltar ao poder, e Carlos Lacerda, o governador da antiga Guanabara, principal l\u00edder da UDN. Brizola n\u00e3o podia ser candidato, era cunhado do presidente da Rep\u00fablica. Prestes articulava a reelei\u00e7\u00e3o de Jango. A chave para isolar a UDN e evitar o golpe era recompor a alian\u00e7a entre o PSD, o PTB e o antigo PCB, que havia sido vitoriosa em 1955. Mas a esquerda considerava isso um retrocesso, por causa da pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de Juscelino com os Estados Unidos. No auge da guerra fria, o desfecho da crise foi a destitui\u00e7\u00e3o de Jango e a implanta\u00e7\u00e3o do regime militar, que durou 20 anos. Juscelino e Lacerda apoiaram a destitui\u00e7\u00e3o de Jango, mas acabaram tendo os direitos pol\u00edticos cassados.<\/p>\n<p>Perguntem ao ex-governador Jo\u00e3o Doria, candidato do PSDB: quem \u00e9 o seu advers\u00e1rio principal? A mesma pergunta pode ser feita a Simone Tebet (MDB) ou a Ciro Gomes (PDT), que continuam na pista. N\u00e3o querer\u00e3o responder agora. Eduardo Leite e Sergio Moro, sem legenda para concorrer, tamb\u00e9m. O problema da terceira via n\u00e3o \u00e9 somente chegar a um acordo em torno daquele que for mais competitivo. Se fosse, hoje, o candidato \u00fanico seria Ciro Gomes, como poderia ser Moro, se n\u00e3o houvesse trope\u00e7ado na pr\u00f3pria esperteza ao trocar o Podemos pela Uni\u00e3o Brasil.<\/p>\n<p>A unifica\u00e7\u00e3o da terceira via tem um polo centr\u00edpeto: a quest\u00e3o da democracia. Bolsonaro defende um projeto de &#8220;democracia restrita&#8221;, ou &#8220;iliberal&#8221;, como agora se diz. Contra esse projeto se batem todas as for\u00e7as que defendem a nossa &#8220;democracia ampliada&#8221;, consagrada na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Mas isso \u00e9 considerado assunto para o segundo turno. O xis da quest\u00e3o \u00e9 polo centr\u00edfugo: quem \u00e9 o advers\u00e1rio a ser deslocado no primeiro turno. Pela l\u00f3gica das pesquisas, o segundo colocado, Bolsonaro, seria mais f\u00e1cil de remover da disputa do que Lula, o primeiro. Entretanto, a terceira via desloca sua linha de tiro de Bolsonaro para Lula, que busca velhos aliados ao centro para inviabiliz\u00e1-la de vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perguntem ao ex-governador Jo\u00e3o Doria (PSDB): quem \u00e9 o seu advers\u00e1rio principal? A mesma pergunta pode ser feita a Simone Tebet (MDB) ou a Ciro Gomes (PDT). N\u00e3o querer\u00e3o responder Na arte da guerra, n\u00e3o identificar o inimigo principal pode ser um erro capaz de levar ao desastre. 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