{"id":701,"date":"2016-08-07T07:27:04","date_gmt":"2016-08-07T10:27:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=701"},"modified":"2016-08-07T10:03:23","modified_gmt":"2016-08-07T13:03:23","slug":"nas-entrelinhas-espetaculo-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-espetaculo-da-paz\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:  Espet\u00e1culo da paz"},"content":{"rendered":"<p>O maior legado das Olimp\u00edadas para o Rio ser\u00e1 sua consolida\u00e7\u00e3o como polo tur\u00edstico internacional, muito mais do que a do Brasil como pot\u00eancia esportiva<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas maneiras de olhar as Olimp\u00edadas do Rio de Janeiro. A mais positiva \u00e9 consider\u00e1-la o maior espet\u00e1culo de confraterniza\u00e7\u00e3o entre os povos e da paz na Terra, torcer pelo Brasil e para que tudo d\u00ea certo na Cidade Maravilhosa, deixando, para depois, o debate sobre o nosso sucesso ou n\u00e3o nos jogos e seu legado para os cariocas, os gastos milion\u00e1rios e o risco de est\u00e1dios se tornarem elefantes brancos \u2013 uma discuss\u00e3o inevit\u00e1vel nas elei\u00e7\u00f5es municipais.<\/p>\n<p>Como a Copa do Mundo de 2014, as Olimp\u00edadas faziam parte de uma estrat\u00e9gia de poder e de proje\u00e7\u00e3o internacional do PT, do oba-oba ufanista do governo Lula em alian\u00e7a com o prefeito carioca Eduardo Paes e o ex-governador fluminense S\u00e9rgio Cabral. Vivia-se a euforia da descoberta do petr\u00f3leo da camada pr\u00e9-sal, o sonho do Brasil pot\u00eancia e da perpetua\u00e7\u00e3o dos petistas no poder. Por causa do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, por\u00e9m, a festa caiu no colo do presidente interino Michel Temer, que levou uma vaia anunciada no \u00a0Maracan\u00e3, e da antiga oposi\u00e7\u00e3o, representada na seguran\u00e7a dos jogos pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann.<\/p>\n<p>Olhar os jogos com manique\u00edsmo \u00e9 um erro, seja-se a favor ou contra. N\u00e3o faltam controv\u00e9rsias sobre as interven\u00e7\u00f5es urbanas que antecederam a realiza\u00e7\u00e3o dos jogos. A principal delas \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o de toda a regi\u00e3o portu\u00e1ria do Rio num polo tur\u00edstico cultural, com projetos imobili\u00e1rios pautados pela especula\u00e7\u00e3o. A recess\u00e3o, por\u00e9m, deixou de joelhos o mercado de im\u00f3veis, mas aquela regi\u00e3o degradada do Rio, mesmo assim, est\u00e1 sendo revitalizada. Tamb\u00e9m haver\u00e1 muita discuss\u00e3o sobre os custos da nova linha do Metr\u00f4, que chegou \u00e0 Barra da Tijuca, e do moderno sistema de bondes que liga o Aeroporto de Santos Dumont \u00e0 Rodovi\u00e1ria Novo Rio, passando pela antiga Avenida Rio Branco, s\u00edmbolo da reforma urbana do prefeito Pereira Passos, na d\u00e9cada de 1920. Mas s\u00e3o duas mudan\u00e7as de paradigma de mobilidade, uma humanizando o velho centro da cidade, outra integrando uma regi\u00e3o que muitos consideram outra cidade.