{"id":684,"date":"2016-07-31T08:59:33","date_gmt":"2016-07-31T11:59:33","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=684"},"modified":"2016-07-31T08:59:33","modified_gmt":"2016-07-31T11:59:33","slug":"nas-entrelinhas-os-bons-rapazes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-os-bons-rapazes\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Os bons rapazes"},"content":{"rendered":"<p><em>Estamos vivendo um momento darwinista da pol\u00edtica brasileira. A crise p\u00f4s em xeque a sobreviv\u00eancia das principais lideran\u00e7as pol\u00edticas<\/em><\/p>\n<p>Tomo o t\u00edtulo da coluna emprestado do pen\u00faltimo cap\u00edtulo do livro O Gene Ego\u00edsta, do darwinista Richard Dawkins (Companhia das Letras). Ele contesta uma velha afirma\u00e7\u00e3o do beisebol, t\u00e3o popular nos Estados Unidos como em Cuba, de que os bons rapazes terminam em \u00faltimo. Na pol\u00edtica, tamb\u00e9m \u00e9 muito comum o sujeito achar que o bom rapaz terminar\u00e1 por \u00faltimo. O ardil, a dissimula\u00e7\u00e3o, a esperteza e a falta de escr\u00fapulos parecem ser a regra do jogo predominante. Na verdade, a express\u00e3o \u201cos fins justificam os meios\u201d est\u00e1 por tr\u00e1s das maldades e de quase tudo que deu errado na pol\u00edtica, inclusive os malfeitos. Vale tudo para o governante conquistar e manter seu poder.<\/p>\n<p>Mas voltemos aos bons rapazes. Segundo Dawkins, o ser humano \u00e9 um grande arranjo biol\u00f3gico, uma esp\u00e9cie de m\u00e1quina de sobreviv\u00eancia de um gene ego\u00edsta reprodutor da esp\u00e9cie. Para isso, por\u00e9m, tamb\u00e9m precisa ser altru\u00edsta, cooperar com os demais integrantes da esp\u00e9cie para n\u00e3o entrar em extin\u00e7\u00e3o. \u00c9 a\u00ed que os bons rapazes podem acabar em primeiro. Para explicar o racioc\u00ednio, Dawkins faz uma analogia com os p\u00e1ssaros de uma mesma esp\u00e9cie, mas com comportamentos distintos: os trapaceiros, os trouxas e os rancorosos, todos em luta com piolhos alojados na cabe\u00e7a, que poderiam exterminar a esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Caso existissem somente trapaceiros e os trouxas, a esp\u00e9cie seria extinta, porque somente o segundo cataria os piolhos alheios, o que n\u00e3o seria suficiente para manter o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico. Os trapaceiros n\u00e3o catam piolho de ningu\u00e9m, nem podem remov\u00ea-los da pr\u00f3pria cabe\u00e7a; com a redu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de trouxas, todos acabariam extintos. Quando entram em cena os rancorosos, a situa\u00e7\u00e3o se modifica. S\u00e3o p\u00e1ssaros que ajudam uns aos outros de maneira mais ou menos altru\u00edsta, mas que se recusavam a colaborar com os indiv\u00edduos que se recusaram a ajud\u00e1-los. Por essa raz\u00e3o, os rancorosos conseguem transmitir mais genes \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes do que os trouxas (que ajudavam os indiv\u00edduos indiscriminadamente e por isso eram explorados) e tamb\u00e9m que os trapaceiros (que, implac\u00e1veis, tentavam explorar todo mundo e acabaram por se anular uns aos outros). Com o chamado altru\u00edsmo rec\u00edproco, a popula\u00e7\u00e3o de trouxas diminui e os trapaceiros acabam com a sobreviv\u00eancia amea\u00e7ada pelo isolamento.<\/p>\n<p>Estamos vivendo um momento darwinista da pol\u00edtica brasileira. A crise tr\u00edplice que o pa\u00eds atravessa \u2014 \u00e9tica, pol\u00edtica e econ\u00f4mica \u2014 p\u00f4s em xeque a sobreviv\u00eancia das principais lideran\u00e7as pol\u00edticas nacionais e de um sistema de poder que parecia inexpugn\u00e1vel. O impeachment da presidente Dilma Rousseff em pleno curso, as agruras do governo interino de Michel Temer e o inferno que se abre para o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e a maioria de seus aliados ilustram esse cen\u00e1rio. Nas elei\u00e7\u00f5es municipais, por exemplo, assistiremos a uma grande batalha entre rancorosos, trouxas e trapaceiros. S\u00e3o milhares de candidatos a prefeito e a vereador a desenhar o futuro da pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n<p>As regras do jogo<\/p>\n<p>O ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva virou r\u00e9u pela primeira vez, acusado de obstruir a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato. N\u00e3o foi uma decis\u00e3o do juiz federal S\u00e9rgio Moro, de Curitiba, que investiga o suposto envolvimento do petista com as empreiteiras Odebrecht e OAS, protagonistas do esc\u00e2ndalo da Petrobras. O ex-presidente da Rep\u00fablica contratou uma banca de advogados na Inglaterra para denunciar Moro no Comit\u00ea de Direitos Humanos da ONU, alegando persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Mas quem acolheu a den\u00fancia foi o juiz Ricardo Leite, da 10\u00aa Vara da Justi\u00e7a Federal de Bras\u00edlia, que transformou em r\u00e9us Lula, o ex-senador Delc\u00eddio do Amaral, o banqueiro Andr\u00e9 Esteves e mais cinco pessoas, por tentativa de obstru\u00e7\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato. Petistas j\u00e1 temem a pris\u00e3o do ex-presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>O que aconteceu foi o seguinte: Delc\u00eddio Amaral fez acordo de dela\u00e7\u00e3o premiada, depois de ser pego em flagrante tentando evitar a dela\u00e7\u00e3o premiada do ex-diretor da \u00e1rea internacional da Petrobras Nestor Cerver\u00f3. Esse instituto legal inverteu a l\u00f3gica do \u201cdilema do prisioneiro\u201d, na qual a melhor estrat\u00e9gia era negar participa\u00e7\u00e3o em qualquer ato criminoso, e n\u00e3o acusar o parceiro ou confessar. Essa era a regra do jogo no mundo da corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Por causa dela, os trapaceiros sempre levavam a melhor. A dela\u00e7\u00e3o premiada fez com que confiss\u00e3o e a trai\u00e7\u00e3o passassem a ser mais vantajosas. \u00c9 a\u00ed que os trouxas e os rancorosos t\u00eam uma chance de levar a melhor na pol\u00edtica, porque os bons rapazes (e mo\u00e7as) da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato \u2014 ju\u00edzes, promotores e delegados \u2014 come\u00e7aram a virar o jogo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos vivendo um momento darwinista da pol\u00edtica brasileira. 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