{"id":7112,"date":"2022-09-25T09:45:19","date_gmt":"2022-09-25T12:45:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7112"},"modified":"2022-09-25T11:13:08","modified_gmt":"2022-09-25T14:13:08","slug":"nas-entrelinhas-confronto-lula-versus-bolsonaro-protagoniza-semana-epica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-confronto-lula-versus-bolsonaro-protagoniza-semana-epica\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Confronto Lula versus Bolsonaro protagoniza semana \u00e9pica"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O her\u00f3i pode ser um indiv\u00edduo comum que se insere e se destaca no mundo por meio do discurso, se move quando os outros est\u00e3o paralisados. Precisa fazer aquilo que outro poderia ter feito, mas n\u00e3o fez<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Os poemas \u00e9picos surgiram na Antiguidade, por\u00e9m, entraram em decad\u00eancia no s\u00e9culo XVII, quando surgiram as narrativas em prosa, o romance. Dom Quixote, por exemplo, de Miguel de Cervantes, foi uma obra revolucion\u00e1ria porque representou a inven\u00e7\u00e3o do romance e, ao mesmo tempo, desnudou a realidade. Quando Miguel de Cervantes mandou Dom Quixote viajar, rasgou a cortina m\u00e1gica, tecida de lendas, que estava suspensa diante do mundo.<\/p>\n<p>A vida se abriu com a nudez c\u00f4mica de sua prosa, destaca o escritor tcheco Milan Kundera (A Cortina, Companhia das Letras): \u201cAssim como uma mulher que se maquia antes de sair apressada para o primeiro encontro, o mundo, quando corre em nossa dire\u00e7\u00e3o, no momento que nascemos, j\u00e1 est\u00e1 maquiado, mascarado, pr\u00e9-interpretado. E os conformistas n\u00e3o ser\u00e3o os \u00fanicos a ser enganados; os seres rebeldes, \u00e1vidos de se opor a tudo e a todos, n\u00e3o se d\u00e3o conta do quanto tamb\u00e9m est\u00e3o sendo obedientes, n\u00e3o se revoltar\u00e3o a n\u00e3o ser contra o que interpretado (pr\u00e9-interpretado) como digno de revolta.\u201d<\/p>\n<p>Il\u00edada e Odisseia, de Homero; Eneida, de Virg\u00edlio (70 a. C.-19 a. C.); e Os Lus\u00edadas, de Lu\u00eds Vaz de Cam\u00f5es (1524-1580), s\u00e3o exemplos de poemas \u00e9picos. Toda epopeia cl\u00e1ssica come\u00e7a com a revela\u00e7\u00e3o do her\u00f3i e sua tem\u00e1tica, invocando uma divindade inspiradora do autor, que narra os feitos heroicos do protagonista. Ou seja, a inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 o passado, mas este serve de rever\u00eancia atemporal para a Hist\u00f3ria, representa o processo civilizat\u00f3rio. N\u00e3o \u00e0 toa Virg\u00edlio buscou inspira\u00e7\u00e3o em Homero. Roma resgatava a cultura e os padr\u00f5es est\u00e9ticos da Gr\u00e9cia Antiga, numa narrativa plena de aventuras e hero\u00edsmo.<\/p>\n<p>No poema \u00e9pico, o her\u00f3i reproduz as qualidades do seu povo, n\u00e3o apenas suas caracter\u00edsticas individuais. Tem uma miss\u00e3o quase imposs\u00edvel a cumprir, o que destaca suas qualidades ao longo de uma narrativa, na qual suas dificuldades s\u00e3o extraordin\u00e1rias. No modernismo, o poema Mensagem, de 1934, o poeta portugu\u00eas Fernando Pessoa, com m\u00e9trica e rima, resgata o hero\u00edsmo e a grandeza de Portugal no per\u00edodo dos Descobrimentos, numa cr\u00edtica \u00e0 decad\u00eancia da elite de sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>Publicado oficialmente no M\u00e9xico em 1950, e clandestinamente no Chile, no mesmo ano, &#8220;Canto Geral&#8221;, de Pablo Neruda, \u00e9 outro poema \u00e9pico. Escrito quando o poeta fugia do Chile para Argentina, pela cordilheira dos Andes, os versos denunciam as injusti\u00e7as hist\u00f3ricas que os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina sofreram ao longo dos s\u00e9culos. Vil\u00f5es e her\u00f3is s\u00e3o reclassificados a partir da sua perspectiva.