{"id":6733,"date":"2022-04-19T07:16:55","date_gmt":"2022-04-19T10:16:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6733"},"modified":"2022-04-19T08:21:23","modified_gmt":"2022-04-19T11:21:23","slug":"nas-entrelinhas-audios-rompem-o-silencio-militar-sobre-torturas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-audios-rompem-o-silencio-militar-sobre-torturas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: \u00c1udios rompem o sil\u00eancio militar sobre torturas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A tortura e a elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica de oposicionistas foram uma pol\u00edtica de Estado, denunciada por suas v\u00edtimas e advogados nos tribunais. N\u00e3o eram divulgadas pela imprensa porque havia censura<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Questionado sobre os \u00e1udios divulgados pela jornalista M\u00edriam Leit\u00e3o em sua coluna no jornal O Globo, que mostram sess\u00f5es do Superior Tribunal Militar (STM) na \u00e9poca do governo ditatorial, nas quais os ministros generais que integravam o \u00f3rg\u00e3o falam sobre torturas, o vice-presidente Hamilton Mour\u00e3o respondeu: &#8220;Apurar o qu\u00ea? Os caras j\u00e1 morreram tudo, p\u00f4. (risos). Vai trazer os caras do t\u00famulo de volta?&#8221;<\/p>\n<p>General da reserva, Mour\u00e3o traduziu uma esp\u00e9cie de senso comum entre os militares: o sil\u00eancio das For\u00e7as Armadas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o das torturas, dos assassinatos e dos desaparecimentos de oposicionistas durante o regime militar. Colocou-se uma pedra sobre esse assunto. As For\u00e7as Armadas se recusam a revisit\u00e1-lo publicamente, com um olhar autocr\u00edtico e democr\u00e1tico, como ocorreu em outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Essa atitude \u00e9 legitimada pelo pacto de aprova\u00e7\u00e3o da &#8220;anistia rec\u00edproca&#8221;, pelo Congresso, em 1979. O acordo entre o governo militar e a oposi\u00e7\u00e3o, que beneficiou &#8220;subversivos&#8221; e torturadores, \u00e9 um assunto sacramentado, tamb\u00e9m, pelo Supremo Tribunal Federal (STF). \u00c0quela \u00e9poca, a anistia foi um efetivo avan\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia, pois possibilitou a liberta\u00e7\u00e3o de presos pol\u00edticos e a volta dos pol\u00edticos exilados. Entretanto, enfrentou rea\u00e7\u00f5es dos &#8220;por\u00f5es&#8221; do antigo regime militar, inclusive por meio de atentados \u00e0 bomba, entre os quais o do Rio Centro, que fracassou.<\/p>\n<p>Naquela noite de 30 de abril de 1981, um show comemorativo do Dia do Trabalho reunia 20 mil pessoas no Rio Centro, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, quando uma bomba explodiu no estacionamento. O sargento Guilherme Pereira do Ros\u00e1rio, que morreu na hora, e o capit\u00e3o Wilson Lu\u00eds Chaves Machado, gravemente ferido, preparavam o artefato no interior de um ve\u00edculo Puma com placa fria, utilizado pelo Doi-Codi. Segundo as autoridades militares da \u00e9poca, estavam num servi\u00e7o de rotina. Outra bomba colocada na casa de for\u00e7a do pr\u00e9dio n\u00e3o chegou a explodir.