{"id":6955,"date":"2022-08-07T07:33:56","date_gmt":"2022-08-07T10:33:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=6955"},"modified":"2022-08-07T08:38:34","modified_gmt":"2022-08-07T11:38:34","slug":"nas-entrelinhas-a-profanacao-do-sagrado-no-rito-do-bicentenario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-profanacao-do-sagrado-no-rito-do-bicentenario\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A profana\u00e7\u00e3o do sagrado no rito do Bicenten\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>N\u00e3o h\u00e1 um projeto de na\u00e7\u00e3o integrado ao mundo p\u00f3s-moderno, capaz de construir um novo consenso nacional. Estamos naufragando num mar de iniquidades, entre as quais a mis\u00e9ria absoluta e a fome<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), manteve a parada militar de 7 de Setembro na Avenida Presidente Vargas, como acontece tradicionalmente, por solicita\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios militares. Na capital fluminense se concentram as principais unidades das nossas For\u00e7as Armadas &#8211; na Vila Militar, na Ba\u00eda de Guanabara e na Base A\u00e9rea de Santa Cruz. O presidente Jair Bolsonaro havia anunciado que o desfile seria na Praia de Copacabana, onde tradicionalmente se re\u00fanem seus apoiadores. O desfile militar sempre come\u00e7a na Candel\u00e1ria e termina em frente ao Quartel General do Ex\u00e9rcito, no Campo de Santana, onde foi proclamada a Rep\u00fablica. A pol\u00eamica mexe com s\u00edmbolos e pode se transformar num rito de passagem nas elei\u00e7\u00f5es de outubro deste ano.<\/p>\n<p>A Avenida Atl\u00e2ntica \u00e9 um s\u00edmbolo do Movimento Tenentista, ou seja, das revoltas da jovem oficialidade contra seus comandantes, porque a primeira delas ocorreu em 5 de julho de 1922, no Forte de Copacabana, conhecida como Revolta dos Dezoito do Forte, em protesto contra elei\u00e7\u00e3o de Arthur Bernardes, em mar\u00e7o daquele ano. No dia 4 de julho de 1922, o capit\u00e3o Euclides Hermes da Fonseca \u2014 filho do Marechal Hermes da Fonseca, que estava preso \u2014 e o tenente Siqueira Campos preparavam o forte para a revolta que se iniciaria na manh\u00e3 do dia seguinte. Segundo seus planos iniciais, alguns estados brasileiros e \u00e1reas militares do Rio de Janeiro participariam do levante, mas o governo federal j\u00e1 sabia da conspira\u00e7\u00e3o militar e a impediu.<\/p>\n<p>Em 5 de julho, o Forte de Copacabana foi bombardeado fortemente a mando do governo. Euclides Hermes da Fonseca e Siqueira Campos receberam um telefonema do ministro da Guerra, solicitando a rendi\u00e7\u00e3o dos rebelados. Dos 301 militares que estavam no forte, renderam-se 272. O capit\u00e3o Euclides Hermes saiu do forte para negociar com o Ministro da Guerra e acabou sendo preso. Os que permaneceram no forte, sob o comando do tenente Siqueira Campos, n\u00e3o bombardearam a cidade como anunciaram, mas sa\u00edram em marcha pela Av. Atl\u00e2ntica. No caminho, alguns militares abandonaram a revolta, restaram apenas 18. No fim da marcha, os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes ficaram feridos, al\u00e9m de dois soldados; os demais morreram em combate. Foi a primeira de uma sucess\u00e3o revoltas que desaguaram na Revolu\u00e7\u00e3o de 1930. A marcha pela Avenida Atl\u00e2ntica foi um rito de passagem na hist\u00f3ria pol\u00edtica e militar do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Falta coes\u00e3o social<\/strong><\/p>\n<p>Os ritos de passagem foram estudados pelo antrop\u00f3logo franco-holand\u00eas Arnold van Gennep (1873-1957), que classificou grande variedade de rituais em tr\u00eas categorias, no livro do mesmo nome, publicado em 1909, a partir de padr\u00f5es cerimoniais recorrentes: ritos de separa\u00e7\u00e3o, ritos de margem e ritos de agrega\u00e7\u00e3o. Todos os ritos de passagem cont\u00eam as tr\u00eas fases, por\u00e9m, cada qual enfatiza um dos aspectos. Os ritos de nascimento enfatizam a agrega\u00e7\u00e3o, enquanto os funer\u00e1rios, a separa\u00e7\u00e3o. A fase de margem, especificamente, constitui uma etapa aut\u00f4noma. Na an\u00e1lise ritual de van Gennep, muita vezes, \u00e9 a fronteira entre o sagrado e o profano.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia da an\u00e1lise de van Gennep est\u00e1 na \u00eanfase da &#8220;raz\u00e3o de ser&#8221; do rito e do mecanismo ritual, influenciando outros estudiosos, entre os quais Victor Turner (1920-1983), que incorpora a vis\u00e3o do rito como composto por etapas, e o antrop\u00f3logo brasileiro Roberto Da Matta.<\/p>\n<p>1922 marcou a hist\u00f3ria do s\u00e9culo passado, com acontecimentos como a Revolta dos 18 do Forte, a funda\u00e7\u00e3o do antigo Partido Comunista e a Semana de Arte Moderna. Foram momentos seminais da hist\u00f3ria militar, pol\u00edtica e cultural do pa\u00eds com caracter\u00edsticas de ritos de passagem. O Centen\u00e1rio da Independ\u00eancia fora um ano de muita turbul\u00eancia, no qual se debatia o futuro do pa\u00eds e a ideia da moderniza\u00e7\u00e3o, sobretudo a industrializa\u00e7\u00e3o, passou a ser o eixo do nosso projeto de na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste Bicenten\u00e1rio, afora o debate que ocorre no mundo acad\u00eamico, o Brasil parece atarraxado ao passado. N\u00e3o existe um projeto de na\u00e7\u00e3o integrado ao mundo p\u00f3s-moderno capaz de construir um novo consenso nacional -, como foi, por exemplo, o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek nas elei\u00e7\u00f5es de 1955. \u00c9 preciso construir a coes\u00e3o social necess\u00e1ria para lan\u00e7ar o pa\u00eds num novo ciclo de crescimento e gera\u00e7\u00e3o de oportunidades para todos. Estamos naufragando num mar de radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de iniquidades sociais, entre as quais a fome e a mis\u00e9ria absoluta.<\/p>\n<p>O presidente Jair Bolsonaro, que concorre \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o, fomenta o radicalismo pol\u00edtico e afronta as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, entre as quais a legisla\u00e7\u00e3o eleitoral, as urnas eletr\u00f4nicas, a Justi\u00e7a Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal (STF). Aposta na balb\u00fardia pol\u00edtica para desmoralizar o processo democr\u00e1tico e pretende transformar o 7 de Setembro, a data magna do Bicenten\u00e1rio de Independ\u00eancia, num rito de passagem, no qual o sagrado, o Estado democr\u00e1tico de direito, ser\u00e1 profanado, se insistir em transferir o desfile militar para Copacabana e transform\u00e1-lo numa marcha miliciana, de militantes armados contra a oposi\u00e7\u00e3o e a ordem democr\u00e1tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 um projeto de na\u00e7\u00e3o integrado ao mundo p\u00f3s-moderno, capaz de construir um novo consenso nacional. Estamos naufragando num mar de iniquidades, entre as quais a mis\u00e9ria absoluta e a fome O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), manteve a parada militar de 7 de Setembro na Avenida Presidente Vargas, como acontece tradicionalmente, por solicita\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios militares. 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