{"id":6772,"date":"2022-04-28T06:36:45","date_gmt":"2022-04-28T09:36:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6772"},"modified":"2022-04-28T06:36:45","modified_gmt":"2022-04-28T09:36:45","slug":"nas-entrelinhas-mitos-e-herois-na-cena-eleitoral-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-mitos-e-herois-na-cena-eleitoral-brasileira\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Mitos e her\u00f3is na cena eleitoral brasileira"},"content":{"rendered":"<p><strong><i>Moro virou um pol\u00edtico, sujeito aos ritos e armadilhas do jogo democr\u00e1tico. Filiou-se ao Podemos, trocou-o pelo Uni\u00e3o Brasil, sem garantia de legenda. Agora ensaia voltar \u00e0 disputa pela Presid\u00eancia<\/i><\/strong><\/p>\n<p>O mito de que o brasileiro \u00e9 um &#8220;homem cordial&#8221; vem de um senso comum, desconstru\u00eddo por S\u00e9rgio Buarque de Holanda em sua obra seminal Ra\u00edzes do Brasil. A express\u00e3o cordial \u00e9 um &#8220;tipo ideal&#8221; que n\u00e3o indica apenas bons modos e gentileza, vem da palavra latina &#8220;cordis&#8221;, que significa cora\u00e7\u00e3o. Segundo Buarque, o brasileiro precisa viver nos outros, um artificio psicol\u00f3gico incorporado ao nosso processo civilizat\u00f3rio. A cordialidade muitas vezes \u00e9 mera apar\u00eancia, &#8220;det\u00e9m-se na parte exterior, epid\u00e9rmica, do indiv\u00edduo, podendo mesmo servir, quando necess\u00e1rio, de pe\u00e7a de resist\u00eancia.&#8221; Mais atual imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>A apropria\u00e7\u00e3o afetiva do outro apontada por Buarque, em grande parte, \u00e9 respons\u00e1vel pela &#8220;fulaniza\u00e7\u00e3o&#8221; da pol\u00edtica brasileira, apesar de termos institui\u00e7\u00f5es seculares bastante consolidadas, alguma das quais com origem na chegada de D. Jo\u00e3o VI e sua Corte ao Brasil, como o Supremo Tribunal Federal (STF). O exerc\u00edcio efetivo do poder central em todo o territ\u00f3rio nacional, por exemplo, deve-se ao Judici\u00e1rio, muito mais do que \u00e0s For\u00e7as Armadas, cujo protagonismo pol\u00edtico, na Rep\u00fablica, por duas vezes, se deu em duradoura contraposi\u00e7\u00e3o ao Estado democr\u00e1tico de direito, na Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e no golpe militar de 1964.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, gra\u00e7as \u00e0 pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o da segunda metade do Imp\u00e9rio, tamb\u00e9m temos um Congresso forte, embora nossos partidos pol\u00edticos, contraditoriamente, sejam fracos, por causa da &#8220;fulaniza\u00e7\u00e3o&#8221;da pol\u00edtica e da constru\u00e7\u00e3o de acordos interpessoais de natureza fisiol\u00f3gica, corporativa e\/ou patrimonialista. De certa maneira, as redes sociais potencializaram essa &#8220;fulaniza\u00e7\u00e3o&#8221; da pol\u00edtica e desnudaram a outra face do &#8220;homem cordial&#8221;, que agora protagoniza a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e o presidente Jair Bolsonaro exacerbam essa caracter\u00edstica da pol\u00edtica brasileira. Ambos t\u00eam um vi\u00e9s populista; constroem suas alian\u00e7as a partir de rela\u00e7\u00f5es afetivas e, ao mesmo tempo, pragm\u00e1ticas. N\u00e3o \u00e9 outro o sentido da alian\u00e7a de Bolsonaro com Valdemar Costa Neto, presidente do PL; a escolha do ex-governador Geraldo Alckmin como vice por Lula tem o mesmo significado.