<\/p>\n<p>Mas esse debate foi eclipsado pela abertura da festa ol\u00edmpica. \u00c9 assunto para depois. Quem insistir corre o risco de ficar falando sozinho. As Olimp\u00edadas n\u00e3o t\u00eam a menor chance de fracassar como espet\u00e1culo. Est\u00e3o associadas a valores humanos positivos, como a criatividade, a coragem, a disciplina e a \u00e9tica, e tamb\u00e9m aos atributos da esp\u00e9cie, como a beleza, a emo\u00e7\u00e3o, a for\u00e7a, a resist\u00eancia e a supera\u00e7\u00e3o. Com a tev\u00ea a cabo e as novas m\u00eddias digitais n\u00e3o existe melhor mat\u00e9ria-prima para a crise de produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado que esses novos ve\u00edculos demandam. E n\u00e3o faltam as fontes de seu financiamento com o marketing esportivo, no qual as marcas agregam valor aos seus produtos e servi\u00e7os, associando-os \u00e0s imagens que esses valores e atributos constroem e consolidam durante a realiza\u00e7\u00e3o dos jogos.<\/p>\n<p>Estamos falando da chamada \u201csociedade do espet\u00e1culo\u201d, para usar a express\u00e3o criada pelo fil\u00f3sofo e cineasta franc\u00eas Guy Debord no livro A sociedade do espet\u00e1culo \u2013 Coment\u00e1rios sobre a sociedade do espet\u00e1culo (Editora Contraponto, Rio de Janeiro, 2000), obra iniciada \u00e0s v\u00e9speras das manifesta\u00e7\u00f5es de maio de 1968, na Fran\u00e7a, e complementada 20 anos depois. Para ele, o espet\u00e1culo \u00e9 \u201ca multiplica\u00e7\u00e3o de \u00edcones e imagens, principalmente atrav\u00e9s dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, mas tamb\u00e9m dos rituais pol\u00edticos, religiosos e h\u00e1bitos de consumo, de tudo aquilo que falta \u00e0 vida real do homem comum: celebridades, atores, pol\u00edticos, personalidades, gurus, mensagens publicit\u00e1rias \u2013 tudo transmite uma sensa\u00e7\u00e3o de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia.\u201d<\/p>\n<p><strong>O legado<\/strong><\/p>\n<p>Debord analisou as Olimp\u00edadas das d\u00e9cadas de 1960 e 1970 com um duro olhar sobre o socialismo real. Via manipula\u00e7\u00e3o no esfor\u00e7o esportivo da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e Alemanha Oriental, com objetivo de construir a imagem de suposta supremacia do socialismo sobre o capitalismo, o que chamava de \u201cespet\u00e1culo concentrado\u201d. Mas tamb\u00e9m fez um duro ataque \u00e0 sociedade de consumo, na qual \u201co espet\u00e1culo \u00e9 a apar\u00eancia que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida\u201d, que associa a felicidade ao consumo.<\/p>\n<p>Nada disso invalida as Olimp\u00edadas. Como j\u00e1 disse, elas s\u00e3o o espet\u00e1culo da paz e o mundo precisa disso, sem falar numa cidade partida e conflagrada pela viol\u00eancia como o Rio de Janeiro. Se tudo der certo, o maior legado das Olimp\u00edadas para o Rio ser\u00e1 sua consolida\u00e7\u00e3o como polo tur\u00edstico internacional, muito mais do que a do Brasil como pot\u00eancia esportiva. Mauro Os\u00f3rio, especialista em economia fluminense, destaca que os empregos formais diretos em hot\u00e9is e pousadas na cidade, mesmo ap\u00f3s os investimentos para as Olimp\u00edadas, representam apenas 1% dos empregos da cidade (Rais\/MTE).<\/p>\n<p>O complexo do turismo, entretenimento, cultura e m\u00eddia fluminense precisa desse salto de qualidade para ocupar o lugar que merece numa economia arrasada pela recess\u00e3o e a \u201cdoen\u00e7a do petr\u00f3leo\u201d. Mas essa \u00e9 outra discuss\u00e3o. O importante agora \u00e9 o Brasil competir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O maior legado das Olimp\u00edadas para o Rio ser\u00e1 sua consolida\u00e7\u00e3o como polo tur\u00edstico internacional, muito mais do que a do Brasil como pot\u00eancia esportiva H\u00e1 muitas maneiras de olhar as Olimp\u00edadas do Rio de Janeiro. 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