{"id":6813,"date":"2022-05-17T06:38:07","date_gmt":"2022-05-17T09:38:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6813"},"modified":"2022-05-17T12:15:33","modified_gmt":"2022-05-17T15:15:33","slug":"nas-entrelinhas-lembrai-vos-de-1964-nao-custa-nada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-lembrai-vos-de-1964-nao-custa-nada\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Lembrai-vos de 1964! N\u00e3o custa nada"},"content":{"rendered":"<p><em><b>Lula, que lidera as pesquisas para a Presid\u00eancia, \u00e9 visto como um retrocesso por amplos setores da sociedade. Bolsonaro tenta se aproveitar da situa\u00e7\u00e3o para se manter no poder, a qualquer pre\u00e7o<\/b><\/em><\/p>\n<p>O t\u00edtulo da coluna \u00e9 um trocadilho com o t\u00edtulo do livro de Ferdinando Carvalho sobre a atua\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Brasileiro (PCB), publicado pela Biblioteca do Ex\u00e9rcito, em 1981. Antes, o general havia escrito duas obras sobre o mesmo tema, por\u00e9m ficcionais: Os Sete Matizes do Rosa e Os Sete Matizes do Vermelho, ambos em 1977.<\/p>\n<p>\u00c0quela altura, a luta armada contra o regime militar havia sido dizimada, com seus lideres mortos, presos ou no ex\u00edlio. O PCB estava quase completamente desbaratado e os remanescentes de seu Comit\u00ea Central, entre os quais Luiz Carlos Prestes e Giocondo Dias, viviam no ex\u00edlio. Embora defendesse a via eleitoral como forma de luta principal pela redemocratiza\u00e7\u00e3o, um ter\u00e7o dos seus dirigentes fora assassinado e apenas meia d\u00fazia permanecera no pa\u00eds, na mais profunda clandestinidade.<\/p>\n<p>Entretanto, o que estava em curso era a abertura pol\u00edtica, alargada e acelerada pelas sucessivas derrotas eleitorais do regime, cujo projeto de institucionaliza\u00e7\u00e3o como &#8220;democracia relativa&#8221; j\u00e1 havia fracassado. Batido nas elei\u00e7\u00f5es de 1974 e 1978, seria derrotado novamente em 1982, depois da anistia pol\u00edtica que trouxera de volta os exilados e \u00e0s ruas os prisioneiros pol\u00edticos.<\/p>\n<p>O general Jo\u00e3o Batista Figueiredo, cada vez mais enfraquecido na Presid\u00eancia, era desafiado pelos por\u00f5es do regime, em atentados terroristas cujo desfecho foi a bomba do Riocentro, que explodiu no colo de um sargento e feriu um capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito ao seu lado. O artefato seria detonado no local onde se realizava um grande show art\u00edstico comemorativo do 1\u00ba de Maio, com milhares de estudantes e sindicalistas.<\/p>\n<p>Ferdinando de Carvalho fez a cabe\u00e7a de muitos militares hoje reformados e alguns jovens cadetes e oficiais que voltariam ao poder com a elei\u00e7\u00e3o do presidente Jair Bolsonaro (PL) \u2014 entre eles o ex-ajudante de ordens do general Silvio Frota, o hoje general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional (GSI) da Presid\u00eancia.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria prima dos livros \u00e9 o Inqu\u00e9rito Policial Militar (IPM) n\u00ba 7.098 (1964-1966), respons\u00e1vel por apurar as atividades do PCB no territ\u00f3rio nacional, que coordenou. Muito do que os militares e a direita ideol\u00f3gica brasileira, hoje, falam sobre a esquerda no Brasil s\u00e3o uma reprodu\u00e7\u00e3o de suas teses, lan\u00e7adas no come\u00e7o dos anos 1980 como uma tentativa desesperada de impedir a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Domingo, recebi