<\/p>\n<p>No conceito de Buarque, o &#8220;homem cordial&#8221; \u00e9 sin\u00f4nimo de passionalismo, personalismo e irrever\u00eancia, um transgressor das normas institucionais. Age mais pela emo\u00e7\u00e3o do que pela raz\u00e3o, sua cordialidade est\u00e1 associada ao dom\u00ednio da esfera privada na vida brasileira. O Estado \u00e9 sua segunda casa, povoada por familiares e amigos. N\u00e3o \u00e9 preciso um grande esfor\u00e7o retrospectivo para constatar esse fen\u00f4meno na vida pol\u00edtica brasileira, muito menos revisitar as p\u00e1ginas de Ra\u00edzes do Brasil, quase centen\u00e1rias, e resgatar a nossa heran\u00e7a colonial lusitana.<\/p>\n<p><strong><em>Terceira via<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O semideus grego da Il\u00edada de Homero tinha uma exist\u00eancia verdadeira, voltava para casa, tinha uma vida normal, at\u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o exigisse outro gesto glorioso e individual. A fil\u00f3sofa judia alem\u00e3 Hanna Arendt associava-o ao que hoje muitos chamariam de &#8220;lugar de fala&#8221;. Sua disposi\u00e7\u00e3o de agir e falar pode mudar o curso na hist\u00f3ria. O her\u00f3i pode ser um indiv\u00edduo comum que se insere e se destaca no mundo por meio do discurso, se move quando os outros est\u00e3o paralisados. Precisa fazer aquilo que outro poderia ter feito, mas n\u00e3o fez; ou melhor, o que deixaram de fazer.<\/p>\n<p>O &#8220;homem cordial&#8221;, na atual cena eleitoral, se apresenta como o her\u00f3i semideus da Il\u00edada de Homero, cujos pilares s\u00e3o a grandiosidade e a singularidade, al\u00e9m da aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 imortalidade. Em 2018, Bolsonaro saiu do leito da morte para o Pal\u00e1cio do Planalto sem fazer campanha; nestas elei\u00e7\u00f5es, Lula deixou a cadeia e pavimentou a estrada para voltar ao poder sem deixar os ambientes fechados. Agora, outro candidato a semideus prepara sua volta \u00e0 cena eleitoral: o ex-juiz Sergio Moro, personagem central da ascens\u00e3o e queda da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato.<\/p>\n<p>Moro se tornou uma personalidade nacional gra\u00e7as \u00e0 Lava-Jato, na qual s\u00f3 se pronunciava nos autos. Mas era aplaudido e cumprimentado nas ruas. Representava os \u00f3rg\u00e3os de controle do Estado e a \u00e9tica da responsabilidade, que zelam pela legitimidade dos meios empregados na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Cumpriu um papel estrat\u00e9gico na luta em defesa da \u00e9tica na pol\u00edtica, vetor decisivo para o resultado das elei\u00e7\u00f5es passadas. Contra Moro, Lula n\u00e3o teve a menor chance; seria preso, como foi, pelo juiz dur\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois das elei\u00e7\u00f5es, convidado por Bolsonaro para ser ministro da Justi\u00e7a, Moro deixou de ser o juiz &#8220;imparcial&#8221;. Esse atributo foi posto em xeque pela revela\u00e7\u00e3o das mensagens que trocou com os procuradores da Lava-Jato em Curitiba. O cristal foi trincado por conversas banais nas redes sociais. Moro virou um pol\u00edtico, sujeito a todos os ritos da luta pol\u00edtica e do jogo democr\u00e1tico. Filiou-se ao Podemos, trocou-o pelo Uni\u00e3o Brasil, sem garantia de legenda. Agora ensaia uma volta \u00e0 ribalta, como um her\u00f3i noir, em disputa pela Presid\u00eancia. Moro pode recuperar o espa\u00e7o que ocupava no campo da chamada terceira via.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moro virou um pol\u00edtico, sujeito aos ritos e armadilhas do jogo democr\u00e1tico. Filiou-se ao Podemos, trocou-o pelo Uni\u00e3o Brasil, sem garantia de legenda. 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