<\/p>\n<p>Aquele epis\u00f3dio acabou sendo um divisor de \u00e1guas do processo de abertura pol\u00edtica, que iria desaguar na elei\u00e7\u00e3o de governadores oposicionistas, em 1982; na campanha das Diretas J\u00e1; e na elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves, em 1985, no col\u00e9gio eleitoral, que p\u00f4s fim ao regime militar. Caso o atentado fosse bem-sucedido, resultaria num massacre de artistas, estudantes e sindicalistas. Nada ocorreu com o capit\u00e3o Wilson Machado, que se recuperou dos graves ferimentos, continuou no servi\u00e7o ativo e chegou a ser professor no Col\u00e9gio Militar de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Vez por outra, como agora, o militar terrorista \u00e9 lembrado. Reformado como coronel, \u00e9 a \u00fanica testemunha viva do atentado do Rio Centro. Ao contr\u00e1rio do que disse o general Mour\u00e3o, outros 97 militares envolvidos com as torturas tamb\u00e9m est\u00e3o vivos, segundo lista divulgada pelo Instituto Vladimir Herzog, criado em mem\u00f3ria do jornalista assassinado nas depend\u00eancias do Doi-Codi, na Rua Tut\u00f3ia, em S\u00e3o Paulo, em 1975.<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edtica de Estado<\/strong><\/p>\n<p>O presidente Jair Bolsonaro trata-os como her\u00f3is, a come\u00e7ar pelo falecido coronel Carlos Brilhante Ustra, sob cujo comando registram-se 434 oposicionistas mortos pelo Doi-Codi. Os \u00e1udios das sess\u00f5es do STM revelam que a c\u00fapula militar tinha conhecimento das torturas e dos assassinatos e n\u00e3o mandou investigar, inclusive no governo do presidente Ernesto Geisel, que chegou a admitir a exist\u00eancia de torturas num longo depoimento a Maria Celina D&#8217;Ara\u00fajo e Celso Castro. Somente ap\u00f3s a morte de Herzog, que provocou ampla mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade civil, Geisel reagiu \u00e0 linha-dura e imp\u00f4s sua autoridade aos quart\u00e9is.<\/p>\n<p>Os \u00e1udios foram reunidos e analisados pelo professor Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que pesquisa a mem\u00f3ria do regime militar. S\u00f3 foram liberados pelo STM em raz\u00e3o de decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal, a pedido do advogado Fernando Fernandes. A ministra Maria Elizabeth Rocha, do STM, classificou como positiva a divulga\u00e7\u00e3o: &#8220;Importante serem revelados esses \u00e1udios porque tudo faz parte da hist\u00f3ria do pa\u00eds, mem\u00f3ria do pa\u00eds \u2014 e para que erros n\u00e3o se repitam&#8221;, declarou.<\/p>\n<p>A tortura e a elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica de oposicionistas foram uma pol\u00edtica de Estado, denunciada por suas v\u00edtimas e respectivos advogados nos tribunais. N\u00e3o eram divulgadas pela imprensa como deveriam porque havia censura. O que chegava \u00e0s reda\u00e7\u00f5es oficialmente eram relatos fantasiosos, t\u00edpicos das estrat\u00e9gias militares de contrainforma\u00e7\u00e3o. As den\u00fancias de pris\u00f5es e sequestros, feitas por advogados e familiares, n\u00e3o podiam ser publicadas. Os registros oficiais, lac\u00f4nicos, eram publicados nas p\u00e1ginas de not\u00edcias policiais.<\/p>\n<p>As den\u00fancias, entretanto, circulavam por meio de publica\u00e7\u00f5es clandestinas, como o boletim Not\u00edcias Censuradas, com informa\u00e7\u00f5es colhidas nas reda\u00e7\u00f5es, e o jornal Voz Oper\u00e1ria, \u00f3rg\u00e3o central do antigo PCB, que deixou de ser impresso no Brasil ap\u00f3s os \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o localizarem sua principal gr\u00e1fica, em Campo Grande, em janeiro de 1975, numa opera\u00e7\u00e3o que deixou um rastro de pris\u00f5es, torturas e assassinatos, entre os quais o de Orlando Bomfim Junior, respons\u00e1vel pela publica\u00e7\u00e3o, cujo corpo nunca foi encontrado nem sua pris\u00e3o reconhecida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tortura e a elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica de oposicionistas foram uma pol\u00edtica de Estado, denunciada por suas v\u00edtimas e advogados nos tribunais. 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