{"id":7058,"date":"2022-09-07T06:52:21","date_gmt":"2022-09-07T09:52:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7058"},"modified":"2022-09-07T06:52:21","modified_gmt":"2022-09-07T09:52:21","slug":"nas-entrelinhas-chegamos-aos-200-anos-desorientados-e-divididos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-chegamos-aos-200-anos-desorientados-e-divididos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Chegamos aos 200 anos desorientados e divididos"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Nem mesmo em 1972, quando o Sesquicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia foi comemorado com pompa e circunst\u00e2ncia pelo regime militar, a nossa mem\u00f3ria hist\u00f3rica foi resgatada de forma t\u00e3o tosca<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O Bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil est\u00e1 sendo &#8220;comemorado&#8221; hoje, \u00e0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es gerais de 2 de outubro (daqui a 25 dias), como se fosse uma pajelan\u00e7a eleitoral. Entretanto, deveria ser uma grande festa de afirma\u00e7\u00e3o da identidade nacional, da nossa coes\u00e3o social e de um projeto de futuro.<\/p>\n<p>O presidente Jair Bolsonaro (PL), que disputa a reelei\u00e7\u00e3o, se apropriou da data para alavancar sua campanha. As mobiliza\u00e7\u00f5es &#8220;nacionalistas&#8221; programadas para Bras\u00edlia, Rio de janeiro e S\u00e3o Paulo, principalmente, tendo como coadjuvantes as For\u00e7as Armadas, que sempre foram protagonistas, s\u00e3o atos de provoca\u00e7\u00e3o contra o Estado democr\u00e1tico de direito e suas institui\u00e7\u00f5es, principalmente o Supremo Tribunal Federal (STF). Seus organizadores acreditam que o 7 de Setembro ser\u00e1 o &#8220;fato novo&#8221; capaz de promover uma virada no cen\u00e1rio das elei\u00e7\u00f5es. Veremos.<\/p>\n<p>\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita. Nem mesmo em 1972, quando o Sesquicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia foi comemorado com pompa e circunst\u00e2ncia pelo regime militar, a nossa mem\u00f3ria hist\u00f3rica foi resgatada de forma t\u00e3o tosca. \u00c0quela \u00e9poca, criou-se uma comiss\u00e3o governamental em parceria com Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico com a tarefa de resgatar as lutas pela Independ\u00eancia, com objetivo de fortalecer os v\u00ednculos entre o projeto de institucionaliza\u00e7\u00e3o do regime autorit\u00e1rio ent\u00e3o vigente e o sentimento nacionalista do povo. Mem\u00f3ria e identidade caminhavam juntas, mesmo que com o vi\u00e9s autorit\u00e1rio da \u00e9poca.<\/p>\n<p>O pa\u00eds vivia o &#8220;chamado milagre brasileiro&#8221;, com base no trip\u00e9 econ\u00f4mico empresas estatais-iniciativa privada nacional-investimentos estrangeiros, com instala\u00e7\u00e3o de empresas multinacionais e empr\u00e9stimos bilion\u00e1rios. Os militares tinham um projeto nacional desenvolvimentista, aut\u00e1rquico, a custa de muito endividamento externo.<\/p>\n<p>Operou-se a chamada &#8220;moderniza\u00e7\u00e3o conservadora&#8221;, sob a l\u00f3gica de &#8220;fazer o bolo crescer para depois dividir&#8221;. Houve arrocho salarial para a grande massa trabalhadora, mas formou-se uma nova e abastada classe m\u00e9dia, que apoiava o regime.<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o de capital e a desigualdade social se cristalizaram como par dial\u00e9tico da nossa economia, mas houve maior integra\u00e7\u00e3o nacional e o Brasil passou a contar com uma base industrial robusta. Tanto os militares como a oposi\u00e7\u00e3o, que estava sendo massacrada, tinham um projeto de futuro nacional desenvolvimentista. O divisor de \u00e1guas era a falta de democracia.<\/p>\n<p>Os radicais de direita que comemoram nas ruas o Bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia t\u00eam como refer\u00eancia um passado imagin\u00e1rio, no qual glamorizam o regime militar e ignoram os seus equ\u00edvocos, que o levaram \u00e0 bancarrota, ap\u00f3s 20 anos de ditadura. O manique\u00edsmo \u00e9 uma caracter\u00edstica da mentalidade reacion\u00e1ria, aqui ou em qualquer lugar do mundo.