{"id":6749,"date":"2022-04-21T07:54:22","date_gmt":"2022-04-21T10:54:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6749"},"modified":"2022-04-21T07:58:15","modified_gmt":"2022-04-21T10:58:15","slug":"nas-entrelinhas-o-imaginario-da-independencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-imaginario-da-independencia\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O imagin\u00e1rio da Independ\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><b><i>A constru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio dos Inconfidentes est\u00e1 mais associada ao movimento republicano do final do s\u00e9culo XIX do que \u00e0 Independ\u00eancia do Brasil, que viria a ser proclamada por D. Pedro I<\/i><\/b><\/p>\n<p>Aproveito o anivers\u00e1rio de Bras\u00edlia, que completa hoje 62 anos, para falar da data escolhida por Juscelino Kubitschek para sua inaugura\u00e7\u00e3o e dos her\u00f3is da Inconfid\u00eancia. \u00c9 uma hist\u00f3ria cruenta. No Brasil colonial, l\u00edderes rebeldes eram enforcados, esquartejados, e suas cabe\u00e7as expostas em pra\u00e7a p\u00fablica, por decis\u00e3o das autoridades, como forma de intimidar os que desejavam se livrar do jugo portugu\u00eas, das injusti\u00e7as e da explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo assim, o esp\u00edrito de sedi\u00e7\u00e3o era forte: no dia da morte do alferes Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier, o Tiradentes, l\u00edder da Conjura\u00e7\u00e3o Mineira, por exemplo, um sino tocou cinco vezes durante a execu\u00e7\u00e3o, apesar das proibi\u00e7\u00f5es; e a cabe\u00e7a de Tiradentes foi roubada, na primeira noite de sua exposi\u00e7\u00e3o, em Vila Rica, hoje Ouro Preto, frustrando a overdose de crueldade de sua senten\u00e7a. A imagem de Tiradentes barbudo e cabeludo como Jesus Cristo faz parte do imagin\u00e1rio popular; no dia da sua execu\u00e7\u00e3o, estava de cabe\u00e7a raspada e sem barba. A casa de Tiradentes foi arrasada, o seu local foi salgado, as autoridades declararam infames todos os seus descendentes.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio dos Inconfidentes, por\u00e9m, est\u00e1 mais associada ao movimento republicano do final do s\u00e9culo XIX do que \u00e0 Independ\u00eancia do Brasil, que viria a ser proclamada por D. Pedro I, pr\u00edncipe herdeiro de Portugal, em 7 de setembro de 1822, ou seja, h\u00e1 quase 200 anos. A conspira\u00e7\u00e3o liderada por Tiradentes nem sequer foi iniciada, foi denunciada e desbaratada antes mesmo de come\u00e7ar.<\/p>\n<p>Em 18 de maio de 1789, seus l\u00edderes foram avisados de que a conspira\u00e7\u00e3o fora denunciada. Governador da capitania, Visconde de Barbacena j\u00e1 havia recebido seis den\u00fancias, a principal do coronel Joaquim Silv\u00e9rio dos Reis, que ocupa o posto de maior traidor da nossa hist\u00f3ria. Era fazendeiro e dono de minas de ouro, muito endividado; traiu seus companheiros para se livrar do fisco.<\/p>\n<p>Os mineiros estavam insatisfeitos com os excessivos impostos e com o rigor de Portugal, mas o que entusiasmou o grupo de conspiradores, entre os quais Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, Cl\u00e1udio Manuel da Costa, padre Carlos Correia de Toledo e o coronel Francisco Ant\u00f4nio de Oliveira Lopes, foi o fato de que Minas Gerais havia se transformado no polo mais din\u00e2mico da col\u00f4nia, em condi\u00e7\u00f5es de ser autossuficiente.<\/p>\n<p>Lu\u00eds da Cunha Meneses, primeiro governador de Minas Gerais (1783 e 1788), era corrupto e desp\u00f3tico; Lu\u00eds Ant\u00f4nio Faro, o Visconde de Barbacena, assumira o cargo em 1788 para aumentar a cobran\u00e7a de impostos, por meio da chamada &#8220;derrama&#8221; (cada regi\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o de ouro deveria pagar 100 arrobas de ouro (1.500 quilos) por ano para a metr\u00f3pole; quando a regi\u00e3o n\u00e3o conseguia cumprir essas exig\u00eancias, soldados entravam nas casas das fam\u00edlias para retirarem os pertences at\u00e9 completar o valor devido).<\/p>\n<p><strong>Imprensa<\/strong><\/p>\n<p>Era a senha para a fracassada revolta. A rebeli\u00e3o seria iniciada em Vila Rica e, depois, se espalharia por toda Minas Gerais, estendendo-se para as demais regi\u00f5es do pa\u00eds. Pretendia-se fundar uma rep\u00fablica nos moldes dos Estados Unidos, com elei\u00e7\u00f5es anuais, diversifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, instala\u00e7\u00e3o de manufaturas, forma\u00e7\u00e3o de uma mil\u00edcia nacional, perd\u00e3o das d\u00edvidas. A aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o dividia o grupo. O pavilh\u00e3o dos rebeldes era um tri\u00e2ngulo vermelho num fundo branco, com a inscri\u00e7\u00e3o em latim: Libertas Quae Sera Tamen (Liberdade ainda que tardia).<\/p>\n<p>A tamb\u00e9m chamada Inconfid\u00eancia Mineira tornou-se o mito fundador da nossa independ\u00eancia somente por volta dos anos 1880. Para isso foram fundamentais os jornais mineiros: O Arauto de Minas (Conservador), editado de 17 de mar\u00e7o de 1877 a 24 de dezembro de 1889, por Severiano Nunes Cardoso de Resende; a P\u00e1tria Mineira (Republicano), de abril de 1889 a maio de 1894, de Sebasti\u00e3o Sette; A Verdade Pol\u00edtica (Liberal), de setembro de 1888 a dezembro de 1889, de Carlos Sanzio de Avellar Brotero, todos de S\u00e3o Jo\u00e3o Del Rei; e A Prov\u00edncia de Minas (Conservador), de 1878 a novembro de 1889, de Pedro Maria da Silva Brand\u00e3o e Jos\u00e9 Pedro Xavier da Veiga; A Atualidade (Liberal), de mar\u00e7o de 1878 a novembro de 1881, de Carlos Afonso de Assis Figueiredo; e o Liberal Mineiro (Liberal), que funcionou de 1877 a 1889, sob comando de Carlos Gabriel Andrade e, depois, Bernardo Pinto Monteiro.<\/p>\n<p>Minas Gerais tinha mais de 60 jornais nessa \u00e9poca, que aderiram \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da imagem de Tiradentes em contraponto \u00e0 de D. Pedro I, que proclamou a independ\u00eancia ap\u00f3s se recusar a voltar para Portugal, como acabaria ocorrendo. Seu objetivo era, mais tarde, reunificar a Coroa portuguesa e, como a hist\u00f3ria comprovou, manter o tr\u00e1fico negreiro e modelo econ\u00f4mico escravocrata, que perduraria at\u00e9 1888. Os poemas do Romanceiro da Inconfid\u00eancia, escrito por Cec\u00edlia Meireles, em 1955, e as gravuras de Renina Katz consolidaram a imagem do Tiradentes Esquartejado (1893), \u00f3leo de Pedro Am\u00e9rico, ou seja, a do her\u00f3i que hoje reverenciamos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A constru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio dos Inconfidentes est\u00e1 mais associada ao movimento republicano do final do s\u00e9culo XIX do que \u00e0 Independ\u00eancia do Brasil, que viria a ser proclamada por D. 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