<\/p>\n<p>Escrito em Buenos Aires, em 1976, o Poema Sujo, de Ferreira Gullar, \u00e9 outro exemplo de poema \u00e9pico. Seus dois mil versos s\u00e3o uma esp\u00e9cie de ode \u00e0 liberdade. O poeta j\u00e1 havia estado exilado em Moscou, em Santiago e em Lima. No Brasil, o regime militar implantado ap\u00f3s o golpe de 1964 tinha autoriza\u00e7\u00e3o para enviar agentes dos servi\u00e7os de seguran\u00e7a \u00e0 Buenos Aires e capturar pol\u00edticos oposicionistas. Temendo pela pr\u00f3pria vida, Gullar trancou-se no apartamento onde morava, na Avenida Hon\u00f3rio Pueryredon, em Buenos Aires, e escreveu o poema como se fosse um testamento, uma s\u00edntese do que pensava sobre a cultura e a vida.<\/p>\n<p><strong>Mitos e her\u00f3is<\/strong><br \/>\nTeremos uma semana \u00e9pica aqui no Brasil, na qual est\u00e1 se decidindo o nosso futuro, num embate entre o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e o presidente Jair Bolsonaro, que pode se decidir no primeiro turno em favor do primeiro ou nos levar a um segundo turno imprevis\u00edvel, n\u00e3o do ponto de vista eleitoral, mas institucional. Ser\u00e1 uma semana tensa, de muitas agress\u00f5es e estresse emocional.<\/p>\n<p>O mito de que o brasileiro \u00e9 um &#8220;homem cordial&#8221; vem de um senso comum, desconstru\u00eddo por S\u00e9rgio Buarque de Holanda, em Ra\u00edzes do Brasil. A express\u00e3o cordial \u00e9 um &#8220;tipo ideal&#8221; que n\u00e3o indica apenas bons modos e gentileza, vem da palavra latina &#8220;cordis&#8221;, que significa cora\u00e7\u00e3o. Segundo Buarque, o brasileiro precisa viver nos outros. A cordialidade muitas vezes \u00e9 mera apar\u00eancia, &#8220;det\u00e9m-se na parte exterior, epid\u00e9rmica, do indiv\u00edduo, podendo mesmo servir, quando necess\u00e1rio, de pe\u00e7a de resist\u00eancia.&#8221; A nossa hist\u00f3ria mostra o quanto a luta pol\u00edtica pode ser cruel.<\/p>\n<p>Lula e Bolsonaro s\u00e3o figuras mitol\u00f3gicas da pol\u00edtica brasileira, Lula \u00e9 o l\u00edder metal\u00fargico que chegou l\u00e1, passou o p\u00e3o que o diabo amassou ap\u00f3s deixar o poder e renasceu das cinzas, como f\u00eanix. Bolsonaro \u00e9 o \u201cmito\u201d que desafiou o sistema, construiu uma carreira pol\u00edtica na contram\u00e3o, lan\u00e7ou-se \u00e0 disputa pela Presid\u00eancia com a cara e a coragem, sobreviveu ao atentado que o deixou entre a vida e a morte na reta final da campanha de 2018. Um tenta voltar ao poder, com o passivo dos esc\u00e2ndalos de seu governo e um legado de realiza\u00e7\u00f5es sociais; o outro, tenta a reelei\u00e7\u00e3o, com uma agenda conservadora e o fardo de um governo desastrado, da falta de empatia e das suas grosserias mis\u00f3ginas. Encarnam o papel de her\u00f3i e anti-her\u00f3i, simultaneamente, para uma sociedade dividida entre \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d.<\/p>\n<p>Ulysses, o semideus grego da Il\u00edada de Homero tinha uma exist\u00eancia verdadeira, voltava para casa, tinha uma vida normal, at\u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o exigisse um gesto glorioso e individual. A fil\u00f3sofa judia alem\u00e3 Hanna Arendt dizia que a disposi\u00e7\u00e3o de pensar, agir e falar politicamente pode mudar o curso na hist\u00f3ria. O her\u00f3i pode ser um indiv\u00edduo comum que se insere e se destaca no mundo por meio do discurso, se move quando os outros est\u00e3o paralisados. Precisa fazer aquilo que outro poderia ter feito, mas n\u00e3o fez; ou melhor, o que deixaram de fazer. Lula e Bolsonaro est\u00e3o ancorados no passado, t\u00eam projetos antag\u00f4nicos, populistas, um \u00e9 democrata, o outro \u00e9 autorit\u00e1rio, mas v\u00e3o decidir o futuro de todos n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O her\u00f3i pode ser um indiv\u00edduo comum que se insere e se destaca no mundo por meio do discurso, se move quando os outros est\u00e3o paralisados. 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