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que as comemora\u00e7\u00f5es oficiais do Bicenten\u00e1rio foram abduzidas pela campanha de Bolsonaro, sem que as institui\u00e7\u00f5es governamentais tenham feito qualquer reflex\u00e3o sobre o futuro do pa\u00eds, nem mesmo aquelas que tradicionalmente se preocuparam com isso, como o Itamaraty e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES).<\/p>\n<p><strong>Elites e populismo<\/strong><\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, uma das reflex\u00f5es mais instigantes sobre o Bicenten\u00e1rio foi a palestra do embaixador Rubens Ric\u00fapero na Academia Brasileira de Letras (ABL), na sexta-feira passada, na qual ele indagava o que o Brasil poderia fazer ao longo dos pr\u00f3ximos 100 anos. \u00c9 muita ironia, os principais protagonistas da vida nacional est\u00e3o pensando nos pr\u00f3ximos 25 dias. Ric\u00fapero ainda acredita que o Brasil pode ser tornar uma pot\u00eancia ambiental, de direitos humanos, de promo\u00e7\u00e3o da igualdade racial e social, solid\u00e1ria a fracos e miser\u00e1veis. A agenda das manifesta\u00e7\u00f5es programadas para hoje vai na dire\u00e7\u00e3o diametralmente contr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Disc\u00edpulo &#8220;incondicional&#8221; de Capistrano de Abreu, o primeiro a valorizar a import\u00e2ncia do &#8220;povo capado e recapado, sangrado e ressangrado&#8221; na forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Brasil, Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues, falecido em abril de 1987, aos 73 anos de idade, era um historiador liberal democrata de forma\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00e3. Na colet\u00e2nea Concilia\u00e7\u00e3o e reforma no Brasil: interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico pol\u00edtica (Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1965), ele destacou que a concentra\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico por um grupo conservador impediu o progresso do pa\u00eds durante s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Para ele, as lutas pela independ\u00eancia poderiam fundar as bases nacionais em terreno popular e liberal, mas foram derrotadas. A Independ\u00eancia n\u00e3o significou uma ruptura, mas a continuidade da ordem privilegiada das elites escravocratas da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Em 1822, nas d\u00e9cadas de 1830 e 1840, em 1889, 1930, 1945, 1961 e 1964 deu-se o mesmo. &#8220;Os poderes dominantes tiveram sempre for\u00e7a para conter as aspira\u00e7\u00f5es profundas de mudan\u00e7a e reverter os movimentos de modo a sustentar seu sistema, e seus privil\u00e9gios&#8221;, diagnosticou num dos ensaios da colet\u00e2nea, intitulado Teses e ant\u00edteses da Hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>Hon\u00f3rio considerava o populismo &#8220;uma esp\u00e9cie de primitivismo pol\u00edtico (\u2026), um instrumento de agita\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel, de meio desordenado de degrada\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e dos pol\u00edticos&#8221;. Dizia que foi um entrave ao crescimento ordenado e eficiente nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960: &#8220;A campanha de luta e agita\u00e7\u00e3o (\u2026) desgastou o progressismo que se vinha formando e criou barreiras intranspon\u00edveis (\u2026) O radicalismo vindo de cima, que mais agitava do que propunha construir (\u2026) uma pedra no caminho da reforma e do progresso nacional. N\u00e3o uniu, dividiu&#8221;. Parece que a hist\u00f3ria se repete.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem mesmo em 1972, quando o Sesquicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia foi comemorado com pompa e circunst\u00e2ncia pelo regime militar, a nossa mem\u00f3ria hist\u00f3rica foi resgatada de forma t\u00e3o tosca O Bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil est\u00e1 sendo &#8220;comemorado&#8221; hoje, \u00e0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es gerais de 2 de outubro (daqui a 25 dias), como se fosse uma pajelan\u00e7a eleitoral. 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