uma liga\u00e7\u00e3o do ex-deputado Marcelo Cerqueira, um dos l\u00edderes da campanha pela anistia, preocupado com a conjuntura pol\u00edtica: &#8220;Estou me sentindo em 1963&#8221;. Diretor da UNE \u00e0 \u00e9poca, Marcelo viveu intensamente o processo pol\u00edtico que antecedeu o golpe militar de 1964. Emoldurada pela guerra fria, a vit\u00f3ria de Jo\u00e3o Goulart no plebiscito para restabelecer o presidencialismo derivou para a radicaliza\u00e7\u00e3o, cujo desfecho foi a destitui\u00e7\u00e3o do presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>O com\u00edcio da Central do Brasil, em 13 de mar\u00e7o de 1964, no qual Jango anunciou a decreta\u00e7\u00e3o das reformas de base \u2014 que o Congresso havia rejeitado \u2014, serviu apenas para acirrar ainda mais a crise, que desaguaria na sua destitui\u00e7\u00e3o, em 31 de mar\u00e7o daquele ano, com tr\u00eas navios da Marinha norte-americana ao largo do Esp\u00edrito Santo, prontos para intervir.<\/p>\n<p>Marcelo e o ent\u00e3o presidente da UNE, Jos\u00e9 Serra, hoje senador do PSDB por S\u00e3o Paulo, estavam entre aqueles que tentaram jogar \u00e1gua fria na fogueira, como San Thiago Dantas. Os l\u00edderes estudantis chegaram a procurar o marechal Castelo Branco, que at\u00e9 ent\u00e3o dizia defender a legalidade, nos esfor\u00e7os de apaziguamento. Mas a rota de colis\u00e3o entre os militares e Jango j\u00e1 era irrevers\u00edvel. E a maioria da opini\u00e3o p\u00fablica acreditava que o pa\u00eds caminhava para o comunismo, o que n\u00e3o era verdade.<\/p>\n<p>O problema era outro. O principal l\u00edder do PTB, o partido de Jango, o ex-governador ga\u00facho e deputado federal Leonel Brizola, queria ser candidato a presidente nas elei\u00e7\u00f5es convocadas para 1965, mas era ineleg\u00edvel por ser cunhado do presidente da Rep\u00fablica. Os candidatos favoritos eram o ex-presidente Juscelino Kubitschek (PSD) e o ent\u00e3o governador da Guanabara, Carlos Lacerda (UDN). JK era o candidato da concilia\u00e7\u00e3o, Lacerda o do confronto.<\/p>\n<p>O l\u00edder comunista Luiz Carlos Prestes articulava a reelei\u00e7\u00e3o de Jango, em alian\u00e7a com o PTB, o que provocou a ruptura da alian\u00e7a com o PSD, que levara Juscelino ao poder em 1955.<\/p>\n<p>Jango era um estancieiro ga\u00facho, de vi\u00e9s populista, formado no trabalhismo de Alberto Pasqualini e San Thiago Dantas. N\u00e3o tinha nada de comunista. Se decidisse apoiar JK, mantendo a alian\u00e7a de 1955, muito provavelmente n\u00e3o teria ocorrido o golpe militar. Considerado imbat\u00edvel, Juscelino era visto como um retrocesso pela esquerda, o que foi um grave equ\u00edvoco. O retrocesso era o golpe militar.<\/p>\n<p>Com sinal trocado, o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que lidera as pesquisas para a Presid\u00eancia, tamb\u00e9m \u00e9 visto como um retrocesso por amplos setores da sociedade. Bolsonaro tenta se aproveitar da situa\u00e7\u00e3o para se manter no poder, mesmo que perca a reelei\u00e7\u00e3o, com uma narrativa que nos remete ao ambiente pr\u00e9-golpe militar de 1964, na percep\u00e7\u00e3o daqueles que viveram aqueles momentos. Entretanto, os tempos s\u00e3o outros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lula, que lidera as pesquisas para a Presid\u00eancia, \u00e9 visto como um retrocesso por amplos setores da sociedade. 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